7 de dezembro de 2019
Quando a versão é melhor que o original
 
Quando temos tantas histórias interessantes para contar, pensar em um filme brasileiro adaptado de uma produção argentina chega a ser preocupante, mesmo deixando essa ridícula rivalidade com os hermanos de lado. “Um Namorado Para Minha Mulher” que chega aos cinemas amanhã, com sua versão “Herbert Richers”, supera o original, não só pelo elenco, mas também por ser bem mais engraçado e interessante.
 
Nele, Chico (Caco Ciocler) se sente cansado e preso a relação desgastada com sua mulher, Nena (Ingrid Guimarães), que não trabalha e só reclama da vida, achando tudo extremamente chato. Sem coragem de pedir o divórcio, ele procura a ajuda de um cara esquisitão, e ao mesmo tempo charmoso, chamado “Corvo” (Domingos Montagner), para que ele seduza Nena e faça com que ela peça a separação. Mas o tiro sai pela culatra e Chico percebe que não quer mais ficar solteiro, enquanto o figurão se apaixona pela reclamona.
 
O roteiro adaptado pela diretora Julia Rezende e por Lusa Silvestre (Estômago) ganha uma cara extremante brasileira e atual, de forma despretensiosa e descontraída. Sem tentar ser engraçado, o texto fala por se e apresenta personagens palpáveis ao cotidiano. Tratando de uma comédia romântica, gênero que vem ganhando um público fiel nos últimos anos, o roteiro não deixa nada a desejar comparado a filmes do mesmo gênero produzidos por Hollywood.
 
Julia, que vem marcando seu território no audiovisual nacional, acerta mais uma vez em sua direção. Abusa da versatilidade de seu elenco principal e extrai deles o ponto certo para narrativa. Em sua filmografia com diretora, de longe, esse é seu melhor trabalho. Entrando, em méritos mais técnicos, quase 90% dos planos escolhidos na edição final são verdadeiramente cinematográficos, mas os outros dez é visivelmente televisivo, com enquadramentos centrais e sem muita vivacidade, seja por movimento, seja por perspectiva. 
 
O longa que já começa com uma versão de Joey Ramone para “What a Wonderful World” segue como tema do casal e apresenta muito bem a dualidade do relacionamento de Chico e Nena. O fato de ser um filme brasileiro e não ter samba, nem cuíca, é maravilhoso! Todos nós sabemos, que mesmo sem ter nada a ver com samba e carnaval, sempre inventam de enfiar o brasileiro som nas produções. Aqui o rock é quem ganha o espaço trazendo ainda “Esse Tal de Roque Enrow” da Rita Lee. Diga-se de passagem, colocar Arerê de Ivete Sangalo, mesmo não sendo um rock, foi genial.
Um ponto que sempre preocupa nas produções contemporâneas nacionais são a falta de unidade no figurino, e muitas vezes no departamento de arte em geral. Enxergamos as personalidades dos personagens, vivenciamos as transformações (quando as ocorre), mas falta a unidade visual, uma verdadeira palheta para a produção. Talvez o ponto mais interessante desse filme seja reconhecer algumas peças que podemos achar hoje nas lojas para comprar e algumas que já podem até estar em seus próprios guarda-roupas.
 
Falando em pecar, a direção de arte acerta em vários pontos do filme, mas na “barraquinha” de fera da Graça não. A impressão deixada na tela, é que faltou produzir mais produtos orgânicos e, mesmo que bem organizados, o volume teria feito toda a diferença para a composição. Em contraponto, a ótima direção de fotografia de Dante Belluti casada com a edição de Letícia Giffoni fazem uma atraente união, por vezes ágil e sagaz, para uma comedia romântica.
 
Dos coadjuvantes o destaque é do Marcos Veras, mesmo tendo poucas cenas. Miá Mello e Paulo Vilhena, ainda que sejam relativamente bons em cena e façam o que precisa ser feito, apresentam uma “versão” de se mesmo para as câmeras. Aí, não temos muito como defender.

Depois de dois fraquíssimos “De Pernas Pro Ar”, o engraçadinho “Loucas Pra Casar” e o até interessante “Idas e Vindas”, Ingrid Guimarães acerta em cheio e conquista facilmente qualquer um. O fato da personagem não ser engraçada exige um trabalho melhor de Ingrid, que o faz muito bem, sem forçar a barra, apresentando uma desenvoltura pouco vista nos seus trabalhos anteriores no cinema. Caco Ciocler é o banana que a “mulherada”, e parte da “homarada”, vai querer em casa. Inicialmente ele tinha tudo para ser o zé ninguém da história, mas seu trabalho faz de Chico uma figura dinâmica, interessante e por muitas vezes fofa. Domingos Montagner, com seu freak seduction, é uma referência quase esculpida e escarrada de “O Corvo (1994)” – sem chilique fãs e cinéfilos –, com um tom mais leve e irreverente que dão um diferencial a proposta.

“Um Namorado Para Minha Mulher” é engraçado, é romântico e é uma grata surpresa para o cinema nacional. Tocando delicadamente em situações cotidianas, por vezes bobas, com a dose certa de humor, o filme agrada por não ser um besteirol e por arrancar sorrisos sinceros de que quem o assiste.

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Paulo Olivera

Paulo Olivera é mineiro, Gypsy Lifestyle e nômade intelectual. Apaixonado pelas artes, Bombril na vida profissional e viciado em prazeres carnais e intelectuais inadequados para menores e/ou sem ensino médio completo.

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