Crítica: Virei um gato

Não muito mais que uma caixa de areia

Quem tiver a persistência de um felino teimoso e chegar ao final de “Virei um gato” certamente irá se perguntar o que levou Kevin Spacey e Christopher Walken a aceitarem participar deste filme. A melhor parte dele está justamente no começo e não tem nada a ver com a dramaturgia: vídeos engraçadinhos de gatos que oferecem mais diversão do que o filme inteiro.

Tom Firebrand (Kevin Spacey) é um homem rico e poderoso obcecado em construir o prédio mais alto do Hemisfério Norte. Por conta de suas ocupações profissionais, deixa a família de lado e é um pai ausente para Rebecca (Malina Weissman), que quer muito ganhar um gato de presente de aniversário. Tom odeia gatos, mas vai à estranha Purrkins Pet Shop, onde Mr. Perkins (Christopher Walken) lhe entrega um bichano chamado Bola de Pelos.

Ao descobrir que talvez seu arranha-céu perca lugar para outro em Chicago, Tom vai se encontrar com o mal intencionado Ian (Mark Consuelos), seu funcionário, no alto da torre. Acaba sendo atingido por um raio e despenca de lá de cima, entrando em coma. Descobre, então, que passou a habitar o corpo de Bola de Pelos e que, se vier a morrer, ficará preso para sempre no corpo do gato. Como se não bastasse esse clichê surrado, há outro: é dentro do animal que ele tem que refletir sobre seu comportamento em relação à família e tentar melhorar. Durmamos.

Não, não é possível nem mesmo cochilar, porque os eternos miados insuportáveis de Bola de Pelos não permitem. Talvez só os amantes de gatos apreciem este filme. Quem não nutre muita simpatia pelos bichanos irá certamente ficar entediado, apesar de uma ou outra cena engraçada, como a engenhosidade de Bola de Pelos para se servir de uísque e a acidental destruição de um porta-retratos.Jennifer Garner (Lara, a atual mulher de Tom) tem uma certa comicidade mas seu papel não lhe permite alçar grandes voos. Um pouco mais favorecida é Cheryl Hines (Madison, a ex- esposa) e Talitha Bateman (sua filha Nicole). Esta caracteriza bem a futilidade pré-adolescente e suas pequenas maldades, em contraste com a boa menina Rebecca. Malina Weissman também cumpre bem seu papel.

O roteiro é ruim e previsível. Os diálogos são pobres e sem muita criatividade. Ainda que um filme não tenha maiores pretensões artísticas, há que se criar algo além do medíocre. Como se não bastassem as falas tolas, existem momentos em que a história é contada de forma maçante: enquanto Tom permanece em coma, seu filho mais velho, David (Robbie Amell) entra em atrito com Ian, que articula a venda da empresa. Esta parte da trama é um tanto quanto cansativa e talvez seja até mesmo confusa para o público infantil.

É de se estranhar que “Virei um gato” tenha sido dirigido por Barry Sonnenfeld, que assinou sucessos de bilheteria como “A Família Addams” e “Homens de Preto”. A impressão é que todos os envolvidos no filme estavam precisando urgentemente pagar as contas.

 Talvez as melhores coisas  – além da abertura aqui já citada – sejam a estranha loja do Sr. Perkins e o próprio. Ou, quem sabe – perdão pela crueldade – o fato de que a duração não chega a 90 minutos.


Neuza Rodrigues

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