Quando a busca pela inspiração transforma um escritor em refém da própria experiência, o terror deixa de estar apenas nas páginas e passa a cobrar seu preço na vida real
Existe algo mais frustrante do que assistir a um filme com uma premissa instigante e perceber, aos poucos, que seus realizadores não sabem muito bem o que fazer com ela? Em “Cuidado com o que Deseja” (“La Silla”), o terror começa com uma situação potencialmente angustiante, mas acaba revelando algo ainda mais assustador: a dificuldade de transformar uma boa ideia em um filme realmente envolvente.
Dirigido e roteirizado pelo espanhol Ángel de la Cruz, o longa acompanha Daniel Lonces (Jaime Lorente), um escritor de terror que decide experimentar na própria pele a situação vivida pelo protagonista de seu próximo livro. Para isso, pede à esposa que o amarre e amordace a uma cadeira por duas horas. O que deveria ser um exercício temporário de preparação literária transforma-se em um pesadelo quando um acidente muda completamente o rumo dos acontecimentos, deixando Daniel preso e seu filho pequeno em uma situação de perigo.
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A premissa funciona. Existe potencial para explorar a vulnerabilidade humana, a ilusão de controle, a culpa e os limites da obsessão criativa. Afinal, colocar voluntariamente o próprio corpo em uma situação de impotência para compreender melhor um personagem é uma decisão que abre espaço para um suspense psicológico interessante. O problema é que uma boa ideia, sozinha, não sustenta um filme inteiro. E é justamente aí que La silla começa a tropeçar.
Uma cadeira, muitos problemas!
A atuação de Jaime Lorente é mediana. O ator, conhecido por trabalhos como “La Casa de Papel” e “Elite”, carrega boa parte da responsabilidade dramática da produção, mas seu desempenho não consegue elevar significativamente um material que carece de força narrativa. A situação exige expressividade, desespero e uma construção emocional capaz de manter o espectador conectado à angústia do personagem.
Entretanto, sua interpretação não alcança a intensidade necessária para transformar a experiência em algo memorável. O elenco de apoio tampouco convence. As subtramas parecem disputar espaço com a história principal sem acrescentar a profundidade dramática que deveriam proporcionar. Os personagens secundários acabam funcionando mais como instrumentos para movimentar os acontecimentos do que como figuras devidamente desenvolvidas. Em vez de enriquecer o conflito central, essas histórias paralelas tornam a narrativa dispersa e enfraquecem o envolvimento emocional.
A situação apresentada pelo filme também não é exatamente uma novidade cinematográfica. O confinamento, a impotência física e a luta pela sobrevivência já foram explorados de maneiras muito mais interessantes pelo gênero. O problema não está em revisitar uma fórmula conhecida, mas em não conseguir oferecer uma abordagem suficientemente original para justificar mais uma visita a esse território.
O terror de ficar parado!

A escolha de concentrar boa parte da narrativa em um único ambiente poderia funcionar como uma virtude. O espaço limitado tem potencial para intensificar a claustrofobia, transformar objetos cotidianos em instrumentos de sobrevivência e fazer do silêncio um aliado da tensão. Mas existe uma diferença considerável entre construir uma atmosfera sufocante e simplesmente tornar a experiência maçante.
Em “La silla”, a permanência prolongada naquele ambiente acaba pesando sobre o ritmo. A repetição das situações e a dificuldade de renovar o interesse fazem com que o confinamento, inicialmente promissor, se transforme em um obstáculo para o próprio filme. A cadeira deveria ser o centro de uma engenhosa construção de suspense; em vários momentos, parece apenas o ponto de partida para uma narrativa que não sabe como avançar.
A direção de Ángel de la Cruz também demonstra certa falta de rumo. Há momentos em que a produção parece buscar novos caminhos para intensificar o drama, mas sem estabelecer uma progressão convincente. A impressão é de que o roteiro precisa inventar continuamente novas complicações para manter a história em movimento, mesmo quando essas soluções não parecem organicamente construídas.
Os recursos técnicos empregados na construção do suspense, por sua vez, são previsíveis. A manipulação dos silêncios, a preparação para determinados acontecimentos e os mecanismos utilizados para provocar apreensão raramente surpreendem. O espectador percebe com antecedência os caminhos que a narrativa pretende seguir, diminuindo o impacto de situações que deveriam provocar desconforto ou tensão genuína.
O suspense precisa de antecipação, evidentemente, mas também exige criatividade para subverter expectativas. Quando o público começa a enxergar os mecanismos antes que eles produzam algum efeito, a experiência perde boa parte de sua força.
Entre Hitchcock e a sombra de Stephen King
Uma comparação inevitável surge quando pensamos em “O Jogo de Gerald” (2017), adaptação da obra de Stephen King dirigida por Mike Flanagan. Assim como naquele filme, a limitação física transforma a sobrevivência em um exercício de inteligência, resistência e enfrentamento psicológico.
Entretanto, enquanto a obra de Flanagan utiliza o confinamento para explorar traumas, conflitos internos e vulnerabilidades profundas, La silla não consegue desenvolver seu material com a mesma consistência. A comparação não é desfavorável simplesmente porque um filme é melhor que o outro, mas porque evidencia como uma situação semelhante pode produzir resultados muito diferentes, dependendo da qualidade do roteiro e da direção.
O próprio filme faz referências explícitas a Alfred Hitchcock e Stephen King, conforme observa a crítica espanhola do Espinof. Mas conhecer os mestres do suspense, homenageá-los ou inserir referências às suas obras não significa dominar os mesmos recursos narrativos.
Hitchcock compreendia que o suspense depende da maneira como a informação é administrada, de como o espectador antecipa o perigo e de como cada detalhe contribui para a tensão. Stephen King, por sua vez, frequentemente transforma situações aparentemente banais em experiências de terror psicológico. Em La silla, essas referências parecem mais promissoras no conceito do que efetivas na execução.
O resultado é um suspense que se esforça para parecer imprevisível, mas frequentemente deixa à mostra as engrenagens que deveriam permanecer ocultas.
Um final que não se sustenta
Se a premissa desperta curiosidade e o confinamento estabelece uma situação potencialmente angustiante, o desfecho deveria ser o momento de maior recompensa narrativa. É ali que as escolhas anteriores precisam encontrar sentido, que os conflitos devem alcançar uma conclusão satisfatória e que a experiência precisa justificar o investimento do espectador.
Infelizmente, o final fica aquém do que foi proposto. Em vez de consolidar a tensão construída ao longo da história, o desfecho acaba reforçando os problemas de credibilidade e a sensação de que a narrativa não encontrou uma solução à altura de sua ideia inicial. A conclusão não entrega o impacto esperado e deixa uma impressão de desperdício de potencial. É frustrante perceber que um filme com uma situação tão simples e promissora consegue complicar tanto o próprio percurso sem que essas complicações resultem em algo verdadeiramente recompensador.
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Do livro para a tela: uma ideia com história
La silla é baseado no romance homônimo do escritor espanhol David Jasso, publicado originalmente em 2006 pela editora Equipo Sirius. A obra ganhou uma edição definitiva pela Apache Libros em 2023, com 336 páginas.
O livro acompanha Daniel Lonces, um escritor de sucesso que decide experimentar pessoalmente a situação que pretende descrever em sua próxima obra. A partir desse ponto, acontecimentos inesperados transformam a experiência em uma luta desesperada pela sobrevivência.
A proposta literária aposta no terror psicológico extraído de situações cotidianas, sem depender necessariamente de criaturas sobrenaturais ou ameaças fantásticas. O medo nasce da vulnerabilidade, dos pequenos imprevistos e da percepção de que circunstâncias aparentemente controláveis podem se transformar em um pesadelo.
É uma ideia que encontra no confinamento um terreno fértil para a construção da angústia. O desafio da adaptação cinematográfica, portanto, era converter essa experiência em linguagem audiovisual, explorando enquadramentos, sons, silêncios, expressões e uma progressão dramática capaz de sustentar o interesse durante toda a projeção.
O filme, porém, não consegue aproveitar plenamente esse potencial. Sem uma comparação cena a cena com o romance, não seria justo afirmar que os problemas estão necessariamente na adaptação ou que o livro resolve todas as fragilidades percebidas na tela. Ainda assim, a existência de uma obra literária anterior torna pertinente a pergunta: o que se perdeu na transposição de uma premissa tão concentrada para o cinema?
Talvez a resposta esteja menos na ideia original do que na maneira como ela foi desenvolvida.
Conclusão
“Cuidado com o que Deseja” (“La Silla”, 2026) é um exemplo de como uma premissa interessante pode acabar sufocada pelas próprias limitações de sua execução. A atuação mediana do protagonista, o elenco de apoio pouco convincente, as subtramas sem força, a direção irregular, a previsibilidade dos mecanismos de suspense e um desfecho insatisfatório comprometem o resultado.
Não se trata de exigir que todo filme de terror reinvente o gênero ou apresente uma revolução cinematográfica. Às vezes, uma boa ideia, uma direção segura e uma execução competente são suficientes para produzir um suspense eficiente. O problema é que “La Silla” não consegue transformar seus elementos mais promissores em uma experiência consistente.
A cadeira tinha potencial para ser uma prisão psicológica angustiante. Acaba se tornando, também, uma espécie de prisão narrativa, da qual o próprio filme parece não conseguir escapar.
No fim, sobra uma premissa que desperta curiosidade, mas falta o desenvolvimento necessário para transformar essa curiosidade em satisfação cinematográfica.
Imagem Destacada: Divulgação/Adrenalina Pura+



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