Dirigido por May el-Toukhy, “Mulher Desconhecida”, vencedor do Leão de Ouro em Veneza, acompanha uma empregada doméstica perseguida pelo passado e expõe
A cena de abertura de “Mulher Desconhecida”, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza deste ano, já entrega ao espectador mais atento qual será o clima do filme dirigido por May el-Toukhy. Nela, a câmera da cineasta executa um travelling vertical de cima para baixo, ao mesmo tempo em que “olha para cima”, em um pátio cercado de prédios de alto padrão, como se descesse a uma cova de concreto e, assim, representasse a decadência mortal das pessoas que habitam cada um daqueles apartamentos.

O cenário que se desenrola a partir daí é o de uma Copenhague logo após o fim da ocupação nazista, na Segunda Guerra Mundial. Derrotado o inimigo, o que resta é uma espécie de tribunal de inquisição, no qual membros da resistência dinamarquesa perseguem cidadãos que apoiaram os alemães e os conduzem à praça pública para o escrutínio violento da multidão.
Um detalhe, contudo, é que todas as “sessões de julgamento” apresentadas pelo filme envolvem mulheres, que têm os cabelos cortados, as roupas arrancadas e a suástica pintada com tinta vermelha no corpo. Trata-se, portanto, de uma clara mensagem do roteiro da própria el-Toukhy, escrito em parceria com Maren Louise Käehne: naquela sociedade em reconstrução, algumas minorias sofrem mais as consequências do que o restante da população.
E isso se confirma na protagonista do longa, uma empregada doméstica que se envolve com o homem abastado para quem trabalha. O patrão, que perdeu a esposa para o câncer e tem uma filha pequena, apaixona-se e decide se casar com ela. Chamada Marie (Mathilde Arcel), ela também está apaixonada, mas enxerga na relação uma chance de viver melhor depois de uma guerra que quase a matou. Alcançar o objetivo, porém, não será fácil, sobretudo após o surgimento de um soldado que conhece o passado misterioso e suspeito dela, o que trará consequências.
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Como em uma verdadeira provação, a personagem enfrenta maus bocados. É constantemente vilipendiada por algum homem, seja o soldado já mencionado, seja um médico que, em determinada cena, transforma um exame ginecológico em uma quase tortura, seja o próprio futuro esposo, que, embora não seja violento, revela com frequência sua faceta autoritária. Há ainda outros momentos que geram feridas físicas e psicológicas, mas convém silenciar sobre eles para evitar spoilers.
O mais importante a dizer é que “Mulher Desconhecida” retrata uma sociedade que, após breve reflexão, pouco mudou de 1945 até agora. Tanto na época quanto hoje, a burguesia está sempre um passo à frente do restante. O povo mais humilde, e mais especificamente as minorias, é quem mais sofre em qualquer adversidade, como uma guerra. Tanto na Segunda Guerra Mundial quanto em Gaza, em 2026, mulheres, crianças e idosos figuram entre as maiores vítimas, seja pela morte certa, seja pela destruição de seus corpos em vida.

A cineasta May el-Toukhy sabe muito bem disso e enche seu filme de elementos visuais para que a mensagem seja compreendida, como o fato de Marie estar sempre cercada pelo vermelho, a mesma cor da tinta usada nas suásticas mencionadas acima, seja no casaco que veste, seja em uma cortina ou mesmo no sangue que jorra em vários momentos do longa. Somam-se a isso os cômodos sempre mal iluminados do apartamento onde mora e a leve inclinação do eixo da câmera em algumas cenas. São escolhas que provocam desconforto e a impressão de que algo ruim está prestes a acontecer.
Ainda assim, “Mulher Desconhecida”, por mais que ofereça essas pistas visuais e leve o espectador a pensar que sabe qual será o destino de Marie, opta por ser menos óbvio em sua conclusão, que abandona escolhas mais impactantes em favor de uma mais reflexiva; afinal de contas, trata-se de um filme que busca analisar a condição humana em tempos de guerra e a mudança ou não desta quando o conflito termina e o mundo volta a ser, em tese, pacífico. A aposta é bem-sucedida e percebe-se, no início dos créditos, que o Leão de Ouro em Veneza foi plenamente merecido.
“Mulher Desconhecida” foi visto durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
imagem destacada: Distibuição/California Filmes


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