Primeiro longa de Achille Ronaimou parte de uma tradição do Chade para discutir culpa, pobreza e justiça, mas o ritmo lento e algumas questões sem resposta prejudicam a experiência
Exibido no Festival do Rio 2026, “Diya – O Preço do Sangue“ chama atenção principalmente pelo universo que apresenta. Dirigido e escrito por Achille Ronaimou, o longa se passa no Chade, começando em N’Djamena e seguindo posteriormente para o norte do país. Com 96 minutos de duração, a história parte de um acidente para abordar culpa, dinheiro, família e justiça, colocando uma tradição local no centro de todo o conflito.
Falado em árabe e francês, o filme aproveita bastante o contexto cultural do país. Os costumes, a religião, as diferenças sociais e a própria condição financeira do protagonista possuem peso na história. É uma realidade pouco vista nas produções que normalmente chegam ao público brasileiro e que desperta curiosidade. O problema é que o roteiro demora para avançar em vários momentos e deixa algumas situações sem uma resolução tão clara quanto poderiam ter.
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Um acidente muda completamente a vida de Dane

A história acompanha Dane, interpretado por Ferdinand Mbaïssané, motorista de uma ONG humanitária que vive em N’Djamena com Delphine, sua esposa grávida. Durante um momento de distração ao volante, ele atropela um menino e tenta socorrê-lo. Depois de toda a confusão no hospital, recebe a notícia de que a criança morreu.
A família do garoto passa então a exigir o pagamento da diya, uma compensação financeira relacionada ao “preço do sangue”. Sem dinheiro suficiente para pagar o valor pedido e pressionado pelas consequências do acidente, Dane precisa descobrir uma maneira de resolver a situação.
A busca pelo dinheiro leva o personagem para longe de N’Djamena e posteriormente às regiões desérticas do norte do Chade. A viagem amplia a história e coloca Dane diante de outras situações, enquanto o filme começa a explorar com mais força as dificuldades financeiras do personagem e algumas questões sociais e culturais do país.
Os cenários do Chade são muito bem aproveitados
A fotografia de Cyrille Hubert está entre os principais acertos de “Diya – O Preço do Sangue“. Os espaços urbanos de N’Djamena e as paisagens abertas do norte do país são utilizados de formas diferentes conforme a jornada de Dane avança. A luz, as estradas, os ambientes secos e as grandes áreas desérticas rendem algumas das imagens mais bonitas do longa.
Também existe um cuidado interessante com tudo aquilo que cerca os personagens. Os bairros, as roupas, a religião e os costumes aparecem naturalmente dentro da história e ajudam a conhecer um pouco daquela realidade sem transformar o filme em uma grande explicação sobre o Chade. Essa parte cultural acaba sendo um dos elementos que mais despertam interesse.
Ferdinand Mbaïssané também segura bem o protagonismo. Dane passa praticamente todo o filme lidando com as consequências de alguns segundos de distração, e o ator transmite bem sua preocupação, culpa e desespero conforme a situação vai ficando mais complicada. Seu trabalho lhe rendeu o prêmio de melhor interpretação masculina no FESPACO 2025.
O ritmo lento começa a pesar
A maior dificuldade de “Diya – O Preço do Sangue“ está no ritmo. A premissa desperta curiosidade e existem bons elementos dentro da jornada de Dane, mas o roteiro demora demais para avançar em determinados trechos. Há momentos em que já entendemos para onde o protagonista precisa seguir e o que provavelmente acontecerá em seguida, mas a história permanece no mesmo ponto por mais tempo do que deveria.
Isso pesa ainda mais porque existe vontade de descobrir como Dane conseguirá o dinheiro, quais serão as consequências de suas decisões e onde toda aquela situação vai terminar. Algumas respostas demoram bastante para chegar e outras simplesmente não possuem o desenvolvimento esperado.
A montagem de Guillaume Talvas organiza as diferentes etapas da viagem, embora algumas passagens ainda pareçam longas demais. Essa sensação aumenta na reta final, quando certas situações ficam sem uma explicação mais completa. Não seria necessário responder absolutamente tudo, mas algumas questões levantadas pelo próprio roteiro mereciam um encerramento melhor.
O trabalho sonoro de Jean-Christophe Lion e a trilha de Afrotronix ajudam a criar tensão em determinados momentos. O uso dos sons dos ambientes e do silêncio funciona bem em algumas cenas, enquanto a música possui escolhas interessantes, ainda que nem todas tenham o mesmo impacto.
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Uma história diferente que poderia envolver mais
“Diya – O Preço do Sangue” tem uma premissa interessante e apresenta uma realidade pouco conhecida por boa parte do público brasileiro. O contexto do Chade, a fotografia e a atuação de Ferdinand Mbaïssané são os pontos que mais chamam atenção, enquanto a discussão sobre tradição, pobreza, culpa e justiça dá ao filme bastante material para trabalhar.
Só que os 96 minutos acabam parecendo mais longos. O ritmo lento prejudica principalmente o desenvolvimento da história, e algumas situações chegam ao fim sem respostas satisfatórias. A sensação é de que havia espaço para explorar melhor uma premissa que inicialmente desperta bastante curiosidade.
Ainda assim, “Diya – O Preço do Sangue” possui qualidades e encontra força principalmente no universo que apresenta. É um filme diferente, com boas escolhas visuais e culturais, mas que poderia prender muito mais com uma narrativa menos arrastada e uma conclusão que amarrasse melhor algumas das questões apresentadas durante a jornada de Dane.
Imagem Destacada: Divulgação/Festival do Rio



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