A história real que colocou três irmãs no centro de um dos episódios mais controversos do espiritualismo americano
Há histórias que parecem ter sido inventadas pelo cinema, mas que são justamente aquelas que mais desafiam a ficção. “The Fox Sisters”, novo longa de Wagner de Assis, parte de acontecimentos reais para revisitar a trajetória de Leah, Maggie e Kate Fox, três irmãs que, em meados do século XIX, ficaram associadas ao nascimento do espiritualismo moderno. O resultado é um drama histórico que mistura mistério, suspense e elementos sobrenaturais sem depender exclusivamente do susto fácil.
Com 136 minutos, o filme encontra seu principal mérito na maneira como transforma uma história marcada por crença, controvérsia e fenômenos inexplicáveis em uma experiência cinematográfica envolvente.
Elenco — três irmãs, três forças em cena

O coração de “The Fox Sisters” está no trio formado por Jamie Hughes, Sionne Elise e Marie McHugh, que interpretam Leah, Maggie e Kate Fox na fase adulta. As três encontram diferentes caminhos para construir personagens marcadas pela intimidade familiar, pela exposição pública e pelo peso de acontecimentos que transformam suas vidas.
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Mas o filme acerta também ao olhar para a juventude das irmãs. Sienna Belle, como Maggie Fox adolescente, e Júlia Svacinna, como Kate Fox adolescente, assumem uma parte importante dessa trajetória e ajudam a estabelecer as personalidades das duas personagens antes que os acontecimentos sobrenaturais ganhem proporções maiores.
A presença das duas jovens atrizes é especialmente importante porque permite que a transformação das irmãs seja percebida de maneira gradual. Não se trata apenas de apresentar versões mais novas das protagonistas, mas de construir uma ponte emocional entre a juventude e as mulheres que veremos posteriormente enfrentando as consequências da fama e da controvérsia.
O entrosamento do elenco adulto também merece destaque. Sionne Elise, que interpreta Maggie, descobriu durante o processo de produção que sua irmã de ficção, Leah, seria interpretada por Jamie Hughes — sua melhor amiga há mais de dez anos. A coincidência acabou fortalecendo a relação entre as duas em cena e trouxe uma conexão bastante natural para os momentos compartilhados pelas personagens.
Com Marie completando o trio principal e as jovens Sienna e Júlia estabelecendo as versões adolescentes de Maggie e Kate, o filme constrói uma linha temporal mais rica para suas protagonistas. É um dos elementos que ajuda “The Fox Sisters” a funcionar não apenas como uma história sobre fenômenos inexplicáveis, mas também como um drama familiar.
O elenco ainda reúne nomes como Daniela Galli, Freddie Hoghan, Philip Cruise, Lua Blanco, André Torquato, Helga Nemetik e João Velho, ampliando a dimensão da história para além do núcleo familiar.
Direção — Wagner de Assis olha para o sobrenatural sem piscar
Wagner de Assis demonstra segurança ao conduzir uma história que poderia facilmente cair no melodrama ou no terror convencional. Aclamado e conhecido por trabalhos como “Kardec”, “Ninguém É de Ninguém” e a trilogia “Nosso Lar”, o diretor retorna ao universo espiritual, mas desta vez em uma produção internacional inteiramente falada em inglês.
Sua direção aposta mais na atmosfera e na tensão crescente do que em sustos gratuitos. O sobrenatural funciona como elemento narrativo, mas também como ponto de partida para discutir a fronteira entre fé, ciência e aquilo que não conseguimos explicar.
É justamente nesse equilíbrio que o filme encontra sua identidade.
Produção — uma história americana filmada com olhar brasileiro
“The Fox Sisters” é uma coprodução entre Brasil e Estados Unidos e foi filmado entre os dois países. Grande parte das filmagens ocorreu em casarões históricos no Rio de Janeiro, enquanto algumas externas foram realizadas em Connecticut, criando uma interessante combinação entre locações brasileiras e a ambientação norte-americana do século XIX.
A produção também representa um passo importante na carreira de Wagner de Assis: trata-se de seu primeiro longa realizado totalmente em língua inglesa. O projeto levou cerca de dez anos de pesquisas e foi desenvolvido com participação de empresas como Cinética Filmes, Sky Pictures e Wild Road.
O cuidado com cenários, figurinos e direção de arte ajuda a construir uma época sem transformar o filme em uma simples reconstituição histórica.
Roteiro — entre a crença e a dúvida
O roteiro, creditado a Carolina Castro, Larissa Vereza e Wagner de Assis, escolhe um caminho interessante: não transforma a história em uma resposta definitiva para aquilo que aconteceu com as irmãs.
Essa escolha é importante. O filme trabalha justamente com a tensão entre acreditar e questionar. Em vez de entregar todas as respostas imediatamente, a narrativa permite que o espectador acompanhe o impacto dos acontecimentos sobre as personagens e sobre a sociedade ao redor delas. É uma história sobre fenômenos sobrenaturais, mas também sobre reputação, julgamento público, família e a dificuldade de provar aquilo que não pode ser facilmente explicado.
Figurino e fotografia — quando a época ganha vida na tela
O figurino de Rô Nascimento e a fotografia de Janice D’Avila são fundamentais para transportar “The Fox Sisters” para o século XIX. As roupas ajudam a revelar a personalidade das personagens e reforçam a transformação das irmãs ao longo da narrativa, enquanto a fotografia trabalha luz, sombras e composição para criar uma atmosfera que transita entre o drama histórico e o sobrenatural.
Em conjunto com a direção de arte de Clara Rocha, esses elementos fazem com que os ambientes, os personagens e os fenômenos inexplicáveis pareçam pertencer organicamente àquele período. O resultado é uma construção visual cuidadosa, em que cada cenário, textura e figurino contribui para transformar a reconstituição histórica em parte essencial da experiência cinematográfica.
Trilha sonora — o silêncio também assusta
A trilha de Trevor Gureckis desempenha papel importante na construção da atmosfera. Em vez de transformar cada manifestação sobrenatural em uma explosão sonora, a música trabalha com tensão e expectativa. O resultado é uma atmosfera que deixa o espectador atento aos pequenos ruídos, aos espaços vazios e à sensação de que algo pode acontecer a qualquer momento.
Nesse aspecto, o desenho de som também merece destaque, especialmente pela utilização dos sons como parte da própria narrativa. O fenômeno que muda a vida das irmãs nasce justamente de ruídos inexplicáveis, fazendo com que o som deixe de ser apenas complemento e passe a funcionar como personagem invisível.
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Efeitos visuais e maquiagem — o sobrenatural sem exageros
Os efeitos visuais seguem uma proposta coerente com o restante da produção. O filme evita transformar o espiritual em uma sucessão de imagens digitais excessivamente chamativas e prefere integrar os efeitos à fotografia e aos cenários.
Essa contenção favorece a atmosfera histórica e mantém o foco nas personagens. Quando o inexplicável aparece, ele parece fazer parte daquele universo, e não simplesmente ter sido acrescentado posteriormente por computador.
A maquiagem e a caracterização de Joana Siebel contribuem para acompanhar a passagem do tempo e as diferentes fases das irmãs Fox. O trabalho ganha importância principalmente nas transformações das personagens ao longo da narrativa, ajudando a estabelecer visualmente suas diferentes idades e a evolução de suas trajetórias.
Conclusão
O maior mérito de “The Fox Sisters” (2026) é compreender que a história das três irmãs é interessante justamente porque não se resume aos fenômenos sobrenaturais.
O longa transforma uma passagem pouco conhecida da história do espiritualismo ocidental em um drama acessível, visualmente cuidadoso e sustentado por protagonistas que carregam o filme com personalidade, transformando-o em uma produção ambiciosa, atmosférica e surpreendentemente envolvente. Wagner de Assis encontra uma boa combinação entre drama histórico, mistério e sobrenatural, enquanto o trio de protagonistas dá humanidade a uma história que poderia facilmente ser tratada apenas como curiosidade histórica.
Sem precisar recorrer ao excesso, o longa entende que algumas histórias são assustadoras justamente porque não oferecem respostas fáceis. Talvez essa seja a grande provocação deixada pelo filme: quando uma porta se abre para o desconhecido, o mais difícil não é decidir se existe algo do outro lado, é decidir no que estamos dispostos a acreditar.
Imagem Destacada: Divulgação/Cinética Filmes



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