Filme de Blerta Basholli acompanha uma jovem de 13 anos durante a Guerra do Kosovo e transforma judô, amizade e descobertas da idade em formas de resistência
Exibido no Festival do Rio 2026, “Dua – Tempos de Guerra” acompanha uma adolescente que ainda está descobrindo o próprio corpo, lidando com amizades e vivendo situações comuns da idade quando a guerra começa a mudar tudo ao seu redor. Dirigido por Blerta Basholli, que também assina o roteiro ao lado de Nicole Borgeat, o longa se passa em Pristina, no Kosovo, no fim dos anos 1990, durante o crescimento das tensões entre albaneses kosovares e sérvios.
Com aproximadamente 100 minutos, o filme mostra esse conflito entrando aos poucos na vida de Dua. Primeiro pelas conversas, pelo medo e pelas mudanças no comportamento das pessoas. Depois, de maneira cada vez mais direta. A escola, a casa, as amizades e até a forma como a menina enxerga o próprio futuro passam a ser afetadas por uma violência que ela não escolheu viver.
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Uma adolescência interrompida pela guerra
Dua, interpretada por Pinea Matoshi, tem 13 anos e vive com a família em Pristina. Enquanto a situação política fica cada vez mais complicada e a violência aumenta, um acontecimento traumático muda a forma como ela se sente naquele ambiente. É nesse período que a jovem se aproxima de Maki, vivida por Vlera Bilalli, uma garota mais corajosa que acaba apresentando o judô à nova amiga.
O esporte ganha importância porque oferece a Dua algo que ela sente estar perdendo: segurança. Aprender a lutar significa descobrir uma maneira de se defender e recuperar um pouco do controle sobre o próprio corpo. Essa parte da história ainda possui uma ligação pessoal com Blerta Basholli, que praticou judô durante aquele período por medo de sofrer algum tipo de ataque.
O interessante é que “Dua – Tempos de Guerra” não abandona a adolescência quando começa a falar de violência. Amizades, curiosidades, descobertas e conflitos familiares continuam existindo. A diferença é que tudo passa a acontecer enquanto o mundo ao redor fica cada vez mais perigoso.
Pinea Matoshi faz Dua parecer uma adolescente de verdade
Pinea Matoshi é um dos principais acertos do filme. Sua interpretação é natural e funciona especialmente porque Dua nunca parece uma personagem adulta escrita dentro do corpo de uma menina. Ela reage às situações como alguém de 13 anos, com medo, raiva, insegurança e, em alguns momentos, sem compreender completamente a gravidade daquilo que acontece ao seu redor.
Essa naturalidade combina com a decisão de manter a história muito próxima da protagonista. Não acompanhamos a Guerra do Kosovo através de grandes explicações políticas. Dua percebe o conflito pelas conversas dos adultos, pelas mudanças na escola, pelo medo de sair na rua e pelas pessoas que começam a considerar deixar o país.
Vlera Bilalli também funciona muito bem como Maki, principalmente na amizade que desenvolve com a protagonista. Yllka Gashi e Kushtrim Hoxha, como Zana e Bekim, pais de Dua, completam esse núcleo familiar e ajudam a mostrar outro lado da guerra: o esforço dos adultos para manter alguma sensação de normalidade dentro de casa quando sabem que a situação está piorando.

A guerra aparece mesmo quando não está diante da câmera
A fotografia de Lucie Baudinaud está entre os pontos mais fortes de “Dua – Tempos de Guerra”. Nos momentos mais pessoais, a câmera permanece próxima de Dua e de sua família. Quando a situação começa a ficar mais perigosa, os movimentos ganham outra intensidade e ajudam a transmitir a insegurança vivida pelos personagens.
Os próprios espaços mudam conforme a história avança. Ruas, casas, escola e locais de treinamento continuam sendo ambientes aparentemente comuns, mas começam a transmitir outra sensação quando a violência se aproxima. O filme não precisa mostrar batalhas o tempo inteiro para lembrar que existe uma guerra acontecendo.
O som tem bastante importância nisso. Ruídos vindos de fora, momentos de silêncio e movimentações ao redor dos personagens mantêm a ameaça presente até nas cenas mais simples. O trabalho de Philippe Ciompi ajuda a criar essa tensão, enquanto a trilha de Audrey Ismaël acompanha a mudança de clima conforme a situação de Dua e de sua família fica mais complicada.
A direção de Blerta Basholli também acerta ao não transformar os aproximadamente 100 minutos em uma sucessão de acontecimentos trágicos. Existem momentos de amizade e descobertas típicas da idade, o que torna ainda mais doloroso perceber como aquela realidade começa a roubar parte da adolescência da protagonista.
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Uma guerra vista pelos olhos de quem ainda está crescendo
“Dua – Tempos de Guerra” encontra força quando deixa de lado grandes explicações e permanece ao lado de sua protagonista. Dua não precisa entender todos os motivos políticos por trás do conflito para sentir suas consequências. Basta perceber que lugares antes comuns ficaram perigosos, que os adultos estão assustados e que continuar vivendo normalmente está ficando cada vez mais difícil.
Pinea Matoshi segura muito bem essa perspectiva e faz com que o amadurecimento da personagem aconteça de maneira natural. O judô, a amizade com Maki e a relação com os pais ganham outro peso conforme a violência se aproxima, sem que o filme precise transformar cada momento em um grande discurso.
A fotografia e o trabalho sonoro completam muito bem essa sensação de insegurança, enquanto Blerta Basholli consegue equilibrar a adolescência de Dua com o período histórico em que ela está inserida. O resultado é um drama de guerra que encontra seus melhores momentos justamente nas situações mais próximas da rotina.
“Dua – Tempos de Guerra” acompanha uma menina que deveria estar preocupada apenas em crescer, mas acaba precisando aprender também a se proteger. É nesse choque entre adolescência e violência que o filme encontra suas cenas mais fortes e transforma a trajetória de Dua em uma história sobre medo, amadurecimento e resistência.
Imagem Destacada: Divulgação/Ikonë Studio



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