Aclamada por quem confunde cinismo com maturidade e repudiada por quem conhece a mitologia, a série de Chris Mundy, Damon Lindelof e Tom King troca a glória cósmica por um drama genérico que tem vergonha de ser Lanterna Verde.
O Lanterna Verde carrega um dos conceitos mais puros, imaginativos e imponentes de toda a ficção científica moderna. A ideia de que a força de vontade pode vencer o medo absoluto e de que a luz da imaginação, canalizada por um anel cósmico, pode moldar a própria realidade, é o que alimentou os sonhos de gerações de leitores. Quando James Gunn anunciou que “Lanterns” seria uma das pedras angulares do novo DCU, descrita grandiosamente como um “True Detective no espaço”, a promessa era a de finalmente conferir aos personagens: Hal Jordan e John Stewart o prestígio televisivo que a mitologia da Tropa exigia.
Oito episódios depois, a poeira assenta sobre o final. E o que emerge dos escombros não é um triunfo do roteiro, mas um atestado de óbito. Comandada por Chris Mundy, Damon Lindelof e Tom King, “Lanterns” não é apenas uma série trágica em sua execução; é um manifesto cínico, covarde e assustadoramente pedante, escrito por criadores que parecem ter profunda vergonha do material original que foram pagos para adaptar.
Atenção: esta crítica contém spoilers da primeira temporada.
O único oásis: atuações magnéticas são o alento da temporada

Antes de dissecar os erros desta temporada, é preciso reconhecer o único pilar que sustentou a série: o elenco. A tragédia de “Lanterns” reside no roteiro, não em quem está na frente das câmeras. Kyle Chandler (Hal Jordan) e Aaron Pierre (John Stewart) entregam atuações magnéticas que elevam diálogos medianos e quase apagam a descaracterização imposta pelo texto.
Isso fica evidente em todos os momentos de divisão de tela e, exclusivamente, no melhor momento de toda a temporada: a despedida melancólica entre a inteligência artificial de Hal e John Stewart no último episódio. Quando o Hal digital usa seus últimos 2% de bateria para encorajar Stewart a ser o herói que ele próprio falhou em ser, a série atinge uma ressonância emocional genuína que ofusca o comportamento insuportável de Hal Jordan durante a trama. Infelizmente, é apenas uma fagulha de brilhantismo em um oceano de frustração.
Além destes, Nathan Fillion (Guy Gardner) e Kelly Macdonald (Xerife Kerry Kane) são também exceções do brilhantismo ofuscado pela trama preguiçosa e controversa, já que fizeram jus aos elementos que rodeiam seus personagens, embora a notória e paradoxal controvérsia.
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Ritmo arrastado: a arte de adiar a própria história

Passado o brilho solitário de sua escalação, “Lanterns” exige que olhemos para a escuridão de seu desenvolvimento. Desde os primeiros episódios, o auto-proclamado True Detective espacial mostrou-se um drama de cidade de interior (Rushville – Nebraska) aprisionado por limitações orçamentárias e decisões estéticas duvidosas.
Damon Lindelof, antes da estreia da série, fez uma piada dizendo que “Lanterns” se chamava assim porque todos haviam concordado que o “verde” era estúpido. A declaração provocou reação entre fãs e até figuras conhecidas dos quadrinhos, como Grant Morrison. porém tempos depois, o próprio Lindelof se desculpou, classificou a piada como idiota e afirmou que “o verde” era, na verdade, algo de que gostava. Portanto, seria injusto usar aquela frase como prova de que o produtor despreza o material.
Ainda assim, quando o resultado visual da série demonstra uma resistência tão evidente em abraçar o imaginário verde, a lembrança daquela declaração ganha um peso incômodo, ainda que somente como ironia, e não como prova de intenção.
A descaracterização tomou o volante nos episódios 4 e 5, jogando a série em uma espiral rumo ao absurdo voluntário. A passagem do Anel de Abin Sur (um evento sacrossanto nos quadrinhos, marcado por sacrifício e destino) foi reduzida a um acidente acovardado provocado pela Caçadora Cósmica, Zoe. Mas a profanação atingiu seu cume ao tocar na galeria de vilões. Atrocitus, o imponente e furioso líder da Tropa dos Lanternas Vermelhos, foi desfigurado na figura de “Antaan” (Paul Ben-Victor), um mero líder de milícia comunitária sem anel, cuja morte ocorreu ao ser arremessado em um redemoinho aquático de cidade pequena, por Hal Jordan.
Faltou apenas o efeito sonoro de desenho animado dos anos 90. Talvez o maior desperdício de potencial. Ulrich Thomsen tem material para criar uma presença ameaçadora e sofisticada como Sinestro. Mas a série nos apresenta um vilão de boutique, jogado num cenário alienígena árido. O icônico vilão da DC serviu exclusivamente como mecânico de luxo. Sem lutar, sem discursar com a fúria e o absolutismo que lhe são de direito, Sinestro existe apenas para fabricar, fora da tela, uma bateria modificada capaz de matar os Guardiões, e acaba sendo deixado para trás por John Stewart como um NPC (Non-Playable Character) de videogame após entregar o item da missão.
Em paralelo, o roteiro transformou Hal Jordan em um protagonista inconsequente e quase sociopático, capaz de abandonar parceiros e esgotar a carga de uma arma cósmica em dez segundos. A série tentava desesperadamente ser sombria e madura, mas esbarrava em uma infantilidade narrativa crônica, trocando a grandeza dos Lanternas por vilões desnudados pedindo para serem desenhados.
O Salto Temporal e o Assassinato de um Mito (Episódios 6 e 7)

A série ensaiou uma sobrevida no sexto episódio com um salto temporal de dez anos. Ver John Stewart em 2026, finalmente exercendo sua disciplina como arquiteto militar e lidando com ecos da destruição de Metropolis (conectando-se ao filme “Superman” de 2025), provou que os roteiristas sabiam criar dinâmicas adultas. O cameo enérgico de Guy Gardner trouxe um respiro da Tropa dos Lanternas Verdes e da crise em Oa. No entanto, tudo foi esmagado pela avalanche de mediocridade do fatídico episódio 7, um capítulo que entrará para a história da televisão como o maior exemplo de encheção de linguiça travestida de roteiro de prestígio.
Queimando 43 minutos de projeção, o penúltimo episódio arrastou o público por alucinações vazias e diálogos intermináveis, onde o “Halograma”, operando com ridículos 2% de bateria, gastava sua energia cósmica para bater papo em um evento escolar. No meio disso, o militar John Stewart era rebaixado a dar seu relógio para pagar dívidas com uma garçonete extorsionista, e um cofre ultrassecreto revelava guardar uma capa de chuva, um revólver e… uma singularidade, aberta de forma displicente dentro de uma caixa d’água caída.
Mas o crime inafiançável do episódio 7 atende pelo nome de Tom King. Conhecido na indústria de quadrinhos por sua obsessão em corromper ícones otimistas em figuras depressivas, suicidas e partidas, King injetou seu niilismo no DNA do Lanterna Verde. Através de um retcon grotesco, a série revelou que a morte de Martin Jordan, o pai de Hal, não foi um heroico acidente de aviação, mas um suicídio ocultado.
Esse não é um mero detalhe alterado; é a demolição do alicerce da Força de Vontade. Nos quadrinhos, a essência do superpoder de Hal é a coragem: ele viu seu ídolo explodir nos céus e, ainda assim, superou o trauma absoluto para dominar seu próprio medo. Na visão distorcida de “Lanterns”, Hal é “destemido” não porque tem bravura, mas porque está quebrado. Seu descaso com a vida e seu flerte com a morte transformam a Força de Vontade num sintoma de depressão clínica. É o ápice da desonestidade intelectual: subverter o superpoder do herói para transformá-lo em uma doença, passando como legado de pai para filho a incapacidade de lidar com a própria existência.
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A finale da covardia e o fim do juramento (Episódio 8)

Se a fundação foi corrompida, o desfecho só poderia ser o colapso. O último episódio da temporada amarrou suas tramas com um amadorismo que faria as novelas vespertinas corarem. Descobrimos que Hal assumiu a culpa pelo caos e passou 10 anos preso injustamente (por absolutamente nada), apenas para ser solto e recebido com flores pela Xerife Kane. Em um roteiro entupido de coincidências previsíveis, descobrimos que o adolescente Noah (Shea Pritchard) é, na verdade, um Caçador Cósmico (e “neto” da genocida Zoe).
O mistério central que guiou a segunda metade da temporada: “Quem matou Hal Jordan?”, recebe a resolução mais anticlimática e covarde imaginável. Hal, um herói intergaláctico, não tombou lutando por um ideal ou enfrentando uma ameaça formidável. Ele foi executado com um tiro na cabeça pela própria Xerife Kane. O motivo? Um surto de raiva doméstico após Hal sugerir que fugissem ao descobrir a verdade sobre o robô. A mulher que transitou inexplicavelmente entre o ódio visceral e o romance forçado com o protagonista encerra sua jornada como sua assassina.
E a resposta moral de John Stewart a esse homicídio brutal? O “militar focado” decide poupar a vida da xerife e do garoto-robô assassino para “quebrar o ciclo de violência”, deixando que a mulher siga livre e que a máquina termine sua partidinha de futebol americano. A justiça dos Lanternas é trocada por um relativismo moral asqueroso. Contudo, a verdadeira apoteose do desastre estava guardada para os minutos finais.
Em uma total subversão do mito, John Stewart recusa-se a agir como um patrulheiro cósmico e se autodeclara um “contratante independente” da Terra. Ele chantageia os Guardiões do Universo, as entidades imortais que moldaram o cosmos, através de Guy Gardner, exibindo a bateria ilegal de Sinestro. Stewart vira as costas para a Tropa e se prepara para voar, mas não antes de cometer a profanação máxima: o sepultamento do juramento.
O clássico “No dia mais claro, na noite mais densa / o mal sucumbirá ante a minha presença”, um mantra atemporal de retidão heroica, é substituído por uma versão anêmica, pragmática e broxante.
Eles não suportavam a ideia de um herói que esmaga o mal e supera o medo; precisavam de um herói que “abraça o medo” e toma decisões subjetivas. É o atestado final de repulsa dos showrunners pela pureza do gênero dos super-heróis. E, como último prego no caixão do respeito à propriedade intelectual, John Stewart decola rumo aos céus (com seu retorno tendo sido confirmado em um ano no filme “Superman: O Homem Do Amanhã”) utilizando o poder do anel… trajando suas roupas civis.
Concluindo a gafe que perdurou durante boa parte da temporada: nada do famoso uniforme nem para o encerramento.
Veredito final: apaguem a luz!
“Lanterns” foi vendida como a âncora de prestígio do DCU, mas entrega um pedantismo travestido de profundidade. É um produto que odeia a própria natureza, onde as maravilhas espaciais são substituídas por poeira de cidade pequena, o heroísmo inabalável dá lugar ao cinismo depressivo, e a glória cósmica é asfixiada por reviravoltas domésticas ridículas.
A atuação formidável de seu elenco titular atua apenas como anestesia para o procedimento de autópsia que é assistir a esta temporada. James Gunn, que prometeu a soberania do roteiro e a glória reverencial aos personagens, chancelou um massacre histórico. Para quem defende cegamente o selo “absolute cinema”, restará aplaudir o verniz noir. Para os fãs que sabem o peso de ostentar um anel esmeralda e conhecem a coragem necessária para voar sob a luz de Oa, resta apenas lamentar. O Lanterna Verde não brilhou; ele foi sumariamente apagado.
Imagem Destacada: Divulgação/HBO Max



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