Quando se fala em Eduardo Galeano, a primeira coisa que nos vem à cabeça é o livro “As veias abertas da América Latina” – que também é uma das primeiras obras citadas quando o assunto é a própria literatura latino-americana. Sem dúvida, o livro é de extrema importância. Galeano teve a capacidade de fazer um ótimo trabalho como historiador sem deixar a poeticidade de lado. Contudo, a obra do uruguaio vai muito além. E quando falamos além queremos dizer mais de 40 livros escritos, entre ensaios, crônicas, contos e romances – não necessariamente em uma divisão assim ortodoxa.

Eduardo Hughes Galeano nasceu em 1940, em Montevidéu. Como ele mesmo diz, com “cara de cônsul sueco em Honduras”. De descendências europeias, Galeano sempre soube que era tão latino-americano como as pedras de Machu Pichu e desde sua adolescência escreve sobre sua terra para ajudá-la a se revelar e rebelar. Mas se engana quem pensa que o autor só escreve textos sobre a política, ditaduras e as histórias ocultas e ocultadas da América Latina.

Certa vez descreveram-no dizendo que ele escrevia “com um olho na luneta e um olho no microscópio”. Não poderiam descrevê-lo melhor. Eduardo Galeano escreve com mesmíssima paixão sobre a Revolução Mexicana, sobre a primeira partida de futebol no Brasil e sobre sua própria neta.

Quando era pequeno, bem como quase todo menino sul-americano, tinha o sonho de ser jogador de futebol. Em suas palavras, jogava bem de noite, enquanto dormia e sonhava. Acordado sua perna esquerda parecia direita e a direita parecia esquerda. Mas pelo bem do futebol e da literatura, ele trocou os gramados pela máquina de escrever – mas não que uma coisa não pudesse misturar-se com a outra em seus livros, claro. Já aos 14 anos, Galeano iniciou sua carreira jornalística escrevendo e principalmente fazendo charges para o periódico da esquerda uruguaia “El Sol”.

No início da década de 60, foi editor do semanário “Marcha” escrito também por outros autores como Mario Vargas Llosa, uma publicação que falava sobre política e cultura em tempos que essas palavras começavam a ser silenciadas. Anos depois, em 1971, com 31 anos Eduardo Galeano escreveu “As veias abertas da América Latina”, onde disseca a história latino-americana em uma perspectiva de esquerda, porém longe de um racionalismo marxista e perto da franqueza de quem sentiu as dores de cada veia deste continente sem pernas, mas que caminha. O livro trouxe uma nova visão da nossa história, desvelando casos que eram pouco comentados, ou até ignorados. Hoje não é mais um mero livro de história, e sim o retrato de uma época em que utopias poderiam ser realidades.

Em 1973, a vida de Galeano daria um giro de 180º graus. É o ano do Golpe Militar no Uruguai e é o ano de publicação de seu primeiro livro de contos, “Vagamundos”. Muitos dos contos são justamente sobre a realidade de um país silenciado.

O jornalista, por suas publicações e sua militância política entrou na lista dos esquadrões da morte uruguaios. Exilou-se primeiro na Argentina, onde escreveu seu primeiro romance, “Canção de nossa gente”, que tratava justamente sobre o exílio e a saudade de sua terra. Depois, foi para a Catalunha, onde começou a escrever a trilogia “Memória do Fogo”, uma biografia definitiva da América Latina. Desde as lendas indígenas até o ano de 1984, Eduardo Galeano escreve, em forma de pequenos contos, todas as mais belas e amargas histórias de um continente que é um em muitos e muitos em um.

Em 1985, quando houve a redemocratização do Uruguai, Galeano voltou ao seu país natal, mas viajou por todo o mundo e escreveu ainda mais. Seja sobre o continente, sobre a exploração do 3º mundo, sobre uma Copa do Mundo ou simplesmente sobre a beleza da vida.

Eduardo Galeano morreu no dia 13 de abril de 2015. Pouco tempo antes de ter seu último título publicado, “O caçador de histórias”, um livro que não teria com ser mais síntese de sua própria vida e sua própria morte. O homem que dizia que as pessoas não eram feitas de átomos e sim feitas de histórias finalmente explica porque as escreve e sem querer explica porque devemos escrevê-las.

Conta que foi a um povoado boliviano, na zona mineira em 1969, um ano depois de um fuzilamento comandado pelo ditador Barrientos. Foi lá para desenhar, retratar todas as crianças e todos os mineiros. Na noite de despedida, depois de muita cantoria, bebedeira e celebração os mineiros perguntam a ele como é o mar.

Galeano escreve:

Eu sabia que eles jamais veriam o mar, que iam morrer antes de qualquer possibilidade de ver o mar, porque além do mais estavam condenados pela miséria a não sair daquele humildíssimo povoado de Llallagua. Então, eu tinha a responsabilidade de levar o mar para eles, de encontrar palavras que fossem capazes de molhar todos eles. E esse foi meu primeiro desafio como escritor, a partir da certeza de que escrever serve para alguma coisa”.