12 de dezembro de 2019

Perdi meu celular. Já faz algum tempo. Demorei um pouco pra sentir falta dele. Afinal, porque eu teria um celular? Pra eu achar alguém quando precisar de ajuda? Ou para alguém me achar quando precisar de mim? Já ouvi muitas vezes alguém dizer: perdi meu celular, a minha vida estava nele. Que bom, pensei, a minha vida não estava lá, naquela vasta agenda cheia pessoas que eu mal conhecia. Um apetrecho que era mais uma calculadora do que um telefone, mais localizador do que um aparelho de comunicação.
Era basicão em meio a um oceano de novidades tecnológicas que aprisiona as pessoas. Dedos que roçam nas telas a procura de alguém, sem se importarem com quem está do seu lado.

Caminho na contra-mão da multidão que passa por mim como o vento que sopra o meu rosto e esvoaça os meus cabelos. Estou só, no imenso mar de gente que não me conhece, não sabe que eu existo. Mas, eu só me sinto só porque você não está comigo. Eu não posso (e não devo) te procurar. Há sempre o risco de te encontrar.

No meio da multidão, eu me escondo de você. Porém, não consigo fugir das nossas lembranças, dos meus sonhos, das cenas imaginadas, das realidades vividas e enriquecidas pela minha imaginação.
A certeza do amor que eu sei que perdura mantém a esperança de um dia vivermos um instante de amor. Ainda que seja um minuto apenas.

Eu vivo só. Apenas o sonho de viver ao teu lado me conforta. Nossas conversas repassam na minha cabeça me trazendo o alento e apertam o peito e inundando-o de saudade.

Andando na multidão, eu me descobri sem amigos, sem ninguém para conversar, para desabafar, sem ninguém para me ouvir ou me contar a sua história. E eu dividir com ela as tristezas e as alegrias da vida que passa pelo tempo, dia após dia. Alguém para caminhar lado a lado. Alguém para eu pegar na sua mão. Alguém para eu seguir onde quer que ela vá. Alguém para vir comigo onde eu precisar. Alguém para dizer: você não está só.

Não. Eu não vou precisar subir as montanhas para estar só. A multidão que me ignora, e que eu aprendi a ignorar, não vai sentir a minha falta. Muito menos perceber a minha revolta ou minha solidão. Nem vai saber que a única pessoa de quem eu sinto falta é você. Não vai saber que eu sou triste porque você não pode estar comigo. Não vai saber que eu te amo e sou correspondido.
Eu, um eremita no meio da multidão, carregando um segredo dentro do peito: o meu amor por você.
A multidão nunca vai saber.

Por Ivo Crifar

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