Produção romena aposta em rachas, rivalidades e velocidade, mas encontra dificuldades para criar tensão e fugir da previsibilidade
Criar um filme de corrida é muito complicado por vários fatores. Principalmente porque estamos falando de um gênero que já possui clássicos que atravessaram gerações e continuam sendo lembrados até hoje. É difícil assistir a qualquer produção sobre carros, velocidade e corridas de rua sem imediatamente lembrar de alguns dos grandes nomes do cinema.
E “Fúria no Asfalto” (“Cursa”), produção romena dirigida por Anghel Damian e Millo Simulov, segue justamente uma premissa básica e bastante comum para quem já conhece esse tipo de filme. Talvez aí esteja um dos maiores desafios para qualquer diretor que resolva se aventurar, ou melhor, acelerar por essa temática.
A pergunta que muita gente provavelmente fará antes de assistir é simples:
É só mais um filme genérico de “Velozes e Furiosos”?
A resposta é sim e não.
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Uma fórmula que já vimos muitas vezes
A ideia de Fúria no Asfalto remete rapidamente a obras como Velozes e Furiosos, de Rob Cohen, “Fúria em Duas Rodas”, de Joseph Kahn, e “Need for Speed”, dirigido por Scott Waugh.
A proposta é praticamente a mesma: conflitos que acabam sendo resolvidos através de corridas de rua, os famosos rachas, rivalidades pessoais e personagens que encontram na velocidade uma forma de provar algo para si mesmos ou para os outros.
Por conta dessa fórmula já conhecida, o filme consegue chamar a atenção nos primeiros minutos. O problema é que também deixa muito claro qual será seu caminho. E nem precisa assistir até o final para perceber isso.
Não chega a ser spoiler. É praticamente uma regra desse tipo de produção.
Sempre existe aquele personagem que não quer correr, que abandonou esse mundo ou que apenas gosta de carros como hobby. E inevitavelmente ele acaba voltando para as pistas e vencendo as corridas mais importantes; é uma estrutura tão utilizada que acaba se tornando previsível.
No caso deste filme, o protagonista Andrei, interpretado por Denis Hangaru, é dono de uma oficina mecânica e carrega o trauma de ter perdido o pai em um acidente de carro. Por causa disso, evita qualquer envolvimento com corridas.
O problema é que esse conflito não possui força suficiente para sustentar a narrativa. A mudança do personagem acontece de forma muito rápida e sem um desenvolvimento que realmente convença o espectador. A motivação existe, mas falta construção para que ela tenha impacto.
As corridas deveriam ser o ponto alto

Se a história apresenta problemas, naturalmente as corridas precisariam assumir o papel de principal atrativo, mas nem isso acontece da forma que deveria.
As sequências de velocidade não conseguem transmitir aquela sensação de adrenalina que normalmente faz esse gênero funcionar. Falta tensão, falta sensação de perigo e principalmente falta imprevisibilidade — na maioria das vezes, o espectador já sabe o que vai acontecer antes mesmo de a corrida começar e isso reduz bastante o impacto dos momentos que deveriam ser os mais importantes do filme.
Por outro lado, existe um mérito visual que merece ser reconhecido. As cenas de corrida são bem filmadas e possuem uma estética interessante. A direção de arte consegue aproveitar bem os cenários urbanos e as iluminações mais baixas para criar o clima típico dos rachas noturnos; visualmente funciona.
As ruas iluminadas por néons, os ambientes escuros e algumas tomadas mais abertas ajudam a construir uma atmosfera que combina com a proposta. O problema é que a parte visual sozinha não consegue compensar a falta de emoção das disputas.
No fim das contas, as corridas não empolgam porque quase nunca existe uma quebra de expectativa.
Personagens que pouco acrescentam
Denis Hangaru entrega um Andrei até carismático. Ele consegue sustentar o protagonista dentro das limitações do roteiro e faz um trabalho competente ao interpretar alguém dividido entre os traumas do passado e a atração pelo mundo das corridas, mas também não recebe um material que exija muito mais do que isso.
Já os personagens secundários sofrem ainda mais. A maioria deles parece estar ali apenas para ocupar espaço na história. Não possuem desenvolvimento relevante e dificilmente fazem o público criar algum tipo de conexão emocional.
Não chegam a ser atuações ruins. Mas também não são personagens que despertam interesse ou fazem diferença quando aparecem em cena. Se alguns deles fossem retirados da narrativa, pouca coisa mudaria.
Um filme que não sabe exatamente o que quer contar
Talvez o maior problema de Fúria no Asfalto esteja justamente na falta de um objetivo mais claro. A impressão é que o filme não quer contar uma grande história, ele quer apenas ser um filme de corrida de rua.
E isso não seria necessariamente um problema se existisse algo mais forte por trás das disputas. O protagonista não possui uma ambição capaz de envolver o espectador. Não existe uma trajetória de superação marcante, um sonho muito bem construído ou um conflito que gere envolvimento emocional — é basicamente velocidade pela velocidade.
Para quem procura apenas carros acelerando e disputas nas ruas, isso pode ser suficiente, mas para quem espera algo além disso, provavelmente ficará faltando alguma coisa.
O maior acerto e o maior problema
Se existe algo que merece destaque positivo, são os visuais. As sequências ambientadas nas montanhas funcionam bem, alguns efeitos visuais cumprem seu papel e a trilha sonora acompanha o clima do filme de maneira eficiente, mas o principal problema continua sendo a previsibilidade.
Desde os primeiros minutos, o espectador consegue imaginar praticamente tudo o que vai acontecer até a reta final da história. E isso reduz muito o impacto da experiência. No fim das contas, “Fúria no Asfalto” não é um filme ruim, é um filme que pode servir para passar o tempo, especialmente para quem gosta de carros, motores e corridas de rua.
Com pouco mais de uma hora e meia de duração, também não chega a ser cansativo ou maçante, mas dificilmente agradará ao público em geral. É uma produção que conversa muito mais com quem já gosta desse universo do que com quem procura uma boa história.
E talvez a conclusão mais justa seja justamente essa: filmes de corrida sem muita direção podem até entregar velocidade, mas dificilmente conseguem entregar emoção.
Imagem Destacada: Divulgação/Adrenalina Pura+



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