Adaptação do quadrinho de Isabel Greenberg aposta no romance e no drama, mas deixa a desejar justamente na construção do universo fantástico
Adaptar um livro para as telas já é uma tarefa difícil. Adaptar um quadrinho de fantasia talvez seja ainda mais complicado. Uma coisa é você estar lendo uma história, no seu ritmo, fazendo pausas, imaginando os cenários e entrando naquele universo aos poucos. Outra completamente diferente é transformar tudo isso em imagens e conseguir transmitir a mesma sensação para quem está assistindo.
E “100 Noites de Desejo” tenta justamente fazer isso. A adaptação da obra “100 Noites de Hero” busca transformar uma fantasia criada para os quadrinhos em algo capaz de envolver o público nas telas, mas nem sempre consegue.
Para quem não conhece a história original, o início do filme pode causar estranhamento. Os personagens possuem visuais diferentes, a ambientação é apresentada de forma muito rápida e, durante os primeiros minutos, é difícil entender exatamente sobre o que aquela história está tentando falar.
Tudo parece ser entregue de maneira apressada e o espectador acaba ficando um pouco perdido. Mas, aos poucos, o filme começa a organizar suas ideias e explicar melhor seu universo. E é justamente nesse momento que a trama desperta interesse.
Principalmente quando Manfred, interpretado por Nicholas Galitzine, apresenta a proposta central da narrativa: seduzir Cherry, personagem de Maika Monroe, esposa de Jerome, vivido por Amir El-Masry, durante um período de cem noites como parte de uma aposta.
A partir daí surge uma curiosidade natural para acompanhar a história, e boa parte disso passa pela presença de Nicholas Galitzine, que acaba sendo um dos principais responsáveis por prender a atenção do público.
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Um universo que não consegue encantar

O objetivo do filme é transportar o espectador para outro mundo, mas a forma como isso é executado talvez seja um dos maiores problemas da produção. Em muitos momentos, a sensação é de que tudo foi construído da forma mais simples possível. O universo existe, mas falta impacto visual para fazer com que ele pareça especial.
Os figurinos acabam sendo o elemento que mais chama atenção positivamente. Existe um cuidado perceptível com as roupas e com a caracterização dos personagens, mas isso não se estende para todo o restante da construção visual.
Os cenários raramente impressionam. A ambientação não desperta aquela sensação de encantamento normalmente associada aos contos de fadas e às histórias de fantasia. Você entende o que o filme quer ser, você entende que a proposta é contar uma espécie de fábula romântica. Mas, visualmente, a produção dificilmente consegue convencer que aquele é um universo mágico ou memorável.
Talvez tenha sido uma escolha da direção de Julia Jackman seguir um caminho mais contido. Mas o resultado final acaba não sendo dos mais atrativos.
Nicholas Galitzine rouba a cena

Quando o assunto são os personagens, existe uma diferença muito grande entre os desempenhos apresentados.
Maika Monroe, interpretando Cherry, em nenhum momento consegue criar uma conexão forte com o público. Sua personagem deveria ser um dos pilares centrais da narrativa, mas a atuação acaba sendo fria e sem transmitir grandes emoções; falta carisma, flta algo que faça o espectador realmente se importar com ela.
Já Emma Corrin, interpretando Hero, acaba assumindo naturalmente uma posição de protagonismo dentro da história. O que faz sentido, considerando que o filme é baseado justamente na obra que leva o nome da personagem.
Mas quem realmente chama atenção é Nicholas Galitzine. Desde sua primeira aparição em cena, ele demonstra uma presença muito acima do restante do elenco. Seu Manfred possui carisma, charme e uma naturalidade que fazem o personagem roubar o protagonismo em diversos momentos. Mesmo quando a narrativa perde força, ele continua sendo o principal motivo para manter o interesse pela história. É uma atuação que sustenta boa parte do filme.
Romance funciona melhor do que a fantasia

Se existe uma área em que o filme encontra mais equilíbrio, ela está justamente no romance.
A história trabalha relacionamentos de forma diferente do que normalmente vemos em produções do gênero, e os momentos de sensualidade acabam funcionando melhor do que muitos dos elementos fantásticos da narrativa.
Principalmente por conta da atuação de Nicholas Galitzine. O relacionamento entre Hero e Cherry recebe mais atenção ao longo da história e consegue criar alguns momentos interessantes. Existe um cuidado em determinadas cenas, principalmente quando o filme utiliza o silêncio e reduz a presença da trilha sonora para aproximar o espectador dos personagens. São momentos simples, mas que funcionam.
O filme também nunca esconde que pretende ser um romance dramático com elementos de fantasia, e quando o espectador finalmente entra no ritmo da narrativa, existe um equilíbrio razoável entre esses elementos.
Julia Jackman faz um trabalho competente ao conduzir o tom da história, enquanto a direção de arte e a fotografia conseguem entregar algumas cenas visualmente interessantes, especialmente em momentos de transição e em determinados efeitos de fade in e fade out.
Uma história mais interessada no romance do que na fantasia

Apesar da ambientação fantástica, 100 Noites de Desejo deixa claro que seu foco principal não está na fantasia. O filme é, acima de tudo, um romance, e um romance voltado principalmente para o público LGBTQIA+.
O relacionamento entre Hero e Cherry ocupa o centro emocional da narrativa, enquanto o desejo aparece dividido entre os sentimentos de Manfred por Cherry e a relação construída entre Hero e Cherry. O filme gira em torno dessas relações e não tenta ser muito mais do que isso.
Por esse motivo, quem procura uma grande aventura fantástica provavelmente sairá decepcionado.
O maior acerto e o maior problema

O maior acerto da produção é Nicholas Galitzine. Ele é, sem dúvida, o personagem mais interessante da história e o principal motivo para continuar acompanhando o filme. Desde sua primeira cena existe algo que desperta curiosidade no espectador.
Mas o filme também sofre com uma falta de criatividade visual que acaba limitando bastante seu potencial. A fantasia não impressiona, os cenários raramente encantam e falta aquela sensação de estar acompanhando um verdadeiro conto de fadas. A narrativa também pode parecer confusa em determinados momentos.
Ainda assim, conforme a história avança, ela consegue entregar aquilo que se propõe a fazer. No geral, 100 Noites de Desejo é um filme que pode agradar quem gosta de romances, dramas e histórias voltadas para o público LGBTQIA+, mas dificilmente vai conquistar quem procura uma fantasia grandiosa ou um universo marcante.
Vale pela experiência, pelas atuações e principalmente pela presença de Nicholas Galitzine, mas sem esperar uma obra-prima. Porque, às vezes, para um filme funcionar, vale mais fazer bem o básico do que tentar ser algo lendário e acabar se perdendo no caminho.
Imagem Destacada: Divulgação/Paris Filmes



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