A primeira exibição de filmes no Japão foi realizada em 1897 e em pouco tempo consolidou-se uma indústria especializada em épicos filmes mudos sobre histórias de samurais. Haviam pessoas, os chamados Benshi, que possibilitavam a sonorização parcial dos filmes, uma vez que reproduziam os diálogos durante o filme para o público que assistia às projeções.

Com a 2ª Guerra Mundial o país enfrentou mudanças que se refletiram no cinema de forma ideológica. A partir de então as produções passam a ter um caráter de propaganda, mais tarde consideradas “feudais e antidemocráticas” pelos Estados Unidos e países aliados, os quais destruíram suas cópias e em seguida censuraram essas produções por quatro anos (de 1946 à 1950).

Com um ritmo desacelerado e temáticas bem distantes das do cinema ocidental, o cinema japonês levou tempo até ser reconhecido pelos grandes circuitos. Mas, eventualmente, o trabalho de diretores como Akira Kurosawa, Kenji Mizoguchi, e Yasujirō Ozu fez com que esse cinema tenha sido muito aclamado.

Kurosawa revolucionou os filmes de samurai produzidos no país. Iniciou sua carreia com influência do trabalho de seu irmão, um benshi, e passou a produzir dramas realistas com temáticas relacionadas a uma estética a quem foi apresentado ainda jovem, por um professor de história da arte. Rashomon (1950) e Trono manchado de sangue (1957) são grande marcos de sua obra.

Rashomon (Akira Kurosawa, 1950)

A obra de Mizoguchi tem destaque nos anos que precederam a 2ªGM e trata primordialmente, da mulher japonesa; com filmes que retratam a desde as gueixas, como em As Irmãs de Gion (1939) até aquelas que lutaram por justiça social, no longa Vitória das Mulheres (1946).

Destes diretores, Ozu foi o que chegou mais tardiamente aos circuitos europeus, pois o enredo de seus filmes não era considerado algo passível de compreensão do ocidente e à qual essa parte do mundo se afeiçoaria. A autenticidade singular de sua obra foi reconhecida apenas após sua morte, entre as décadas de 1960 e 70. Suas obras traziam o máximo da simplicidade, buscando mostrar o essencial de forma direta, através da câmera quase sempre fixada próximo ao solo ou em nível abaixo das personagens e sem o olhar dos atores direcionados incisivamente para a câmera como acontece nas narrativas ocidentais, dando aos diálogos uma singularidade que torna-se marca do diretor.

Tōkyō Monogatari – Era Uma Vez em Tóquio (Yasujiro Ozu, 1953)

Sua obra é fruto da demonstração singela do cotidiano onde a família, a trivialidade dos acontecimentos e a rotina constroem, pouco a pouco, uma narrativa rica de detalhes, repetindo em sua obra a beleza dos acontecimentos considerados comuns, como em A Rotina tem seu Encanto (1962), onde o ponto principal é o fato de um pai que quer casar sua filha ou em Era uma vez em Tóquio (1953) onde a relação de pais e filhos, bem como a cidade, são destacadas.

Em busca da demonstração dos acontecimentos em relação à existência do drama e das personagens de forma pura, Ozu se abstém de recursos narrativos caros ao cinema, como movimentos de câmera, travellings de acompanhamento e fusão em suas produções. O resultado é uma liberdade por parte do espectador ao vivenciar sua obra mesmo que construída de forma evidentemente clara.

(Na capa da matéria, o cineasta Kenji Mizoguchi)

Por Letícia Vilela