Travis Knight encontra um equilíbrio entre nostalgia e renovação, apresenta He-Man para uma nova geração e deixa Eternia pronta para crescer nos próximos filmes
Assim que “Mestres do Universo” foi anunciado, logo se pensou no quanto adaptar “He-Man” para as telonas nunca foi uma tarefa fácil. Antes mesmo de pensar em figurinos, efeitos especiais ou elenco, existe um desafio muito maior: entender que boa parte das novas gerações não acompanhou o personagem e, em muitos casos, sequer ouviu falar dele.
Ao mesmo tempo, existe um público que cresceu assistindo às animações e que carrega uma enorme expectativa em relação a qualquer adaptação do universo de Eternia.
Conciliar esses dois públicos é extremamente difícil. E a proposta deste filme deixa claro desde o início que a intenção era justamente essa: criar uma história capaz de funcionar tanto para quem conhece He-Man desde a infância quanto para quem está tendo seu primeiro contato com esse universo.
E, seguindo essa ideia, Travis Knight acerta em cheio na execução dessa nova adaptação para os cinemas.
Quando o filme começa, não demora muito para a curiosidade aparecer. O espectador rapidamente passa a querer entender quem é aquele personagem, como ele se transforma em He-Man e para onde toda aquela história está caminhando.
O filme lança esse bait logo nos primeiros minutos e consegue prender a atenção de quem está assistindo.
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A construção de Eternia é um dos grandes acertos do filme

Conforme a história avança, a construção do mundo onde tudo acontece passa a ser um dos grandes destaques da produção.
Os figurinos são extremamente caprichados e merecem reconhecimento. Adaptar visualmente personagens que nasceram em uma animação sempre traz riscos, mas a direção de arte encontra um equilíbrio muito interessante entre fidelidade e realismo.
É possível acreditar naquele universo.
Além dos figurinos, a atmosfera criada pelo filme consegue transmitir a sensação de fantasia sem se desconectar completamente da realidade. Isso ajuda muito na imersão, porque o espectador não fica apenas observando um mundo fantástico à distância. Em vários momentos, é possível imaginar que tudo aquilo realmente existe.
E quando começamos a falar especificamente de Eternia, o trabalho se torna ainda mais impressionante.
Quem conhece a franquia sabe da dificuldade de representar visualmente um universo tão grande e tão rico em mitologia. Mesmo sem aprofundar completamente toda a história de Eternia, o filme consegue transmitir a sensação de que existe muito mais acontecendo além daquilo que está sendo mostrado na tela.
Isso talvez seja um dos maiores elogios que podem ser feitos à produção.
Você termina o filme querendo conhecer mais daquele universo. Querendo entender melhor sua história, seus conflitos, sua política, seus personagens e tudo aquilo que ainda ficou guardado para futuras explorações.
A direção de Travis Knight consegue transmitir exatamente essa sensação. E o trabalho visual ajuda bastante nisso.
Os cenários são ricos em detalhes, as sombras são muito bem utilizadas e a iluminação mais baixa em diversos momentos reforça a ideia de que aquele não é um ambiente seguro. Um mérito que também passa pelo trabalho de Fabian Wagner na fotografia.
Um elenco carismático que sustenta a história

Quando o assunto são os personagens, o filme também encontra muitos acertos.
Nicholas Galitzine entrega um Adam extremamente carismático. Sua primeira aparição já demonstra uma presença de cena muito forte, e o ator praticamente carrega boa parte do filme nas costas através do humor, das expressões faciais e da facilidade de conquistar o público.
É um protagonista que funciona.
Camila Mendes, interpretando Teela, também tem uma entrada muito impactante na história. Sua química com Galitzine acontece de forma natural e ajuda bastante no andamento da narrativa.
Os dois sustentam boa parte do filme com facilidade.
Por outro lado, existe um personagem que parece ter sido pouco aproveitado nesta primeira aventura.
Duncan, interpretado por Idris Elba, demonstra logo em suas primeiras cenas que possui potencial para muito mais. Sua presença é forte, mas a história acaba explorando pouco o personagem. Fica a sensação de que existe espaço de sobra para desenvolvê-lo melhor em uma continuação.
Já Jared Leto merece uma menção especial pelo trabalho realizado com Esqueleto.
Mesmo sem mostrar o rosto em nenhum momento, sua interpretação consegue transmitir ameaça, imponência e até um certo humor que combina bastante com o tom adotado pelo filme. É uma atuação que ajuda a transformar o personagem em uma presença memorável.
O mesmo vale para Alison Brie como Maligna, personagem que provavelmente deve ganhar ainda mais espaço nos próximos capítulos dessa história.
No geral, todos os personagens essenciais para a construção da narrativa possuem personalidade própria e conseguem gerar envolvimento com o público.
As atuações funcionam, os relacionamentos entre os personagens convencem e existe uma química natural que ajuda bastante a manter o espectador conectado à trama.
Uma identidade própria que pode definir o futuro da franquia

Como já fica claro desde o início, Travis Knight optou por fazer uma adaptação que conversa com diferentes gerações. O filme não vive apenas de nostalgia, embora ela esteja presente através de diversos easter eggs espalhados ao longo da obra.
O tom escolhido é o humor.
Depois que o filme apresenta sua premissa e estabelece o universo, fica evidente qual caminho será seguido. E a verdade é que essa decisão funciona muito bem dentro da proposta apresentada.
Mas também é justamente aqui que alguns fãs mais antigos podem encontrar resistência.
Quem esperava uma adaptação mais séria talvez estranhe algumas escolhas. Porém, considerando que o objetivo principal era apresentar e reintroduzir He-Man para uma nova geração, a abordagem adotada pelos roteiristas Chris Butler, Aaron Nee, Dave Callaham, Alex Litvak e Michael Finch faz bastante sentido.
O desafio pode aparecer justamente em uma continuação.
Agora que o universo foi apresentado e Eternia já está estabelecida, será interessante entender se os próximos filmes continuarão apostando nesse humor mais leve ou se escolherão um caminho mais sério para aprofundar o universo apresentado.
Aspectos técnicos ajudam a transformar a experiência

A trilha sonora do filme é outro grande destaque.
A utilização de músicas conhecidas funciona muito bem porque elas não estão ali apenas para preencher espaço. Existe um cuidado evidente no encaixe das batidas, dos momentos e das cenas em que cada música aparece.
Tudo parece sincronizado de forma muito natural.
O trabalho do departamento de som merece reconhecimento, assim como a forma como Travis Knight conduz esses momentos ao longo da narrativa.
Outro mérito importante está no ritmo. Mesmo com aproximadamente duas horas e vinte minutos de duração, o filme não se torna cansativo. A narrativa encontra formas constantes de manter o interesse do espectador, alternando momentos de humor, ação e desenvolvimento dos personagens.
E isso faz diferença quando estamos falando de uma história baseada em um universo tão grande quanto o de He-Man.
No fim das contas, Mestres do Universo consegue cumprir exatamente aquilo que se propõe a fazer.
É um filme que entretém, apresenta seu protagonista para novos públicos, respeita quem já conhece esse universo e, principalmente, desperta a curiosidade para aquilo que ainda pode vir pela frente.
E talvez esse seja seu maior acerto: fazer o espectador sair do cinema querendo voltar para Eternia o mais rápido possível.
Imagem Destacada: Divulgação/Sony Pictures



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