Com Hannah Einbinder e Gillian Anderson, Acampamento Miasma usa clichês do slasher para discutir cinema, gênero e desejo queer
“Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte” é um daqueles filmes que, dependendo do local de sua exibição, iludirá muitos espectadores desavisados que buscam o slasher da vez, já que, apesar de haver uma figura no estilo de Jason Voorhees e Michael Myers, propõe uma reflexão relevante em vez do puro entretenimento baseado em vísceras. Os objetos de análise são o cinema, a indústria ao seu redor e questões pertinentes à nossa sociedade, como a identidade de gênero e as inseguranças sexuais e afetivas dos jovens contemporâneos. Há, sim, bastante sangue e membros decepados na obra da celebrada em Sundance Jane Schoenbrun, mas eles surgem como uma espécie de paródia das produções dessa vertente.
Assim, quando uma cabeça ou um braço é arrancado, o líquido vermelho jorra como água em hidrantes rompidos. As mortes em si, apesar de violentas, assemelham-se às de certos jogos eletrônicos, nos quais o impacto do golpe do assassino não é sentido fisicamente, havendo apenas os sons fabricados em pós-produção que conferem, como dizem os jogadores, certa “crocância” à execução dos inimigos. A perspectiva em primeira pessoa também é adotada nesses instantes.

Na trama, a cineasta independente Kris (Hannah Einbinder) tem a oportunidade de ingressar no universo hollywoodiano ao ser convidada para escrever e dirigir o retorno de um filme de terror outrora muito bem-sucedido, que rendeu uma fortuna ao estúdio, gerou algumas sequências, mas acabou perdendo relevância (assim como ocorreu com a franquia “Sexta-feira 13”, para efeito de contextualização). Kris, disposta a tornar a volta do personagem Little Dead, o assassino sobrenatural, algo de maior qualidade artística, pretende imprimir sua visão queer sobre a obra.
Além disso, deseja como protagonista a atriz do longa original, Billy Presley, hoje na casa dos sessenta anos (interpretada por Gillian Anderson). O único empecilho é que ela tornou-se uma figura reclusa, afastada da sociedade, vivendo longe da civilização: precisamente no acampamento onde foi filmada a produção que lhe rendeu uma breve notoriedade. Por essa razão, a cineasta viaja até a gélida localidade a fim de convencer Presley a reviver seus tempos de glória e, assim, concretizar sua visão mais intelectualizada da história.
LEIA MAIS:
5 Pais Mais Desgraçados da Literatura
Leprechaun | Duende Retorna Aos Cinemas Em Busca do Pote de Ouro
Alan Moore e o Ocultismo | Como a Magia Sombria Moldou o Gênio dos Quadrinhos
Tudo, a partir daí, poderia soar simples caso “Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte” fosse um filme convencional de terror adolescente, mas Schoenbrun recorre a intensa metalinguagem, com o filme dentro do filme dentro do filme… além do assassino com uma máscara em formato de cubo, que remete a uma câmera antiga, na qual quem a manuseia consegue enxergar por meio do obturador. Ou seja, o cinema, e até mesmo a indústria e o gênero terror, são examinados, por vezes de maneira desconexas, mas com certo grau de êxito.
Somam-se a isso os elementos queer da narrativa, já que a personagem da diretora, incapaz de alcançar satisfação no sexo, acaba encontrando um caminho por meio da personagem da atriz que almeja ver em seu filme. Nesse instante, o sexo, o sangue e a sétima arte se entrelaçam para que o gozo seja finalmente alcançado por ambas. Todos os obstáculos que as impedem de compreender as motivações de Little Dead são superados, como vítimas esquartejadas típicas desse tipo de produção, e o prazer do casal, a partir disso, atinge o auge.
No terceiro ato, o casal de mulheres aparece coberto de sangue e doces, como se os filmes violentos de terror fossem entretenimento para adultos infantilizados. Elas aguardam o retorno de Little Dead e seu próximo massacre, buscando nesse momento o seu próprio êxtase — assim como faz o espectador fã do gênero que, com o balde de pipoca e as barras de chocolate em mãos, fixa os olhos na tela ansioso pela próxima morte espetacular, e urra de contentamento diante do resultado.
“Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte” estreia em 13 de agosto, e em breve no MUBI.
Imagem destacada de “Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte”: Divulgação/Retrato Filmes



Sem comentários! Seja o primeiro.