Magia, rituais e o deus-cobra Glycon. Como o ocultismo transformou Alan Moore em um gênio dos quadrinhos? Descubra o lado esotérico do criador de Watchmen
Não é exagero dizer que poucos autores transformaram os quadrinhos tão profundamente quanto Alan Moore. Mas existe uma camada da sua obra que continua sendo ignorada por muitos leitores: o ocultismo de Alan Moore não é uma curiosidade de bastidor — é o centro gravitacional de praticamente tudo o que ele escreveu.
Para o público geral, Moore é o criador de “Watchmen”, o homem por trás de “V de Vingança”, “Do Inferno”, “HellBlazer” e “A Liga Extraordinária”. Para seus leitores mais atentos, porém, ele é algo mais estranho: um mago cerimonial autodeclarado, alguém que afirma praticar magia como método criativo e filosofia de vida.
Enquanto outros artistas falam em inspiração, Moore fala em invocação. Enquanto outros escrevem histórias, ele acredita estar alterando estados de consciência através de símbolos. E talvez seja justamente aí que reside o segredo de sua influência.
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A Iniciação: quando a arte se transformou em magia

Por volta dos 40 anos, o escritor britânico passou a defender uma ideia que mudaria para sempre a leitura de sua obra: arte e magia seriam, no fundo, a mesma coisa. A associação não é mero jogo de palavras. Em inglês, a palavra “spell” significa tanto “feitiço” quanto “soletrar”. Moore explora esse duplo sentido como princípio criativo.
Para ele, escrever seria lançar um feitiço. Organizar palavras seria manipular a percepção. Narrar seria alterar o estado de consciência do leitor.
Essa visão aparece em entrevistas, palestras e na própria arquitetura de seus quadrinhos. Em vez de tratar os personagens como simples peças de ficção, o autor frequentemente os molda como entidades simbólicas, forças arquetípicas capazes de operar no imaginário coletivo. Em outras palavras: cada fala, cada símbolo e cada silêncio pode funcionar como um pequeno ritual.
Não é por acaso que sua bibliografia costuma causar a sensação de que existe sempre algo escondido sob a superfície. Nas obras do britânico, a trama principal quase nunca é a única história. Há sempre um subtexto oculto, uma segunda camada, uma corrente subterrânea de significados.
A sombra da Besta: a influência de Aleister Crowley

Se existe um nome que paira sobre o universo esotérico do quadrinista, esse nome é Aleister Crowley. O ocultista britânico, ligado à Magia Cerimonial e ao sistema filosófico-religioso de “Thelema”, tornou-se uma referência inevitável para qualquer discussão séria sobre a magia de Alan Moore.
Crowley defendia a busca pelo autoconhecimento, a vontade individual e a transformação da consciência por meios rituais e simbólicos. O criador de “Watchmen”, por sua vez, não o copia de maneira simples. Ele absorve a atmosfera, o método e a provocação intelectual. Em vez de usar o ocultismo como uma fantasia decorativa, transforma-o em estrutura narrativa.
Promethea como um grimório em quadrinhos

Poucas obras ilustram isso tão bem quanto “Promethea”. Longe de ser apenas uma série de super-heroína, a HQ funciona como um verdadeiro grimório em formato de quadrinhos.
Ali, o leitor é conduzido por mitologia, imaginação, magia, linguagem e estados expandidos de percepção. É uma publicação que não apenas conta um conto sobre feitiçaria; ela se comporta como uma tentativa prática de ensinar o público a pensar magicamente.
Do Inferno e a arquitetura do ritual

Em “Do Inferno” (“From Hell”), a influência esotérica não aparece como uma aula explícita, mas como arquitetura. A narrativa sobre os assassinatos em Whitechapel é construída com uma obsessão por símbolos, padrões, camadas históricas e paranoia interpretativa.
O resultado é ritualístico. A Londres desenhada não parece apenas uma cidade: parece um organismo mágico, corroído por violência, poder e conhecimento proibido. Ali, o horror não vem só do crime, mas da sensação de que a história inteira é um mecanismo oculto em pleno funcionamento.
A guerra dos magos: a rivalidade entre Grant Morrison e Alan Moore

Poucas tensões na indústria dos quadrinhos são tão comentadas quanto a rivalidade entre Grant Morrison e Alan Moore. A disputa é famosa, complexa e muitas vezes exagerada pelos fãs, mas existe um ponto central incontornável: ambos se veem, em algum nível, como praticantes de artes místicas aplicadas à literatura.
Só que os caminhos adotados por eles são completamente diferentes.
O Mago de Northampton tende ao cerimonial: ao elaborado, ao denso, ao simbólico e ao gravado com extrema paciência. Morrison, por sua vez, abraça a Magia do Caos e a chamada pop magic, uma abordagem mais fluida, performática e baseada na ideia de que a cultura de massa pode funcionar como um campo mágico. Em vez de um templo, o escocês vê a HQ como um transmissor viral de símbolos.
Dois modelos de feitiço
Em termos narrativos, Moore costuma construir estruturas pesadas, monumentais e quase litúrgicas. Morrison prefere a velocidade, a colagem de referências, o choque de ideias e a energia do hipertexto cultural.
Essa disparidade ajuda a entender por que a rivalidade virou quase uma “guerra fria mística” dentro da DC Comics e do selo Vertigo. Não era apenas um conflito de egos; era um choque entre duas filosofias de criação: uma mais próxima do altar, a outra mais próxima do laboratório.
O deus cobra e a persona pública do mago

Poucas imagens são tão reveladoras quanto Glycon, o deus-serpente romano que o roteirista adotou como figura espiritual. O detalhe mais fascinante é que Glycon era, historicamente, uma farsa desmascarada já na antiguidade, um culto ligado a uma espécie de encenação com uma cobra de pano e ventriloquia.
Moore não evita essa ironia; ele a abraça. Para ele, o fato de algo ser “falso” no sentido histórico não elimina sua força simbólica. É justamente aí que a persona pública do autor ganha densidade: ele transforma o próprio absurdo em método.
Seu visual também virou parte do feitiço. A revista “GQ” o descreve como uma figura quase bruxesca, de barba longa e aura calma, enquanto a imprensa frequentemente o trata como um profeta doméstico escondido em Northampton. Essa imagem não é mero folclore: ele viveu boa parte da vida na cidade, extraiu dela a matéria literária para seu romance épico “Jerusalém” (“Jerusalem”) e construiu uma autobiografia pública na qual o recluso, o erudito e o performático se misturam o tempo todo.
O feitiço quebrado: por que Alan Moore odeia adaptações?

A relação do gênio dos quadrinhos com Hollywood é uma das partes mais comentadas de sua trajetória. A razão para o atrito não se resume a contratos, direitos autorais ou disputas comerciais, embora tudo isso exista. Há também uma dimensão simbólica profunda: para ele, a obra original é um feitiço cuidadosamente conjurado.
Quando uma adaptação altera demais a estrutura, simplifica conceitos ou transforma uma narrativa rica em um produto industrial genérico, o que se perde não é apenas a “fidelidade”. O que se perde, na lógica mística do criador, é o próprio encantamento.
Essa visão explica por que ele rejeita royalties e se distancia das versões cinematográficas de suas obras. Não se trata apenas de uma antipatia por Hollywood, mas da recusa em validar um processo em que a arte deixa de ser uma experiência transformadora para se tornar uma mercadoria domesticada.
Na sua concepção, o problema não é adaptar. O problema é quebrar o feitiço, retirando da obra sua densidade simbólica para entregar ao público apenas a casca. Por isso, a frase “por que Alan Moore odeia filmes?” faz sentido apenas até certo ponto. O que ele realmente rejeita é a lógica de simplificação que frequentemente acompanha a indústria do cinema quando ela se apropria de obras profundamente autorais.
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Ocultismo e legado moderno

Falar da vertente ocultista do roteirista britânico é falar de muito mais do que um autor excêntrico interessado em símbolos estranhos. É falar de um criador que transformou os quadrinhos em um laboratório de percepção, a linguagem em rito e a narrativa em um ato mágico.
Sua obra não apenas contou grandes epopeias: ela ajudou a redefinir o que uma história em quadrinhos pode fazer na mente de um leitor.
No fim das contas, o legado de Alan Moore talvez resida justamente nisso. Ele não escreveu apenas páginas memoráveis; ele lançou palavras mágicas que continuam reverberando em gerações inteiras de leitores, artistas e curiosos pelo universo do esoterismo.
Imagem Destacada: Divulgação/Gerado por Inteligência Artificial


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