Longa “Não Estamos Sonhando” aborda a realidade de estudantes negros a partir da dimensão social do corpo
O filme “Não Estamos Sonhando” do diretor alagoano Ulisses Arthur fez bonito tanto no Festival do Rio quanto na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo desse ano, com salas lotadas. Além da qualidade técnica do longa, tal sucesso se justifica pela relevância e atualidade da história contada, de um jovem negro, estudante de Medicina, gay e periférico às voltas com a opressão do sistema sobre seu corpo. Confira a seguir a crítica, com algumas revelações do enredo:
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Em “Não Estamos Sonhando“, Ciro (Pedro Leão) vive uma rotina intensa como estudante de Medicina e complementando a renda como professor de pole dance para seus amigos, estudantes negros dos cursos da área da saúde de Alagoas. Quando ele precisa sair repentinamente da casa onde vive como hóspede, Ciro encontra abrigo no apartamento de Antônio (Luciano Pedro Jr.), um enigmático DJ que mora com a prima no prédio ao lado.

A sensação que se tem logo de início é que o protagonista vive numa paradoxal situação provisória eterna em vários aspectos de sua vida. É hóspede na casa da tia (Nívea Maria), depois encontra abrigo na casa do vizinho, no que seria uma noite e acaba se estendendo por mais tempo. O relacionamento que deveria ter acabado, mas não acaba. Até mesmo o pole dance se torna uma atividade regular para superar uma crise financeira, após o corte de bolsas que garantem sua sobrevivência. No entanto, é essa arte que assume o protagonismo como uma plataforma de resistência do corpo negro e LGBT diante das várias camadas de opressão cotidiana.

A escolha do pole dance é muito acertada em vários aspectos, mas principalmente pela abordagem que escapa da objetificação dos corpos para ressaltar a aquisição da força e também da flexibilidade para superar os obstáculos impostos pela dinâmica social na qual o grupo se insere. Além disso, as acrobacias que desafiam a gravidade representam um ato simbólico de empoderamento para o alto, rompendo a condição de submissão dos corpos negros. As cenas das aulas e das performances do grupo são muito bem filmadas, com ângulos precisos e coreografias magnéticas.
O roteiro de “Não Estamos Sonhando“, que também é de Ulisses, consegue abordar de forma consistente vários temas que permeiam a sociedade brasileira atual. Entre eles estão as deficientes políticas de apoio aos alunos cotistas no ensino superior, passando pelo conservadorismo, até chegar na opressão diária dos corpos negros periféricos. O único ponto que não é muito bem trabalhado na narrativa são as relações afetivas de Ciro.

O relacionamento com o ex, aparentemente tóxico, não ganha um bom desenvolvimento e parece esquecido à certa altura do longa. Seu envolvimento com Antônio, parece ter um impacto na reavaliação de seus desejos, mas isso aparece de forma um pouco apressada, onde não conseguimos ver a real conexão entre os dois. Talvez a construção do personagem Antônio tenha ficado exageradamente misteriosa, comprometendo a intensidade dessa relação. Para compensar esse ponto, a interação com grupo de amigos da faculdade é tão convincente que é difícil não criar uma empatia imediata com o apoio emocional mútuo.
Mesmo com alguns deslizes na construção dos vínculos amorosos do protagonista, “Não Estamos Sonhando” se impõe pela coragem e pela sensibilidade com que aborda questões tão urgentes do Brasil de hoje. Com cenas de dança magnéticas e um elenco que transmite verdade em cada gesto, Ulisses Arthur entrega um filme que desafia a gravidade, no sentido literal e simbólico, e prova que a resistência também pode ser, ao mesmo tempo, beleza, afeto e celebração.
Imagem Destacada: Divulgação/Retrato Filmes







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