Um documentário sobre a guerra, onde matar vira procedimento e entre cálculos militares e vidas destruídas, a humanidade é a maior vítima! “NAZA” chega ao Brasil após ovação no Festival de Veneza
Existem documentários que informam, outros que denunciam e alguns que nos colocam diante de uma realidade tão brutal que fica difícil simplesmente permanecer indiferente. “NAZA”, dirigido por Yuval Abraham e Rachel Szor, pertence à terceira categoria. É uma obra contundente, perturbadora e necessária, que transforma uma investigação jornalística em um documento cinematográfico de enorme impacto político e humano.
O próprio título carrega uma das revelações mais perturbadoras do documentário. “NAZA” é uma sigla derivada da expressão hebraica Nezek Agavi, que significa literalmente “dano colateral”. Nos círculos de inteligência militar israelenses, o termo é utilizado para designar a quantidade estimada de civis que poderão morrer em consequência de um ataque aéreo contra determinado alvo. Em outras palavras, trata-se de uma previsão de mortes de pessoas que não são necessariamente o objetivo da operação, mas cujas vidas entram no cálculo militar como possíveis danos colaterais.
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A escolha desse termo como título é profundamente simbólica: transforma uma expressão burocrática, aparentemente técnica e impessoal, em uma denúncia sobre como a morte de civis pode ser incorporada à lógica operacional da guerra, reduzida a números, estimativas e critérios de planejamento.
A partir de uma investigação construída com depoimentos de 24 militares e profissionais ligados à inteligência israelense, os diretores apresentam relatos de pessoas que participaram ou tiveram conhecimento dos mecanismos utilizados nas operações militares em Gaza. As entrevistas, realizadas sob anonimato e com recursos para preservar a identidade dos depoentes, revelam uma engrenagem assustadora: vidas humanas submetidas a cálculos, critérios operacionais e justificativas que parecem retirar qualquer valor individual da existência de milhares de pessoas.

O que mais impressiona é a naturalidade com que determinados entrevistados descrevem situações extremas. Relatos sobre ataques que atingem famílias inteiras, justificativas para a morte de civis e decisões que parecem tratar a destruição como parte corriqueira do expediente militar são apresentados sem grandes demonstrações de emoção. Em alguns momentos, a impressão é de que estamos ouvindo alguém comentar uma partida de “videogame” ou simplesmente explicar mais um dia de trabalho. É justamente essa ausência de espanto que provoca o maior desconforto. Quando a morte perde sua dimensão humana e passa a ser tratada como procedimento, estamos diante de algo muito maior do que uma estratégia militar: estamos diante da banalização da crueldade.
A direção de Yuval Abraham e Rachel Szor demonstra maturidade e precisão. Em vez de recorrer a uma condução apelativa, os realizadores apostam na força dos relatos, na construção gradual das informações e no contraste entre o conteúdo das entrevistas e a aparente normalidade da vida ao redor. As conversas acontecem em terraços de edifícios de Tel Aviv, enquanto a cidade segue sua rotina noturna. Essa escolha visual é brilhante: enquanto os depoimentos revelam a dimensão da tragédia em Gaza, a vida cotidiana continua acontecendo a poucos metros dali.
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A fotografia de Rachel Szor merece destaque pela composição dos enquadramentos, pelo uso da iluminação noturna e pela atmosfera quase fantasmagórica que envolve os entrevistados. A montagem também é fundamental, organizando as revelações de maneira progressiva e mantendo a tensão sem precisar recorrer a artifícios dramáticos.
O roteiro investigativo, construído a partir de reportagens publicadas pelo +972 Magazine, pelo Local Call e pelo The Guardian, encontra no cinema uma forma poderosa de conectar informações, testemunhos e registros históricos. Outro mérito está na utilização de imagens de arquivo e registros televisivos reais, que ampliam o contexto histórico e político da narrativa.
O documentário não se limita aos depoimentos: estabelece conexões com a formação de Israel, a Nakba, a trajetória política do país e a escalada de violência em Gaza. As referências ao nazismo feitas por alguns dos próprios entrevistados tornam o material ainda mais inquietante. Nesse aspecto, a obra inevitavelmente evoca “Zona de Interesse”, de Jonathan Glazer, que também expõe a assustadora capacidade humana de conviver com a barbárie enquanto a rotina aparentemente normal continua. Não por acaso, Glazer participa de “NAZA” como produtor executivo.

O reconhecimento internacional também confirma a relevância da produção. O filme recebeu o Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza de 2026, além de conquistar expressiva repercussão entre a crítica especializada. A recepção positiva reforça sua importância não apenas como investigação jornalística, mas também como realização cinematográfica.
No cenário político, o documentário chega em um momento especialmente delicado. As eleições israelenses de outubro de 2026 terminaram sem que o bloco de Benjamin Netanyahu conquistasse maioria suficiente para formar governo sozinho. O Likud e seus aliados ficaram com 53 cadeiras, enquanto a oposição obteve 48 e os partidos árabes, 19. O país atravessa, portanto, um período de negociações e incertezas políticas, com Netanyahu ainda no centro das articulações. Nesse contexto, “NAZA” ganha uma dimensão ainda mais relevante ao questionar não apenas as decisões militares, mas também a estrutura política e social que permite sua continuidade.
Sou contrário às políticas do governo israelense e à destruição em massa provocada em Gaza. E faço questão de separar essa posição da identidade de um povo ou de uma religião: criticar um governo e denunciar suas ações não significa condenar uma população inteira. Para mim, o documentário é um registro indispensável de uma realidade que não pode ser normalizada, relativizada ou esquecida.
“NAZA” (2026) é cinema de investigação, denúncia e reflexão. Uma obra que não precisa levantar a voz para ser devastadora, porque a própria naturalidade de certos depoimentos já é suficientemente aterradora. Recomendo fortemente. É um daqueles filmes que terminam, mas continuam ecoando na consciência do espectador.
Imagem Destacada: Divulgação/Nitrato Filmes



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