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Um simbólico recorte

Depois de estrear no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, ganhando o prêmio de Melhor Filme pelo júri popular no ano passado, e conquistar o prêmio de Melhor Filme e Melhor Atriz no Festival Internacional de Cinema de Tóquio, “Nise – O Coração da Loucura” finalmente chegará ao circuito nacional, no dia 21 de abril.

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O filme, que poderia ser intitulado como uma cine-biografia, nada mais é que um recorte de uma parte da vida da Dra. Nise da Silveira, que após sete anos afastada da profissão, retorna às suas atividades no Centro Psiquiátrico do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Durante todo o filme, ela luta para dar um tratamento mais digno e humano aos pacientes no início da década de 40, onde técnicas brutais, como eletrochoque e lobotomia, ganhavam força entre os profissionais psiquiátricos. Através de sua insistência, mesmo sem prestígio profissional, ela conseguiu transformar a renegada Seção de Terapia Ocupacional (STO) em um ateliê, onde os pacientes ou clientes – como ela os chamava, eram tratados por meio da arte e, consequentemente, do amor.

O excelente roteiro, baseado no livro “Nise – Arqueóloga dos Mares”, de Bernardo Horta, escrito por Flavia Castro, Maurício Lissovsky, Maria Camargo e Chris Alcazar, apresenta mais do que uma passagem. Traz consigo a delicadeza constante para se narrar uma história densa e extraordinária de uma mulher que acreditava que o afeto, o respeito e a liberdade são os melhores tratamentos.

Em paralelo, a direção de Roberto Berliner retoma em sua estética a realidade documental numa obra de ficção. Sem contar ainda com a sua destreza em conduzir a frágil persona estruturada pelos personagens a uma exposição realista, crível e emocionante. Porém, há um certo incômodo no início, com o excesso de câmeras na mão sem uma certa precisão em movimento e a falta de “cuidado” ao retratar as sujas e frias texturas ambientadas por toda a cenografia. Falta essa, que se reduz e é conduzida a um ponto mágico e emocionante adiante.

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Falar sobre o filme sem dar algum tipo de spoiler é um verdadeiro perigo, mesmo não apresentando ápices dramáticos. Sua condução é realizada através da sutileza dos laços criados, das interações dos clientes com a arte e com Nise. Também é difícil dizer qual é o melhor ator e/ou atriz em cena. São personagens e interpretações tão palpáveis, idealizadas com os pés no chão e visualizadas com tamanho cuidado, que notavelmente os reais pacientes se tornaram uma ficção primorosa pelas atuações de Simone Mazzer (Adelina Gomes), Julio Adrião (Calos Pertius), Claudio Jaborandy (Emygdio de Barros), Fabrício Boliveira (Fernando Diniz), Roney Villela (Lucio), Flávio Buarque (Otávio Ignacio) e Bernardo Marinho (Raphael).

O coração ficou louco e sem essa loucura, Nise, talvez, jamais teria se encontrado como profissional. Amor pelo que se faz, vendo a transformação constante nos seres humanos que passaram por sua ala, fazem dela uma mulher à frente de seu machista tempo. Tocante, de encher os olhos, “Nise – O Coração da Loucura”além de uma exibição, merece reconhecimento e aplausos.

Paulo Olivera é mineiro, Gypsy Lifestyle e nômade intelectual. Apaixonado pelas artes, Bombril na vida profissional e viciado em prazeres carnais e intelectuais inadequados para menores e/ou sem ensino médio completo.