A solitária claustrofobia
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 A próxima quinta, dia 26, será marcada por várias estreias nacionais e entre elas está “Ponto Zero”, trazendo a estreia de José Pedro Goulart como diretor de longas metragens, numa trama silenciosa, seca e carregada de significados.
 
Na história vemos o desenvolver de Ênio (Sandro Aliprandini), um garoto de 14 anos, que tem um dia a dia intercalado entre a escola e sua casa. Sua mãe (Patrícia Selonk) trata-o como uma criança e o superprotege exigindo sua presença constante uma vez que a relação com o pai, Virgílio (Eucir de Souza), anda completamente desgastada. Ênio se vê preso dentro de si e em uma noite, onde ele tenta fazer as coisas a sua própria maneia, descobrirá o quão pesada a vida pode ser.
 
Escrito e dirigido pelo premiado José Pedro Goulart, seu debut em longas vem silencioso, por vezes arrastado, mas carregado de significados. Embutindo “qual o peso cada um pode suportar?” ele apresenta em seu roteiro não só o peso do personagem central, mas também daqueles que o rodeiam e jogam suas cargas emocionais sobre ele. Existe uma linguagem bem europeia, tanto no roteiro quanto na direção, mas com a cara completamente brasileira. Os planos sequência são uma das melhores coisas do filmes, mas a representação da estagnação pessoal sobre a bicicleta é de longe a melhor parte de todo a produção.
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A trilha sonora, de Léo Henkin, conduz não só a uma estrutura orquestrada, mas a utilização de ruídos e sons urbanos para uma excelente composição de quão estranha pode ser a mente humana, trancafiada pela falta de liberdade e do verdadeiro afeto, estabelecendo uma rigidez urbana necessária para a identificação das melodias na trama.
Outro importantíssimo ponto do filme é a junção da montagem, fotografia e efeitos. Rodrigo Graciosa, Diretor de Fotografia, utiliza da sobriedade através de contrastes de profundidade e cor, aproveitando a estética crua e acinzentada, por vezes ocre e apática. Enquanto a montagem de Federico Brioni vem repleta de inserções estáticas e silenciosas para a preencher o vazio dos personagens. A movimentação ao contrário é uma clara presença de que não há progresso, uma vez que o personagem se movimente na direção contraria, anulando assim os movimentos e se mantendo estagnando ao silêncio.
 
O filme também marca a estreia do ator Sandro Aliprandini e da atriz Larissa Tavares em longas. Sandro apresenta um bom resultado como o menino franzino, calado e por muitas vezes estranho. Larissa, por sua vez faz uma pequena e notável participação no filme e poderia ter sido melhor aproveitada. Eucir de Souza está ótimo em seu papel, mas a insegurança da personagem e a presença de Patrícia Selonk fazem dela um verdadeiro destaque.
 
“Ponto Zero” supera expectativas e não se parece em nada com o que estamos acostumados a assistir nos filmes nacionais. A falta de afeto, o claustrofóbico silêncio e a “desajustada” trama do protagonista, fazem do filme uma reflexão pessoal pela ótica de uma excelente marca do audiovisual brasileiro.
 

Crítica – Ponto Zero
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