No vibrar das cordas: como um solo de jazz, a obra improvisa sobre a estrutura mista de um thriller criminal ligado a um romance, regada a boa música e uma reviravolta digna do ápice de uma ópera
No filme “O Afinador” (“Tuner”, 2025). O diretor canadense Daniel Roher (vencedor do Oscar de Melhor Documentário em Longa-Metragem pelo filme “Navalny” em 2023) nos mostra como funciona uma síncope cinematográfica de suspense criminal e drama íntimo que transforma o som em cinema puro. Distanciando-se drasticamente da fundação clássica e imperialista do livro “O Afinador de Pianos”, de Daniel Mason (livremente associado a obra), lançado em 2002, como também a ópera homônima subsequente, o longa-metragem prefere improvisar uma melodia urbana contemporânea, trocando as florestas tropicais do século XIX por uma Nova York vibrante e perigosa.
Já no filme de Roher a linguagem adotada é a utilização do talento musical do protagonista não como uma busca diplomática pelo belo, mas como uma engrenagem prática para o crime.
O resultado é uma obra rítmica e sensorial, embora seu desfecho sofra com algumas notas desafinadas.
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Da partitura clássica ao improviso do jazz

O roteiro também é assinado por Daniel em parceria com Robert Ramsey operando uma transposição radical, funciona como uma jam session de jazz, há improvisos brilhantes, mas o ritmo por vezes oscila na construção dos assaltos, contudo, a preferência é a urgência de um bebop, trás um dinamismo e ao mesmo tempo oferece a escassez de junções entre atos, falta um pequeno elo entre “as partituras”, quase como se a Aria principal não tivesse o devido destaque. O longa acaba divertindo ao cruzar um drama romântico com um assalto meticuloso, ainda que sofra com a transição entre gêneros.
A reviravolta acontece quando o crime organizado percebe que a mesma audição milimétrica usada para ajustar cordas pode decifrar os cliques mecânicos de cofres analógicos. É uma excelente modulação de gênero, transformando um drama de isolamento em um heist movie (filme de assalto) pulsante.
Elenco e atuações: um dueto de gerações

Nós acompanharemos Niki White (Leo Woodall), um ex-prodígio do piano e afinador que sofre de hiperacusia (é uma condição auditiva caracterizada pela hipersensibilidade a sons normais do cotidiano). Ele exerce seu trabalho magistralmente com a ajuda do seu mentor Harry Horowitz (Dustin Hoffman), um conceituado profissional já em processo de passar o bastão ao seu discípulo e que, devido a sua condição de saúde, acaba acumulando dívidas médicas, onde Niki se vê na obrigação de usar sua audição excepcional para outros fins. Woodall entrega uma performance contida, que equilibra a arrogância juvenil com uma vulnerabilidade tocante. A dinâmica de mestre e aprendiz é o coração emocional do filme, trazendo um peso clássico à tela que ancora a narrativa.
O elenco de apoio, que inclui Havana Rose Liu como Ruthie e o veterano Jean Reno, injeta carisma e tensão magnética. Liu brilha como a estudante de composição que traz leveza romântica à vida de Niki. Enquanto isso, Jean Reno surge como uma figura imponente do mundo musical, embora seu arco dramático sofra com um peso excessivo no trecho final.
Locações e trilha sonora: a acústica da cidade

As locações em Nova York abandonam os cartões-postais óbvios visualmente, a produção opta por locações frias e industriais.
A cinematografia de Lowell A. Meyer filma oficinas de piano empoeiradas, subsolos claustrofóbicos e vielas escuras, tratando a metrópole como uma imensa caixa de ressonância. Os ambientes parecem amplificar o sofrimento e o talento do protagonista.
O design de som e a mixagem ficaram sob a responsabilidade de Johnnie Burm, ele brinca com o contraste de dinâmicas, há momentos de silêncio absoluto que emulam a perspectiva abafada de Niki usando protetores auriculares, seguidos por explosões sonoras e linhas de contrabaixo de jazz que ditam o ritmo frenético dos assaltos.
O design de som isola os cliques das travas dos cofres como se fossem notas isoladas de um concerto de suspense.
Já a parte instrumental é assinada pelos compositores Will Bates e Marius de Vries, podemos ouvir clássicos das duas vertentes, a mistura de composições de piano com uma forte seleção de jazz e participações especiais.
O filme conta com a presença do lendário pianista Herbie Hancock, apresentando faixas icônicas como “Watermelon Man” e “Cantaloupe Island”. E ainda: The Dave Brubeck Quartet – “Unsquare Dance”, e Oscar Peterson – “Jumping at the Woodside”.
Também ouvimos obras de compositores consagrados, como “Consolations, S. 172: No. 3 in D-Flat Major” de Franz Liszt, “12 Etudes, Op. 10: No. 6 in E-Flat Minor ‘Lament'” — Frédéric Chopin (interpretada por Yunchan Lim). Dustin Hoffman em um toque especial tem uma participação musical na faixa “Tenderly”.
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Considerações finais
“O Afinador” não tenta reproduzir a sinfonia melancólica já retratada em livro e ópera, mas sim cria seu próprio arranjo urbano. Embora tropeça no compasso final devido a uma necessidade quase comercial de acelerar o ritmo e abraçar clichês de ação, a estreia ficcional de Daniel Roher é uma belíssima Jam Session audiovisual. É um filme que, acima de tudo, entende que o silêncio e o ruído são forças igualmente dramáticas.
Imagem Destacada: Divulgação/Paris Filmes



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