De trilha sonora de faroeste a hino de estádio, “The Ecstasy of Gold” se tornou o ritual definitivo que prepara o Metallica e milhões de fãs para o caos há mais de quatro décadas
Quem é fã de Metallica, ou já assistiu a alguns shows da banda, já é bastante familiarizado com a trilha sinfônica de tom épico que abre as apresentações. É “The Ecstasy of Gold”, da trilha sonora do clássico “Três Homens em Conflito” (“The Good, the Bad and the Ugly”), de 1966. Quando o lendário compositor italiano Ennio Morricone, autor do tema, faleceu em julho de 2020, aos 91 anos, o mundo da música clássica e do cinema perdeu um de seus maiores gigantes.
Conhecido pelos íntimos como “Maestro”, ele moldou a identidade dos faroestes de Sergio Leone nos anos 60, incluindo a icônica Trilogia dos Dólares, que se conclui com “Três Homens”. O que Morricone talvez não imaginasse, no entanto, é que ele escreveria, inadvertidamente, a maior música de introdução da história do heavy metal. A faixa que abre praticamente todos os shows do Metallica desde 1983.
Embora outras bandas tenham suas introduções clássicas — como o Iron Maiden com “Doctor Doctor” (do UFO) e Ozzy Osbourne com a dramática “Carmina Burana” —, nenhuma música se fundiu tanto à mitologia de um grupo quanto a criação de Morricone se fundiu ao Metallica. Ela deixou de ser apenas uma fita de abertura para se transformar em um gatilho psicológico de catarse coletiva.
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O cemitério de tuco e a voz de Edda Dell’Orso
Quando a música entra em cena, o icônico personagem de Eli Wallach (Tuco) corre freneticamente por um cemitério gigantesco em busca de um tesouro enterrado.
A composição capta essa urgência magistralmente. Conforme a tensão visual aumenta, a composição cresce com metais dramáticos e os vocais assustadoramente belos e sem palavras da cantora italiana Edda Dell’Orso. É essa mesma cena do filme que, ainda hoje, é exibida nos telões dos estádios mundo afora momentos antes do Metallica invadir o palco.
Da fita “lixo” ao ritual de 1983
A história dessa união improvável começou 17 anos após o lançamento do filme, durante a turnê do álbum de estreia da banda, “Kill ’Em All”, em 1983. O frontman James Hetfield lembra que a primeira tentativa de introdução do grupo era um desastre: “Originalmente, tínhamos uma fita horrível. Era apenas o som de um coração batendo cada vez mais rápido. Um lixo. Foi aí que nosso empresário na época deu a ideia de substituí-la por ‘The Ecstasy of Gold'”.
O empresário era Jon Zazula (o lendário Jonny Z), fundador da Megaforce Records. Fã confesso de Morricone, Zazula chegou a cogitar a faixa “The Trio” (também do filme), mas a grandiosidade de “Ecstasy” falou mais alto. Os registros apontam que a estreia oficial da música em um show do Metallica aconteceu no dia 29 de julho de 1983, no clube The Rising Sun, em Yonkers, Nova York. O impacto foi imediato. O público mudou de postura, os músicos sentiram a eletricidade no ar e a tradição nasceu ali.
O ritual de sangue e suor de James Hetfield

Para os integrantes do Metallica, “The Ecstasy of Gold” virou uma parte vital de sua preparação física e mental. James Hetfield descreveu o momento pré-show com detalhes arrepiantes em 2011:
“É de dar um nó na garganta. Nós fazemos nossa rodinha, conversamos rapidamente, mas assim que a primeira nota começa… o show começou. Todos os meus sentidos ficam aguçados. O coração dispara. Meu corpo sabe exatamente o que está vindo. Ouvir a multidão cantando junto com a fita de introdução faz todo o nervosismo desaparecer. Sei que vai ser uma grande noite.”
A conexão é tão profunda que Hetfield revelou usar a melodia de Morricone há décadas como seu aquecimento vocal definitivo no camarim antes de subir ao palco.
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A bênção do maestro e o legado no som da banda
A influência de Morricone não ficou restrita à abertura dos shows. O DNA do faroeste italiano moldou composições autorais do Metallica, sendo a mais óbvia delas a clássica “The Unforgiven” (do “Black Album” de 1991) e suas sequências. A banda prestou homenagens diretas ao Maestro ao gravar uma versão pesada e guitarreada de “Ecstasy” para um álbum de tributo em 2007, além de executarem a peça ao vivo ao lado da Orquestra Sinfônica de San Francisco nos históricos projetos “S&M” (1999) e “S&M2” (2019).
E o que o próprio Ennio Morricone achava de ver uma das maiores bandas de metal do planeta usando sua obra? Em 2010, o compositor se mostrou lisonjeado: “Estou muito feliz com isso, na verdade. Significa que a minha música é simples e preciosa ao mesmo tempo”. O impacto era real: em 2018, quando o Maestro regeu essa música na O2 Arena em Londres, o público da música clássica respondeu batendo cabeça como se estivesse em um show de rock.
Quando Morricone partiu em 2020, Hetfield escreveu uma carta pública emocionante, agradecendo ao Maestro por fazer parte das orações, do sangue e da família Metallica. Mais de 40 anos depois daquela primeira noite em Yonkers, o tema grandioso continua sendo o prenúncio de que o maior espetáculo do metal na Terra está prestes a começar.
Imagem Destacada: Divulgação/Prime Video


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