Dirigido por Juan Pablo Sallato, drama histórico aposta em fotografia preto e branco, atuações contidas e tensão crescente para retratar a violência da ditadura chilena
Exibido no Festival do Rio 2026, “O Hangar Vermelho” (Hangar Rojo) revisita um dos períodos mais violentos da história do Chile. Dirigido por Juan Pablo Sallato, o filme se passa em Santiago, no dia 11 de setembro de 1973, quando o golpe militar derrubou o governo de Salvador Allende e abriu caminho para a ditadura de Augusto Pinochet.
Inspirado em acontecimentos reais, o longa tem aproximadamente 82 minutos e foi filmado inteiramente em preto e branco. A escolha visual chama atenção logo de início e combina muito bem com o ambiente militar apresentado. A história acompanha um capitão que vê o local onde trabalha ser transformado em um centro de detenção, enquanto percebe que as ordens recebidas estão levando a situações cada vez mais violentas.
O filme não demora para apresentar esse conflito. A tensão cresce conforme os militares assumem o controle das instalações e o protagonista começa a perceber o que realmente está acontecendo ao seu redor.

LEIA MAIS
“O Degelo” Faz dos Segredos de Um Hotel nos Andes Um Suspense Bonito e Inquietante
O Outro Lado das Redes | Sorkin Volta às Redes, mas Dessa Vez Esquece de Fazer Barulho
Rosebush Pruning Olha Para Uma Família em Decomposição e Se Diverte Com o Desastre
Um capitão diante da violência dos próprios militares
Jorge Silva, interpretado por Nicolás Zárate, é um capitão da Força Aérea que já ocupou o cargo de chefe da Inteligência militar e agora trabalha no treinamento de jovens cadetes. Com o início do golpe, ele recebe a ordem de transformar a Academia da Força Aérea em um espaço destinado à detenção e ao interrogatório de prisioneiros.
Inicialmente, Silva acredita que aquela situação será passageira. Porém, a chegada do coronel Jahn, interpretado por Marcial Tagle, muda completamente a rotina do local. Caminhões começam a trazer prisioneiros, os interrogatórios se tornam cada vez mais violentos e o capitão passa a enfrentar um conflito com aquilo que está presenciando.
O interessante é acompanhar essa mudança de comportamento. Silva faz parte da estrutura militar, conhece suas regras e entende o peso da hierarquia. Mesmo assim, chega um momento em que cumprir uma ordem significa aceitar práticas que entram em conflito com seus princípios.
O roteiro de Luis Emilio Guzmán trabalha bem essa situação, principalmente porque o personagem não pode simplesmente abandonar suas responsabilidades sem enfrentar consequências. Ele precisa continuar convivendo com os superiores enquanto tenta descobrir até onde pode questionar o que está acontecendo.
Nicolás Zárate transmite muito sem precisar falar tanto
Nicolás Zárate é um dos grandes destaques de “O Hangar Vermelho”. Sua interpretação é bastante contida, o que combina com a personalidade e a posição militar de Jorge Silva. O personagem não demonstra abertamente tudo o que sente, mas seus olhares e pequenas reações deixam claro o desconforto diante da violência.
Essa escolha funciona principalmente nas cenas em que Silva precisa ouvir ordens ou acompanhar situações com as quais não concorda. Ele tenta manter a postura de capitão, mesmo quando fica evidente que está cada vez mais incomodado.
Marcial Tagle também entrega uma boa atuação como o coronel Jahn. Sua chegada muda o comportamento das pessoas dentro da Academia e aumenta a sensação de perigo. É um personagem que utiliza a autoridade para impor suas decisões e não demonstra a mesma preocupação de Silva com o tratamento dado aos prisioneiros.
A relação entre os dois sustenta boa parte do filme. Enquanto um começa a questionar os limites da obediência, o outro representa a violência praticada por quem acredita ter poder para fazer o que quiser.

O preto e branco é um dos maiores acertos
A fotografia de Diego Pequeño está entre os pontos mais fortes da produção. O preto e branco combina muito bem com o período histórico e deixa os ambientes militares ainda mais frios. A iluminação, as sombras e os contrastes ajudam a criar imagens bonitas, mesmo quando aquilo que está sendo mostrado é extremamente desconfortável.
Os corredores, as salas e o próprio hangar ganham uma aparência ameaçadora conforme a situação piora. Como boa parte da história acontece dentro dessas instalações, a fotografia ajuda a evitar que os espaços pareçam repetitivos. A maneira como a câmera utiliza os ambientes reforça a sensação de que os personagens estão presos àquela realidade.
Outro aspecto que merece destaque é o som. O trabalho de Javier Ruiz e Stefano Polidoro utiliza passos, tiros, movimentações militares e ruídos vindos de outros ambientes para aumentar a tensão. Existem momentos em que ouvir o que está acontecendo fora do enquadramento já é suficiente para deixar a cena desconfortável.
A música de Alberto Michelli e Matteo Marrella acompanha bem essa atmosfera. A trilha aparece sem exagerar e permite que os próprios sons das instalações militares tenham importância.
A direção de Juan Pablo Sallato também merece elogios. Mesmo sendo seu primeiro longa de ficção, ele conduz a história com segurança e aproveita bem o tempo disponível. Os 82 minutos passam sem que a narrativa fique arrastada, e a violência vai ganhando espaço conforme Silva percebe a gravidade das ordens que precisa cumprir.
COMPRE AQUI
Amazon Echo Show 8 (Geração mais recente) – Com novo design, tela vibrante HD de 8,7
Hollyland Lark M2 Microfone de Lapela sem Fio(2TX+3RX), Transmissão Sem Fio de 1000ft
Soundbar TCL com Subwoofer sem fio Bluetooth 2.1 Canais HDMI ARC S55H
Um drama histórico que mantém a tensão até o final
“O Hangar Vermelho” é um filme que funciona muito bem pela maneira como reúne um episódio histórico, um conflito pessoal e uma construção visual bastante cuidadosa. A história não precisa mostrar todos os acontecimentos do golpe militar para transmitir o clima de medo e violência daquele período. A transformação da Academia em um centro de detenção já permite compreender a gravidade da situação.
Nicolás Zárate sustenta muito bem o protagonista, enquanto Marcial Tagle ajuda a tornar o ambiente cada vez mais ameaçador. A fotografia em preto e branco é excelente e o trabalho sonoro contribui bastante para as cenas mais tensas.
O que mais chama atenção é acompanhar Jorge Silva percebendo que continuar obedecendo pode significar participar de algo que considera errado. Ele pertence àquela instituição, mas começa a enxergar a violência que está sendo praticada em nome dela.
Com boas atuações, fotografia marcante e uma duração que favorece o ritmo, “O Hangar Vermelho” apresenta um retrato duro do golpe chileno. É um filme que incomoda pelo que mostra e também pelo que deixa acontecer fora da câmera, especialmente quando o silêncio e a obediência dos militares passam a ter consequências tão graves quanto as ordens recebidas.
Imagem Destacada: Divulgação/Villano (Chile)



Sem comentários! Seja o primeiro.