Filme de Manuela Martelli acompanha uma menina de nove anos após o desaparecimento de uma amiga e usa neve, silêncio e isolamento para construir seu mistério
Exibido na Première Latina do Festival do Rio 2026, “O Degelo” é um suspense que prefere criar dúvidas em vez de entregar respostas rapidamente. Escrito e dirigido por Manuela Martelli, o longa se passa no Chile de 1992, poucos anos depois do fim da ditadura de Augusto Pinochet, e acompanha uma menina de nove anos durante uma temporada no hotel dos avós, próximo a uma estação de esqui nos Andes.
São 108 minutos de uma história conduzida com bastante calma. O filme utiliza espanhol, inglês e alemão, algo que surge naturalmente por causa dos turistas e das diferentes nacionalidades que se encontram naquele hotel. Desde a chegada, existe uma sensação estranha no lugar. Nada parece necessariamente perigoso, mas os silêncios, as conversas dos adultos e a maneira como algumas pessoas se comportam deixam a impressão de que há coisas acontecendo longe dos olhos da protagonista.
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Uma amizade muda completamente a temporada de Inés
Inés, interpretada por Maya O’Rourke, tem nove anos e passa alguns dias no hotel administrado pelos avós. É nesse período que conhece Hanna, vivida por Maia Rae Domagala, uma esquiadora alemã de 15 anos que está na região para treinar.
Mesmo com a diferença de idade e o idioma, as duas rapidamente se aproximam. A amizade funciona muito bem porque tem aquela curiosidade típica de uma criança mais nova por alguém mais velho. Inés observa Hanna, acompanha sua rotina e encontra naquela adolescente uma companhia em um ambiente dominado por adultos.
Tudo muda quando Hanna desaparece. A partir daí, o hotel ganha outra atmosfera e o comportamento das pessoas ao redor começa a levantar dúvidas. A busca pela adolescente coloca Inés no meio de situações que ela consegue observar, mas nem sempre tem idade suficiente para entender completamente.
Essa perspectiva infantil deixa o mistério ainda mais interessante. O público recebe muitas informações da mesma maneira que Inés: ouvindo pedaços de conversas, percebendo mudanças de comportamento e tentando juntar aquilo que aparece diante dela.
Maya O’Rourke chama atenção pela naturalidade
Maya O’Rourke conduz boa parte do filme com uma atuação bastante natural. Inés é uma personagem observadora, e muitos dos seus melhores momentos acontecem sem grandes diálogos. Um olhar ou uma reação já mostram que ela percebeu algo, mesmo quando ainda não sabe exatamente o que aquilo significa.
Maia Rae Domagala também funciona bem como Hanna. Apesar de a personagem desaparecer e movimentar boa parte do mistério, o pouco tempo necessário para estabelecer a amizade entre as duas é suficiente para que sua ausência tenha peso na história.
Saskia Rosendahl, Jakub Gierszał, Paulina Urrutia e Mauricio Pešutić completam o núcleo de adultos e ajudam a alimentar a desconfiança. Conforme Inés observa essas pessoas, fica cada vez mais difícil saber quem está dizendo tudo o que sabe e quem prefere esconder alguma coisa.
O roteiro de Manuela Martelli não tenta responder imediatamente a cada dúvida criada. Algumas informações aparecem de maneira bem discreta e outras dependem da interpretação de quem está assistindo. O final segue esse caminho e pode provocar questionamentos, principalmente porque nem tudo recebe uma explicação fechada. Dentro de uma história tão interessada no silêncio e nos segredos, essa escolha faz sentido.

A neve deixa tudo bonito e ao mesmo tempo ameaçador
A fotografia de Benjamín Echazarreta é um dos maiores destaques de “O Degelo”. As montanhas cobertas de neve rendem imagens muito bonitas, mas o filme consegue transformar essa mesma paisagem em algo desconfortável. A distância entre os lugares, o frio e a imensidão dos espaços deixam claro o quanto aqueles personagens estão isolados.
Os corredores e quartos do hotel trabalham outra sensação. São espaços menores e aparentemente seguros, mas onde Inés está constantemente cercada por conversas e atitudes que não entende por completo. Essa diferença entre a imensidão das montanhas e os ambientes fechados do hotel ajuda bastante na construção visual.
A direção de arte de Nohemí González acompanha bem essa proposta. Os ambientes possuem uma aparência simples e combinam com o período em que a história acontece, sem elementos que pareçam colocados apenas para chamar atenção.
O som de Javier Umpierrez ganha importância principalmente porque “O Degelo” sabe utilizar o silêncio. Barulhos vindos dos ambientes, movimentos na neve e ruídos distantes são suficientes para criar desconforto em várias cenas. A trilha de Mariá Portugal aparece de maneira mais pontual e não tenta avisar o tempo inteiro quando o público deve sentir tensão.
A montagem de Yibrán Asuad mantém esse ritmo mais controlado durante os 108 minutos. É um suspense paciente, mas a curiosidade em torno do desaparecimento e do comportamento dos adultos ajuda a sustentar a história sem deixá-la cansativa.
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Um mistério visto por quem ainda não entende o mundo dos adultos
“O Degelo” encontra suas melhores cenas quando coloca Inés diante de situações que parecem claras para os adultos, mas ainda são difíceis de interpretar para uma criança. Ela percebe olhares, escuta conversas e entende que alguma coisa está errada, mesmo sem possuir todas as informações necessárias para descobrir o que realmente acontece naquele hotel.
O desaparecimento de Hanna movimenta a história, mas o filme se interessa bastante pelo que começa a surgir ao redor desse mistério. Segredos, comportamentos estranhos e assuntos que os adultos evitam discutir vão mudando a forma como Inés observa aquele lugar.
A atuação de Maya O’Rourke, a fotografia de Benjamín Echazarreta e o trabalho com o som ajudam muito a manter essa sensação de desconforto. As paisagens dos Andes são lindas, mas carregam um isolamento que combina perfeitamente com a história.
“O Degelo” é um suspense tranquilo no ritmo, inquietante na atmosfera e que não sente necessidade de explicar cada detalhe antes dos créditos. Algumas respostas ficam abertas, mas o mistério se sustenta bem até o final. Manuela Martelli encontra no olhar de uma menina, em um hotel cercado por neve e nos segredos dos adultos material suficiente para construir uma história simples, bonita e desconfortável.
Imagem Destacada: Divulgação/Ronda Cine



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