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Literatura

O Lento Sussurrar das Árvores

Parte 4

“Okay, decidi por vez que contarei um dos mais belos mitos que conheço e, vocês, talvez possam vagamente se lembrar de uma história parecida.

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“É o caso de Píramo e Tisbe, da Babilônia de milhares de anos atrás. Eles eram as criaturas mais belas em todo o reino de Semíramis, que só não lhes cortara a cabeça por inveja de tal beleza por conta de afazeres reais mais importantes. O que nos importa é que ambos os jovens eram dotados de magnífica beleza e graça.

“Píramo era um rapaz vigoroso de pele cor de canela com cabelos castanhos reluzentes de tão belos, com cachos a lhe emoldurar a face angelical. Tisbe, em contrapartida, era delicada como uma flor que não resiste ao inverno e congela-se deixando um espectro em gelo daquilo que antes foi vida, era pálida, de longos cabelos amarrados em trança que ela adornava com dezenas de flores a soltar aromas sobre ela.

“Por coincidência do destino ou obra dos deuses suas moradas eram próximas, tão próximas, na verdade, que dividiam um muro. Do lado de Píramo o muro cercava o gramado onde o jovem se exercitava, do lado de Tisbe ficava o jardim onde a menina se sentava para ler e contemplar a natureza, além de separar belas flores para pôr no cabelo.

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“Um dia, o jovem Píramo se exercitava em seu quintal com alguns discos que lançava para se aquecer, quando por desventura, distração ou puro acaso mesmo, o disco foi lançado em direção ao quintal de Tisbe, que viu o objeto voar e cair sobre suas flores. A menina ficou furiosa, pegou o disco e o partiu em dois, lançando os restos por cima do muro, de volta para seu dono ‘E que não cometa o mesmo erro da próxima vez!’, ela gritou furiosa por ver as flores mortas e esmagadas onde caiu o disco. Píramo recebeu o disco e o desafio com raiva, por trás do muro ele não ouviu bem a voz de quem falava, e tomou desgosto pela casa ao lado. O rapaz decidiu levar a ofensa adiante, lançando discos mais pesados e difíceis de quebrar por cima do muro, discos que Tisbe não conseguia quebrar com as mãos delicadas que tinha. A menina enfureceu-se, não devolvia os discos e via as plantas morrerem uma a uma sendo acertadas quase diariamente pelo rapaz, determinado a levar aquilo adiante. Eles não se conheciam e se odiavam, como jovens com os sentimentos à flor da pele que eram.

“Um dia, Píramo ficou sem discos, e decidiu fazer com que seus pais tomassem partido em sua causa, convocando os vizinhos para uma reunião e exigindo que os malfeitores se retratassem. Por ocasião, foi também ao ver cair o último disco que Tisbe ficou sem flores, e a menina pediu aos pais que esses a defendessem e defendessem o jardim dos vizinhos cruéis e atormentadores. Os progenitores de ambos os lados tomaram partido dos filhos e decidiram que fariam com que aquela situação tivesse um fim, criaram ódio pelo lado oposto no muro e convocaram uma reunião no mesmo dia. Encontrar-se-iam em um bosque no fundo de ambos os quintais, um bosque que dava para montanhas, um bosque e um lago ali perto. Foram todos os seis, a criadagem ficou por perto, para auxiliarem seus senhores. Os moradores da região viam das janelas de suas casas o encontro ocorrer.

“Primeiro chegaram os pais de Píramo, com o rapaz, e eles esperaram. Depois veio Tisbe com os pais, a menina vestida de branco como a donzela que era. Eles não se conheciam, tampouco sabiam que ambos eram responsáveis pelos infortúnios um do outro, mas logo que se viram, Píramo e Tisbe se apaixonaram. A situação, contudo, já estava preparada, e os pais de ambos os jovens brigaram e discutiram. Eles, enamorados, mal ouviam as palavras ditas, ameaças trocadas e não viam os dedos apontados. Encaravam-se perdidos nos olhares um do outro, fantasiando um momento de união.

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“Decretou-se, porém, por ambos os progenitores, que o muro seria aumentado e que eles não voltariam a se falar ou se ver. Os jovens sentiram a cisão e ali mesmo quase choraram, depois, vieram a compreender que o incidente devia a eles exclusivamente a culpa. Não se arrependeram de tudo, porém, porque só ali se conheceram. Foram para as casas, a criadagem os acompanhou, os vizinhos fecharam as janelas e fingiram que nada viram. Os jovens imploraram que os pais mudassem de ideia, esses, sem entender o porquê e já comprando a briga por ego, não ouviram as lamúrias de amor por baixo das palavras.

“A criadagem de ambos os lados trabalhou para aumentar o muro, da mesma maneira como aumentou a competição de ambos os lados. Reformaram as casas e vestiam-se sempre com graça. Píramo, tendo uma ideia, pediu que um dos criados de sua casa deixasse um tijolo solto no muro para falar com Tisbe. A menina, tendo conhecimento da ideia do amado, por conta de uma de suas amas que estava de caso com um dos pedreiros do outro lado, fez o mesmo pedido para um de seus criados. Assim, mesmo que muro aumentasse e os dois jovens não pudessem se falar, eles ainda tinham um buraco por onde poderiam trocar mensagens à pouca luz da noite.

“Os dias cresceram em semanas, as semanas juntaram-se em meses e os meses acumularam dois anos. Píramo e Tisbe seguiam apaixonados e separados, conversando pelo buraco no muro…”

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Uma pausa aqui, pois, de acordo com meu tio, as seguintes palavras de Guapuruvu foram “E o que mais eles puderam fazer por aquele buraco, eu apenas imagino…”

Tio Joaquim riu à maneira dele ao me contar aquilo, mas, como criança, eu não pude conceber sobre o que ele falava. Ao me lembrar da história, na campina, eu ri sozinho por entender, finalmente aquela parte. Me parece, hoje, depois de anos, que foi uma piada de extremo mau gosto, apenas para que tio Joaquim tivesse um pouco de diversão por conta própria ao contar a história (e pudesse assustar Madalena caso ela ouvisse da cozinha).

Dadas as relações no período Babilônico onde o mito se enquadra, hoje eu também me pergunto o que mais Píramo e Tisbe fizeram por aquele buraco. Há, além disso, todo um universo de vídeos com a mesma temática, que aqui eu não deveria citar, mas me recordo.

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Enfim…

“O amor dos dois crescia, mas a rixa entre as famílias piorava. Agora, eles se odiavam verdadeiramente. Por isso, o encontro do casal passava a ser cada vez mais tarde e mais secreto. Enviavam mensagens por servos, inicialmente, mas temendo serem traídos, trocaram para animais. Imagino que eu, hoje, teria mandando matar os pobres coitados” disse Guapuruvu, contou-me meu tio, com uma risada baixa. “Minimizar danos, Joaquim, minimizar danos. Mas vivemos em uma era civilizada, por isso essas coisas não ocorrem mais, não é verdade?

“O casal, em dado momento, decidiu que se casaria. Para fazer o pedido, Píramo pegou um de seus lenços e deu-o a Tisbe, pedindo que a garota o usasse por três dias caso aceitasse o pedido. Ela usou, e todas as mulheres, dali em diante, passaram a usar também o lenço, para imitar aquela que era a mais bela no reinado de Semíramis. As flores foram deixadas de lado e passaram a crescer ainda mais no jardim, afinal, não eram mais arrancadas da terra. O aroma florido preenchia vizinhança, e os pais de Píramo ficaram furiosos. Em contrapartida, decidiram organizar um torneio em casa, de lançamento de discos. Convidaram inúmeras personalidades da época, o rei chegou a inclusive enviar um de seus correspondentes, acompanhado de um campeão, para participar. Aquilo fomentou a disputa. As coisas foram ficando quentes.

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“Semanas depois do torneio… ora essa, Girassol, não importa muito quem ganhou o torneio, ele é apenas um detalhe na história… não, eu não sei quem ganhou, mas só não sei porque isso de fato é irrelevante… irrelevante para quem? Ora essa, para todos, quem se importa com um campeão de discos em uma história qualquer?… você? Mas você é um ponto fora da curva e… deixe-me continuar a história, sim?

“Semanas depois do torneio finalmente Píramo e Tisbe haviam decidido fugir para se casar. Eles decidiram que iriam pelos fundos dos terrenos de ambas as casas, naquela parte fronteiriça à mata, o lago e a montanha. A primeira a ir seria Tisbe, sob a desculpa de que procuraria mais flores belas para colocar no jardim. Ela deveria esperar próximo do lago, perto de uma grande árvore que marcava a região. Tisbe foi sozinha, conseguiu se desvencilhar da criadagem, e esperou sob a árvore pelo amante.

“É aqui que nossa história fica trágica e passa a nos lembrar de uma outra, mas nisso eu chegarei logo. Tisbe esperava próxima do lago, quando viu descer das montanhas uma leoa que tinha a boa cheia de sangue, provavelmente de uma presa que acabara de matar. A mulher, pois agora já era uma mulher, temeu e tremeu e ficou indecisa quanto ao que fazer. Por um lado, era mais seguro correr e se esconder pois o animal poderia ir atrás dela mesmo que já tivesse se alimentado, por outro, caso corresse, Píramo poderia chegar e não a ver, ficar desiludido e voltar para casa. A mulher ficou indecisa, mas conforme o animal se aproximava, mais ela temia, por isso saiu correndo desesperada, para se esconder em algum lugar perto dali. Na correria, seu lenço caiu.

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“Píramo, enquanto isso, ficava em casa jogando os discos, sob a justificativa de que se exercitava para algum torneio. Ele não podia ver o lago dali, pois uma colina interrompia a visão do rapaz. Ele, logo mais, deveria lançar um disco o mais longe possível, e sairia sozinho para procurá-lo. Obviamente, não encontraria o disco, mas sim Tisbe, com quem fugiria depois. O rapaz esperou e quando deu a hora, lançou longe o disco, disse que iria buscar e ninguém deveria se preocupar, e saiu andando. Feliz e ansioso.

“Ora essa, a leoa que bebia água no lago sentiu o cheiro de flores e carne humana que emanava do lenço, aproximou-se e cutucou-o com o focinho ainda sujo de sangue. Depois mordeu o lenço e estava pronta para sair farejando pela próxima presa quando o disco de Píramo caiu perto dali. O animal se assustou e largou o lenço, correndo de volta para as montanhas. Píramo chegou no local e ainda foi capaz de ver a leoa subindo a encosta. Aproximou-se da árvore e viu o lenço de Tisbe, marcado por sangue.

“Que tristeza! Píramo ficou louco. Louco de amor e pesar e desespero! Pobre rapaz, não é mesmo?  Perdeu sua paixão de dois anos para a selvageria de um animal. Ele não poderia viver sozinho naquele mundo, poderia? Não sem Tisbe e sua beleza sem igual, não sem o aroma de flores dela e o que mais fizessem pelo buraco do muro… Ah, Tisbe, Tisbe, Tisbe… Que faria Píramo sem ela? Nada… Nada. Nada! Nada? Ele faria algo sim. Arrancou a espada do cinto e armou-se com ela. Respirou fundo e dedicou seus últimos suspiros à falecida amada. Trespassou no próprio estômago a lâmina, sangrou e morreu chorando a perda da mulher.

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“Longe dali, contudo, Tisbe esperava respirando em golfadas de ar pelo amado. Ela se escondeu em uma caverna e, quando viu, de onde estava, a leoa subindo a encosta correndo, logo encheu-se de alegria ao pensar que fora a bravura de Píramo que fizera aquilo. Ela estava parcialmente certa, não estava? Correu de volta para a lagoa e a árvore, correu e seus cabelos longos se soltaram revelando o aroma de flores há muito presas neles. Correu e seu vestido agarrou-se nos galhos, rasgando-se em tiras. Hm, eu penso em Tisbe chegando à lagoa, suada, de cabelos soltos, seminua, procurando por Píramo, que certamente iria ao delírio com aquela imagem… Hm. Sim, onde estávamos? Ah, claro, Tisbe chega e vê o pobre Píramo morto com a espada atravessada em si.

“É a mulher quem surta nesse momento, arranca os cabelos e o belo rosto forma uma linda máscara de horror. Tisbe, ainda donzela, sangra por dentro ao perder quem amava. Uma tristeza, uma perda horrível, o mundo desfez-se sob ela deixando-a perdida no caos que fica sob Gaia, a terra. A mulher sofre, chora e grita de desespero. Quem poderia ter feito aquilo? Quem poderia ter matado o amante? Ela não sabe e chora e chora e chora sem parar. Ah, que coisa horrível, que dor no peito, que castigo tremendo! Ela chora e chora e chora sem parar, ela lamenta e lamenta e roga aos deuses alguma clemência. Ninguém responde, o céu permanece azul, o lago permanece calmo, e Tisbe se sente a mais desafortunada mulher do mundo.

“É quando ela vê nas mãos do amante o pano que ele lhe deu, ensanguentado. Perto da mão não há sangue então ela supõe vir de outra fonte. Lembra-se, meio à dor, da leoa, seu cérebro mesmo confuso compõe uma imagem e ela entende ser a responsável pela morte de Píramo. Tisbe chora mais! Tisbe grita de horror ao ter nas mãos, figurativa e verdadeiramente falando, o sangue do amado. Tisbe chora e pede aos deuses por ajuda. Eles não respondem. Ela arranca a espada do corpo de Píramo e, louca, atravessa a espada no próprio tórax, caindo sobre o corpo do amado. Ela sangra até morrer e em seus últimos instantes suspira o nome de Píramo como um lamento.

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“Os gritos dela foram altos e a população da vizinhança vai ver o que ocorreu. Corre a criadagem das duas casas para descobrir que confusão era aquela, são chamados os pais de ambos os jovens. A população lamenta a perda das mais belas pessoas que já viram. É uma pintura trágica e feia, os dois mortos, ela sobre ele, caída, o sangue, a pureza dos dois, a beleza dos dois. Alguém há de proteger ambas as covas, alguém pode querer desenterrá-los. O povo lamenta, o rei em pessoa vai até lá e vê aquela tragédia, secretamente eu imagino-o satisfeito por dois seres tão incríveis não incomodarem mais o reinado dele com tanta beleza. É tanto lamento que os deuses finalmente ouvem e em um relampejo de bondade transformam os amantes em uma fruta qualquer.

“Não, Girassol, não importa que fruta seja essa… a moral da história não é a fruta, mas os dois… olha, se achou ruim pode contar sua própria história, eu fui aqui chamado para contar a minha… eu sei que se parece com Shakespeare, era nesse ponto que eu queria chegar… cale-se, servo tolo, traga-me mais chá, ainda há muito o que falar.”

Por João Scaldini

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