O Morro dos Ventos Uivantes e a dualidade do sublime e do grotesco
Na abertura de “O Morro dos Ventos Uivantes”, já se torna evidente a proposta da cineasta Emerald Fennell (dos notáveis “Saltburn” e “Bela Vingança”) em sua releitura do clássico de Emily Brontë, publicado em 1847. Com a tela mergulhada na escuridão, ouve-se apenas o gemido de um homem e o ranger de algo que remete a uma cama durante o ato sexual de um casal. Contudo, quando a imagem finalmente surge, o que se revela é um condenado ao enforcamento, agonizando nos últimos instantes de sua existência, enquanto a corda que lhe prende o pescoço range ao balançar de um lado para o outro. É nesse cenário de execução pública que a câmera se detém nos olhos azuis e penetrantes da protagonista Cathy, ainda criança, fascinada pela brutalidade que presencia.
Após esse início perturbador e revelador, toda a obra se constrói sobre a tensão entre o sublime e o grotesco, a pureza e a degradação, o afeto e o rancor, a vida e morte. O sexo, insinuado nos primeiros instantes, torna-se o fio condutor da história, permeando cada acontecimento do casal protagonista, interpretado com ardor por Margot Robbie e Jacob Elordi. As cenas entre os dois, por mais que nenhuma nudez seja mostrada (afinal de contas, ela é proibida em Hollywood) são tão intensas que faz com que os boatos do relacionamento entre os dois atores na vida real seja vista com possível e não apenas uma jogada de marketing da Warner para vender seu filme. Todavia, apesar da paixão visceral, barreiras sociais e econômicas insistem em separar os amantes.

Cathy é filha de um homem abastado, enquanto Heathcliff é um órfão relegado às ruas. O encontro entre eles ocorre quando o pai da jovem decide acolher o rapaz. O que começa como uma amizade pueril e inocente transforma-se em uma ligação avassaladora e destrutiva na vida adulta. O espectador é conduzido por esse jogo de sedução, mas os mais atentos percebem desde cedo que a tragédia é inevitável. Fennell semeia indícios de um desfecho trágico: o enforcado da abertura, um porco abatido que suja a saia de Cathy com sangue, a evocação de Romeu e Julieta, além da cor vermelha — tão intensa quanto o sangue derramado — que recobre a personagem em cenas nas quais ela veste um capuz ou um vestido escarlate, remetendo a uma Chapeuzinho Vermelho perseguida pelo lobo. Há ainda o piso reluzente de uma mansão que, apesar de sua beleza, sugere uma imensa poça de sangue refletindo as imagens dos personagens.
LEIA MAIS:
Ataque Brutal | Um Desastre Envolvente Que se Perde no Próprio Absurdo
A Conspiração Condor | Até Quando Precisaremos de Filmes Sobre a Ditadura?
Alpha | O Cinema da Carne e do Sangue
O vermelho, evidentemente, não simboliza apenas a morte, mas também a paixão e o desejo, e em “O Morro dos Ventos Uivantes”, ele concentra todos esses significados simultaneamente, tornando impossível distinguir onde termina o amor e onde começa a destruição. A fotografia escolhida por Fennell, com imagens granuladas e por vezes opacas, confere organicidade e vitalidade a cada plano, ao mesmo tempo em que esvazia a energia dos objetos e das figuras em cena, criando uma atmosfera paradoxal.
Portanto, Emerald Fennell demonstra em “O Morro dos Ventos Uivantes” ousadia ao se apropriar de uma obra clássica e venerada, subvertendo-a para refletir sobre o amor e, sobretudo, sobre sua potência devastadora, capaz de arruinar qualquer relação. Muitos críticos a censuram por não se manter fiel ao texto original, o que é compreensível diante de admiradores que talvez não compreendam que o cinema não é literatura e que ele não precisa se submeter às convenções literárias nem reproduzir fielmente o que foi escrito. Se fosse assim, bastaria permanecer com o livro, e o cinema perderia sua razão de existir.
Imagem em destaque: Divulgação/ Warner Bros. Pictures Brasil

Quer estar por dentro do que acontece no mundo do entretenimento? Então, faça parte do nosso CANAL OFICIAL DO WHATSAPP e receba novidades todos os dias.

Sem comentários! Seja o primeiro.