Em 1998 Darren Aronofsky começava sua trajetória no cinema com o cultuado “Pi”. Filmado com poucos recursos e de forma clandestina em Nova York, o filme angariou fãs e ganhou prêmios no Independent Spirit Awards e em Sundance. A partir daí o cineasta não parou mais. Fez o também aclamado “Requiem Para Um Sonho”, o místico “A Fonte da Vida”, o drama “O Lutador”, “Cisne Negro” e “Noé”. Sempre seguindo questões filosóficas e principalmente religiosas, Aronofsky se firmou como um autor que consegue transitar entre os estúdios com liberdade e desenvolver suas ideias sem interferências. Após três anos longe das telas, ele ressurge com o suspense com moldes sobrenaturais “Mãe!”.

A Woo! Magazine esteve presente na coletiva de imprensa que o diretor participou em São Paulo para o lançamento do filme. Reproduziremos o que de mais importante foi dito. Com um jeito de falar calmo e se esforçando para entender o contexto das perguntas, o diretor explicou como foi a concepção do roteiro: “quando eu comecei esse projeto, eu realmente queria contar uma história não da minha mãe ou da sua mãe, mas da nossa mãe. A mãe que traz a vida. Tive que descobrir como pegar uma grande ideia como essa e trazê-la para uma casa pequena. É uma história de difícil compreensão em Nova York ou no Canadá. O que eu quis passar é a figura de um visitante que será lembrado por você pelo resto da sua vida porque ele derrubou um cigarro aceso no seu carpete. Eu peguei uma história universal e transformei em uma situação pequena, para a melhor compreensão em um nível humano” e também qual a diferença entre filmar algo pequeno e uma superprodução de estúdio e como manter a visão de autor em uma superprodução? “filmar é filmar, não importa se o filme custa cinquenta mil ou cem milhões. Há de ter equilíbrio, quando não houve em “Noe”, foi muito difícil. Em “mãe!” houve um grande suporte. Acho que o objetivo de todo filme é fazer com que o público goste do trabalho” – disse o diretor.

Na sequência ele falou sobre a escolha de Michelle Pfeiffer para um dos papéis chave do filme: “Eu fiquei sabendo que Michelle estava voltando a atuar, já que ela estava a muito tempo afastada. Ela estava começando a pensar em voltar. Eu fiquei imediatamente interessado. Para mim o personagem de Michelle representa a Eva da bíblia, e quando eu pensava em Eva, eu tentava imaginar a sua personalidade e logo pensei em Michelle como a que transforma a personagem de Lawrence em seu experimento”.

A maioria dos personagens dos filmes de Aronofsky possuem traços de esperança. Eles sempre conseguem a redenção, nem que para isso eles precisem explodir tudo. O cineasta divagou sobre a nossa capacidade de redenção. Será que temos jeito, ou teremos que explodir tudo para recomeçar?

“Eu sou muito otimista e acho que há esperança. Eu acho que ao mostrar a tragédia, você na verdade acaba revelando a vida. Acho que não estamos em nosso capitulo final de nosso relacionamento com a mãe natureza. Acho que há tempo para mudar”.

Para finalizar, o cineasta mostrou seu descontentamento com o atual cenário político nos EUA. Neste ano, “Mãe!” não é o único que mostra a situação de convidados não desejados e invasão domiciliar. Há o novo filme de Sofia Coppola “O Estranho que nós Amamos”, que há um grupo de mulheres recebendo em sua casa um homem muito misterioso, então ele se torna mais uma ameaça do que um convidado. Também temos “Corra!”, de Jordan Peele onde vemos um jovem homem negro indo conhecer a família de sua namorada branca. Neste caso não se trata de uma invasão, mas ele se vê em ameaça, já que ele não é um convidado e sim um alvo, porque é negro. No seu filme nós vemos algo similar, já que há a personagem de Lawrence perturbada por convidados indesejáveis e também uma invasão domiciliar. Você acredita que os cineastas americanos estão tentando comentar algo político por causa das eleições do último ano? “Eu duvido, porque filmar leva um tempo muito grande. Eu filmei “mãe!” em 2016, ainda com o Obama. É coincidência ou uma tragédia que meu filme tenha saído no primeiro ano de Trump. Eu imagino que o filme de Sofia ou o de Jordan foram feitos antes da eleição de Trump. E também porque, como todo mundo no planeta, nós não achávamos que seria possível a sua eleição. Na verdade, ainda não achamos que é possível. O que eu acho importante para mim é a metáfora ou alegoria sobre as pessoas desse planeta, e como elas cuidam dele. Tentei fazer um filme da percepção da Terra, tentando personaliza-la. Acho que se o filme tivesse sido feito após a eleição de Trump, ele seria muito mais raivoso. Mesmo com Obama já era uma bagunça, as coisas começaram a mudar muito devagar. Um lado bom da eleição de Trump é que agora conseguimos ver o câncer, o resto continua a ser uma bagunça”.


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Rodrigo Chinchio

Formou-se como cinéfilo garimpando pérolas nas saudosas videolocadoras. Atualmente, a videolocadora faz parte de seu quarto abarrotado de Blu-rays e Dvds. Talvez, um dia ele consiga ver sua própria cama.

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