Da “pompa” dos anos 70 à urgência do Queens: como 14 músicas e 29 minutos promoveram o reset definitivo na história do rock.
O álbum de estreia dos Ramones está completando 5 décadas. O disco seminal que foi o pontapé inicial do movimento punk é constantemente lembrado por sua urgência e o impacto que reverbera até hoje. O ano era 1975. O cenário do rock nova-iorquino se constituía de uma ebulição de novas linguagens, mas o mainstream começava a se perder em solos intermináveis e uma pomposidade que beirava o absurdo. Danny Fields, o lendário empresário que já havia colocado o selo de aprovação em nomes como The Stooges e MC5, passava seus dias escrevendo uma coluna semanal para o jornal Soho Weekly News, cobrindo a ascensão de artistas como Patti Smith e o Television. Toda semana, após suas publicações, Fields era “importunado” por telefonemas de quatro rapazes de Forest Hills, no Queens, que disparavam sem cerimônia: “Nós somos melhores que eles! Nós somos ótimos!”.
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Para calar aqueles jovens insistentes, Fields finalmente aceitou vê-los no East Village, no emblemático bar CBGB, em novembro daquele ano. O que ele encontrou não foi apenas uma banda, mas uma força da natureza: um som que habitava o corpo do espectador de cima a baixo, executado por músicos que pareciam tão fabulosos quanto alegavam ser. Fields saiu dali não apenas convencido, mas querendo ser o empresário do que ele chamou de “o futuro”.
O ano era 1976. Em janeiro, o quarteto — formado por Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy Ramone — assinou com a gravadora Sire Records e entrou no estúdio Plaza Sound. Se o rock da época era marcado por figurinos teatrais e uma técnica afetada, os Ramones eram o oposto absoluto: um soco seco de 14 canções condensadas em meros 29 minutos de ruído purista e velocidade. Gravado em apenas uma semana, o álbum de estreia foi uma resposta direta à “nonsense afetada” que dominava o rádio. A banda acreditava piamente que venderia cinco milhões de cópias e que todos ficariam ricos; a realidade comercial, contudo, foi impiedosa: o disco vendeu apenas 6.000 cópias em seu primeiro ano e, até hoje, nunca ultrapassou a marca de um milhão nos Estados Unidos.
Mas, se os números nas paradas não impressionaram, o impacto cultural foi sísmico, funcionando como um “reset” necessário para toda uma geração de músicos marginalizados. Para Steve Albini, os Ramones apareceram vestidos como ele e seus amigos, sem máquinas de fumaça, tratando de obsessões como filmes de terror e mau comportamento adolescente. Para Henry Rollins, a capa do disco era um estudo de insolência que falava a língua dos excluídos, dos bailes perdidos e dos encontros ruins. A crueza era tamanha que até figuras como Ian MacKaye celebravam o fato de que, ao contrário de bandas fabricadas para vender milhões, os Ramones obviamente amavam a própria música.
O legado desse vinil atravessou décadas, influenciando desde o punk clássico até a explosão do grunge nos anos 90. Butch Vig, produtor de Nevermind, recorda ter ouvido o disco pela primeira vez em uma casa de festas universitária, ficando atordoado com o som despojado e vital que antecipava a revolução que o Nirvana causaria anos depois. A diferença crucial é que, enquanto o Nirvana vendeu cerca de 25 milhões de discos, os Ramones nunca enriqueceram com seu trabalho seminal. Hoje, ao celebrar 50 anos, a estreia dos Ramones é vista como a obra-prima que resgatou e recarregou o rock n’ roll, provando que o título de uma das maiores bandas de todos os tempos não era mera pretensão.
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