A cada 10 anos o cinema tem uma particularidade na realização de um filme que deixa datado suas produções. A segunda década do século 21, talvez, fique marcada por piadinhas instantâneas para quebrar momentos variados. Os anos 90 ficaram conhecidos por fazer filmes com tiradas rápidas, frases de efeito e também por adaptar clássicos para versões mais contemporâneas.

Tal é o caso de “As Patricinhas de Beverly Hills”. Sim, o “clássico” da Sessão da Tarde é, na verdade, baseado em um livro de Jane Austen, e filme homônimo, “Emma”. No filme, a patricinha-mor Cher usa de todo seu carisma e persuasão para se meter na vida dos outros, dar palpite e ser sempre o centro das atenções, isso tudo enquanto faz compra nos shoppings de sua cultuada e abastada cidade Beverly Hills, aproveita sua vida social de adolescente dos anos 90 e foge das aulas de Educação Física da escola.

Alguns séculos antes, “Emma” (a personagem protagonista é quem da título a obra de Austen) é um tipo de jovem socialite de seu tempo, com uma boa estrutura social, que aproveita de todo seu charme para arranjar casamentos alheios, dar conselhos para suas amigas enquanto tenta mudar o rumo de seus pequenos namoricos, isso tudo indo a bailes sociais, tentando se distanciar do verdadeiro amor e tendo embates construtivos com quem não aceita suas opiniões.

Ainda que ambas as obras se distanciem uma da outra, é possível perceber a similaridade que elas têm. Cher e Emma são duas mulheres muito jovens, um pouco vazias em seus pensamentos, mas que terminam por ter um bom coração e sem ninguém as prendendo ou humilhando. Obviamente, há diferenças perceptíveis, já que “Clueless” (o título original de As Patricinhas) é apenas uma obra livremente baseada em “Emma”.

Outro caso é uma peça de Shakespeare: “A Megera Domada”. Este texto (e filme homônimo com Elizabeth Taylor no papel feminino principal) foi lançado em 1594, conta a história de Petrúquio, um rude fazendeiro que aceita se casar com uma “megera” (no século 15 Catarina era vista como megera porque tinha traços feministas, como pedir por mais liberdade para mulheres para que pudessem escolher se queriam se casar ou não e coisas do tipo) por causa do dote oferecido por seu pai. A doce irmã da megera, Bianca, deseja se contrair matrimônio com o melhor partido da cidade, mas depois acaba se apaixonando por seu delicado professor.

Aqui no Brasil tivemos uma adaptação para TV dessa obra (a novela “O Cravo e a Rosa”) e Hollywood também fez sua própria versão dos anos 90: “10 Coisas Que Eu Odeio Em Você”. Atualizando um pouco os nomes, Patrick é um jovem rebelde de cabelos compridos, que assusta mais da metade da escola, enquanto Kat assusta a outra metade sendo megera e feminista. A irmã dela, Bianca, tem uma queda por um ex namorado de Kat, mas se apaixona mesmo por seu franzino professor de francês, que estuda na mesma escola de ambas.

Sai a sociedade inglesa, entra os adolescentes americanos normais do final do século XX. O filme soube adaptar bem a obra de Shakespeare, porém de uma maneira nada fiel ao livro. Dando uma boa atualizada no contexto, o longa é uma obra apaixonante, com bom ritmo e um roteiro mais charmoso que o livro, em que vemos Catarina, a megera, ser domada por Petrúquio na base do machismo que era presente na época, onde ele, como marido, tem o direito de fazer qualquer coisa, até mesmo prender sua esposa em um quarto e deixá-la passar fome, para transformá-la em uma doce dama.

Uma outra obra que também passa por essa repaginação é “Segundas Intenções”, baseado no livro “Ligações Perigosas”, de Chorderlos de Laclos. Considerado ultrajante na época que foi lançado, em 1796, o livro conta a história dos maliciosos Visconde de Valmont e da Marquesa de Merteuil, dois amantes que visando sempre terem algum tipo de lucro participam de um cruel jogo de interesses, onde manipulam pessoas a seu bel-prazer. No livro, expunha-se a sociedade parisiense de uma maneira cruel e mesquinha, mostrando que poucos tinham tão bom caráter como queriam demonstrar.

O filme “Segundas Intenções” se passa no meio de Nova York dos anos 90 e mostra os irmãos postiços Sebastian e Kathryn e seus jogos nada sutis dentro do Ensino Médio. Extremamente manipuladores os dois vivem de fazer jogos e apostas, onde usam sua posição social e natureza sexual para conseguirem o que querem. Sebastian não faz a menor questão de esconder quem é para as pessoas, utilizando muito de seu charme, já Kathryn passa sua imagem de boa moça, escondendo sua personalidade diabólica atrás de seu rosto angelical.

Das três adaptações, essa talvez seja a mais fiel. Obviamente ela foi atualizada e teve a sociedade onde sua história acontece transferida de Paris para Nova York, rejuvenescida para jovens com idade escolar e com tramas mais mesquinhas que da obra original, mas as manipulações e os jogos de interesse continuaram em ambas e foi o que deu certo e chamou atenção.

Houve outras longas, de outros livros, que igualmente chamaram ou não a atenção. Estas são apenas três obras que souberam utilizar de uma mesma premissa, mas em diferentes contextos.


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Marya Cecília Ribeiro

Marya Cecília é goiana de nascimento, mora em São Paulo há seis anos e ainda assim não consegue lidar com o clima 4 estações em um dia que rola nessa cidade.
Tem umas manias esquisitas, tipo ver um filme que gosta várias vezes, mas esta tentando lidar com isso (ou não). Falando nisso, ela não faz questão nenhuma de ser normal, então podemos apenas seguir em frente!

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