Os primeiros cinco dias da primeira edição do Rock in Rio foram um sucesso. Apesar da chuva que castigou o Rio, provocando um imenso mar de lama na Cidade do Rock, nada abalou os roqueiros de plantão. Pelo contrário: foi um ícone daquela edição. Ao ponto de, em 2017, parte dos dejetos terem sido vendidos numa embalagem vedada, sob o título de “A Lama de 85” – o que gerou críticas mistas na internet. E dando sequência a primeira parte deste especial, hoje continuaremos a relembrar aquele janeiro que ficou guardado no coração dos metaleiros e no imaginário das gerações seguintes.

No dia 16, Os Paralamas do Sucesso retornaram ao RiR com aura de estrelas. Suas canções já estavam estouradas nas rádios, desde o primeiro show. “Óculos“, “Química” e “Vital e sua Moto” colocaram todo mundo para pular. Porém, num dado momento, Herbert Vianna criticou a plateia por ter vaiado atrações brasileiras (Kid Abelha, Eduardo Dusek, por exemplo), além da falta de bandas paulistas no line-up. Como protesto, ele e sua banda tocaram “Inútil“, do Ultraje a Rigor.  Logo depois, o show de Moraes Moreira fez, novamente, da Barra, um imenso carnaval. “Pombo-correio” e outros sucessos do ex-Novo Baiano fez com que todos tirassem o pé do chão. A rainha do rock brasileiro também fez jus ao seu trono. Rita Lee fez sua volta triunfal ao festival, após um hiato de dois anos, com hits e figurinos impecáveis. Ozzy Osbourne, a atração mais esperada da noite, também fez bonito, e com “Paranoid”, do Black Sabbath, encerrou o show com maestria. Já o fim da noite ficou com Rod Stewart. Com pouco mais de uma hora de show, repetiu o sucesso da primeira apresentação, finalizando com “Sailing“.

E a chuva, tão temida pela organização do evento, desabou no sétimo dia de Rock in Rio. Mas nada de desespero! A galera fez a festa, embalada por Alceu Valença e Elba Ramalho no começo da noite. Já o jazz de Al Jarreau não animou muito. Inclusive, foi um dia de poucos números, comparados aos primeiros dias: 70 mil pessoas. Foi a brecha para os fãs do Yes aproveitarem para ir lanchar ou descansarem, até a hora que seus ídolos subissem ao palco para fechar a noite. E quando o grupo britânico deu o ar de sua graça… muito barulho! Alguns jornalistas que estavam na sala de imprensa, disseram à época que as paredes do local chegavam a tremer. Ou seja, zero defeitos. “I’ve Seen All Good People“, “Roundabout” e outros hits foram cantados em coro na platéia.

No dia 18, os recordes dos primeiros shows retornaram: 250 mil pessoas. E apesar de todas as polêmicas relacionadas aos artistas nacionais, nessa noite foi diferente. Kid Abelha, Eduardo Dusek e Lulu Santos, que haviam sido massacrados pelo público, fizeram não só shows incríveis, como ganharam o gosto dos presentes. Talvez porque, antes, a maioria fosse metaleira e, agora, mais na onda do new-wave. A única atração inédita foi o The B-52’s, que animou do início ao fim com hits como “Party Out Of Bounds” e “Rock Lobster“. O The Go-Go’s seguiu o mesmo clima: transformou o festival numa pista de dança, com “Our Lips Are Sealed” e “Head Over Heels“. Os holofotes se voltaram novamente para o Queen, que emocionou com “Love Of My Life” – repetindo a emoção do dia 11 e arrebentou com “We Are The Champions” no encerramento. Um show histórico, sem dúvidas.

No penúltimo dia, mais recordes de público: 380 mil pessoas. Pepeu Gomes e Baby do Brasil trouxeram tons coloridos à noite majoritariamente preta e prata dos metaleiros. Tinham tudo para saírem enxotados do palco, considerando o som completamente diferente das guitarras e baterias pesadas que viriam mais tarde. Mas, felizmente, tudo correu muito bem, obrigado. “Masculino e Feminino” e “Malacaxeta” foram alguns dos singles executados no show. O Whitesnake também não decepcionou. A guitarra de John Sykes se destacou, assim como o hit “Love Ain’t No Stranger“. Ozzy Osbourne repetiu a loucura do dia 16, detonando em pouco mais de 1 hora no palco. “Journey to the Centre of Eternity“e “Go Fucking Crazy” estiveram no setlist. Os fãs, claro, não perderiam a piada diante do burburinho envolvendo a “relação” do cantor com animais vivos e canibalismo: jogaram uma galinha branca no palco. Anos depois, no Fantástico, ele comentou o ocorrido com bom humor: “Ela (a galinha) ficou lá, sentadinha“.

Os alemães do Scorpions se garantiram em sucessos como “At The Zoo” e “Rock You Like a Hurricane“. Muitos solos de guitarra e muitos gritos de Klaus Meine para os fãs. E finalmente o AC/DC. O show foi menor que o do dia 15, 14 músicas em vez de 17, mas a performance teve o mesmo gás, strip-tease, o enorme sino de “Hell’s Bells” e os canhões de “For Those About to Rock (We Salute You)“. Um dia inesquecível para o heavy-metal.

Pepeu Gomes.
Imagem: Divulgação/Rock In Rio (Crédito: FolhaPress)

O último dia do Rock in Rioapesar de tudo o que poderia prejudicar o andamento dos shows, teve seus bons momentos. A lama continuou sendo um atrativo à parte, mesmo com o calor que fez naquele feriado de 20 de janeiro. Erasmo Carlos foi homenageado em seu show, após as vaias do dia 11. O Barão Vermelho e Gilberto Gil também tiveram boas performances, apesar dos problemas com o som. O público já sentia saudade daqueles 10 dias de pura música, suor e festa. Houve homenagens também à John Lennon e Vinícius de Moraes. Já o The B-52’s, enfrentaram o calor levando a galera a pular junto com “Private Idaho“. E fechando com chave de ouro, o Yes trouxe sucessos de seu repertório, incluindo “Roundabout” no bis. Definitivamente, uma nova era na música ali se anunciava.

E você? Tem uma história sobre a edição de 1985? Guardou o ingresso, a pulseira de spikes ou algum brinde? Compartilha aqui com a gente! Semana que vem, falaremos sobre o Rock in Rio II, de 1991. Até lá!

 

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