Na semana passada a atriz Ruth de Souza faleceu no hospital em que estava internada há alguns dias. Além da carreira de mais de 70 anos, ela atuou em diversos filmes importantes para o cinema brasileiro. Para homenagear esta grande profissional, a Woo Magazine dedica esse texto a ela, conta um pouco da sua trajetória e mostra sua grande importância.

Ser atriz: um sonho de criança

Ruth Pinto de Souza nasceu no Rio de Janeiro em 12 de maio de 1921, mas até os nove anos morou com a família no interior de Minas Gerais. Por causa do falecimento do pai, a menina e sua família voltaram para a cidade natal. Nessa época surgiu nela a vontade de ser atriz, isso porque a mãe a levou ao cinema para assistir “Tarzan, O Filho da Selva” e ela encantou-se. Todavia não seria fácil seguir esse sonho. Foram muitos que disseram que Ruth não conseguiria seguir a profissão escolhida por ser negra.

Quando tinha 23 anos ela decidiu estuda teatro e descobrir que existia uma companhia voltada para atores negros que havia sido criada por Abdias do Nascimento. O Teatro Experimental do Negro (TEN) tinha como objetivo abrir espaço para atores e atrizes negros em meio a um país extremamente racista, que inclusive pintava artistas brancos para que eles interpretassem papéis de personagens pretos. No ano seguinte Ruth estreou a peça “Imperador Jones” no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, sendo a primeira negra a atuar naquele palco. Logo depois recebeu uma bolsa para estudar teatro nos Estados Unidos.

Atriz negra: A pioneira

Depois que voltou para o Brasil, sua carreira decolou, no teatro, no cinema, no rádio e na TV. Foi indicada pelo autor Jorge Amado para fazer parte do elenco do filme “Terra Violenta“, adaptação de um romance dele. Nos anos seguintes, durante a década de 50, a carreira da atriz ficou focada na sétima arte. Atuou em “Falta Alguém no Manicômio” (1948) e “Também Somos Irmãos” (1959),  de José Carlos Burle; em “A Sombra da Outra” (1950), de Watson Macedo; e em “Ângela” (1951), “Terra é Sempre Terra” (1952) e “Sinhá Moça” (1953) de Tom Payne.

E foi estrelando o filme “Sinhá Moça“, que ela se tornou conhecida mundialmente no setor artístico. No longa Ruth interpretou Sabina, papel que lhe rendeu o Prêmio Saci, entregue aos melhores nomes do cinema nacional pelo jornal O Estado de São Paulo. Pelo mesmo trabalho foi a primeira mulher brasileira e negra a ser indicada a um prêmio internacional: o Leão de Ouro, no Festival de Veneza de 1954.

Além de ser pioneira como mulher negra no teatro e no cinema, ela também abriu portas na televisão. Na teledramaturgia ela foi a primeira mulher negra a protagonizar uma novela em 1968 na TV Globo, “Passo dos Ventos” de Janete Clair. Representou mais 40 trabalhos na telinha e o último foi como Madalena em “Se eu fechar meus olhos agora“, com uma pequena e impecável participação.

Ruth: Aquela que abriu portas para atrizes negras

Ao longo da semana vários colegas de profissão e fãs postaram em suas redes sociais alguma homenagem a essa magnífica atriz. Entre as principais publicações estão as de Taís Araújo e Zezé Motta, duas atrizes negras que admiram Ruth por ela ter aberto tantas portas para que elas se destacassem no meio artístico depois. Em sua conta do Instagram, Taís escreveu um lindo texto no qual citou inúmeras atrizes que trabalham com o que gostam porque Ruth de Souza tornou isso possível.

“Ela veio antes de todas nós. […] Sempre com um talento arrebatador, um profissionalismo pra se destacar, um encanto e um respeito pela profissão, quando essa profissão não era respeitada, quando atrizes não eram respeitadas nem admiradas. […] Obrigada, Dona Ruth, obrigada por toda garra, todo empenho, todo talento, toda coragem, toda humanidade, toda perseverança. […]”

Ruth Pinto de Souza não é apenas o sonho concretizado de uma menina que lutou para fazer aquilo que queria por causa de uma sessão de cinema, ela simboliza muito mais que isso. Ela sofreu com o racismo, pode ter sofrido, pode ter sido humilhada, e tudo por causa da ignorância e do preconceito de uma sociedade racista e hipócrita. Que bom que tivemos Ruth para ser a primeira em tantas momentos importantes. Descanse em paz querida dama negra.