Crítica: Euphoria (1ª temporada)

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A euforia é o excesso de alegria e bem-estar em pessoas diagnosticadas com distúrbios psicológicos, como a bipolaridade. O problema é que a euforia é seguida por uma sensação de tristeza extrema, transformando a vida dos doentes em uma montanha russa de subidas e descidas que destroem suas relações sociais. Imagine conviver com tais sintomas e ainda ter que enfrentar a época mais difícil da vida: a adolescência. Bom, esses são os desafios de Rue (Zendaya) e outros adolescentes na magnifica série da HBO, “Euphoria”.

Rue sofre de depressão e transtorno bipolar, que a faz procurar nas drogas um alívio. Claro que as consequências são uma overdose e alguns dias em coma. A vida da garota também é cheia de outros problemas, como a morte do pai e a falta de amigos que compreendam sua personalidade. Ela passa por um período de reabilitação em uma clinica que não surte resultado, pois o vicio sempre se mantém presente. Entre escola e casa, há as visitas ao traficante local, de quem é amiga.

Mas, não é só em Rue que “Euphoria” se apega, e ela serve de narradora para apresentar as histórias de inúmeros personagens em seus dramas pessoais durante o ensino médio. São nas cenas desses personagens que estão presentes a maior parte dos momentos que causaram tanta polêmica perante a audiência mais conservadora.

Na maioria dos oito episódios são se economiza nas cenas de sexo, na nudez, na violência física e psicológica e no uso de drogas, porém, as críticas que surgiram nos EUA logo após a estreia são infundadas e partem de concepções superficiais sobre a proposta da série. Não há em “Euphoria” a intenção de mostrar gratuitamente garotas nuas fazendo sexo para atrair a audiência masculina descerebrada. As cenas não possuem teor erótico e são tratadas pelos roteiristas e diretores com frieza e desconforto, para que aquele mundo cruel tome forma nas cabeças dos espectadores mais sensíveis e conscientes.

É, por exemplo, de cortar o coração acompanhar as humilhações sofridas por Cassie (Sydney Sweeney), que é tratada como objeto por todos os garotos do colégio depois que vídeos seus fazendo sexo com diversos parceiros são expostos. Mesmo quando ela encontra um namorado que diz que a ama, ele se recusa a assumi-la perante os amigos, com medo de sujar sua reputação. Com fama de “fácil”, Cassie só quer achar o amor idealizado em uma pessoa que a faça se sentir correspondida. Porém, sua beleza, realçada pelas roupas provocantes, acaba tornando-se um chamariz para predadores casuais, que acabam destruindo seus sentimentos.

Outra vítima da própria beleza é Maddy (Alexa Demie) que sofre constantes agressões de seu namorado Nate (Jacob Elordi). O capitão do time de futebol americano não aceita o modo sexy como a garota se veste e a quer mais pura, recatada e limpa possível. Como uma espécie de eterna virgem. Ela o ama, mesmo com todos os abusos e as marcas em seu corpo. Nate pode ser tratado como o vilão da série, já que não titubeia em espancar e chantagear pessoas para alcançar seus objetivos. Seu comportamento destrutivo é resultado de uma intensa raiva interna causada pela pressão por sucesso vinda do pai e pela atração incompreensível que sente pela transexual Jules (Hunter Schafer).A incompreensão é justificável, afinal ele é o perfeito estereótipo do macho alfa. Só que, mesmo como todo o seu domínio, é a apaixonante Jules, com sua beleza exótica, que o conquista. E faz o mesmo com o pai de Nate, Cal Jacobs (Eric Dane), que guarda sua homossexualidade escondida no armário e em vídeos gravados durante os encontros com garotos de programa. Personagens como Jules são raros no cinema e na TV, mesmo com todos os avanços conseguidos pela comunidade LGBT+. A série acerta em ser discreta em relação à transexualidade de Jules, fazendo com que o público se identifique não só com sua condição especial frente a uma sociedade preconceituosa, mas também com sua personalidade iluminada.

Rue é outra que se apaixona por Jules, o que faz com que a vontade de usar drogas seja amenizada. Quando as duas estão juntas, Rue é coberta pelas cores vivas que emanam de Jules por meio de suas roupas e maquiagem. Neste ponto é interessante notar que são as cores fortes que dominam o mundo ilusório das drogas e que Rue substituiu por outro mundo colorido, o mundo do amor. Realmente, as cores, ou a falta delas, são bem usadas em todos os episódios pela direção de fotografia. Os quartos, locais usados para chorar as magoas, são escuros e sem vida. Mesmo o descolado e colorido quarto de Jules é coberto por sombras. O de Rue é quase uma caverna iluminada apenas pelas luzes das telas dos celulares e computadores.

A direção de fotografia, inclusive, é uma grande aliada da competente direção de Sam Levinson no melhor episódio da primeira temporada, intitulado Shook One: Pt II (4º episódio), onde todos os personagens se encontram em uma festividade em um parque de diversão. Há um primoroso plano sequência inicial que serve para situar cada um dos momentos dramáticos. Já no início do terceiro ato, a câmera de Levinson enquadra Rue e Cal Jacobs em contra plongée, com fogos de artificio coloridos explodindo no céu escuro ao fundo, dando o panorama psicológico dos dois. Como se os fogos fossem a manifestações caóticas de seus pensamentos que pipocam em uma psique obscura como o céu noturno.

Levinson se supera e mostra todo seu domínio cinematográfico em um final que mostra Jules e Rue deitadas em uma cama enquanto a câmera gira em círculos imitando a rotação da terra, onde as personagens são o sol e a câmera a terra. Se a terra completa um ano de seu tempo com uma volta completa em torno do sol, a câmera mostra cada dia das personagens ao completar uma volta sobre elas. Com isso, há a impressão de continuidade e estabilidade em seus relacionamentos, que seguem o dia a dia de forma plena, afirmando a amizade e o amor.

Com seus atributos cinematográficos e dramáticos, “Euphoria” é mais um acerto da HBO e dá espaço para discussão sobre a importante fase das descobertas, amores e frustrações adolescentes. Fase também que pode ser dominada pelas drogas e a bebida, que se tornam o escape para o opressor e banal mundo real. Tudo isso com a ausência e ignorância dos pais que não superaram, eles próprios, os tempos do ensino médio.


Vídeo: Divulgação/HBO

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