Pode ser que o que vá ser escrito aqui não seja de suma importância para ninguém. Em meio a tantas redes sociais, pode até ser que passe despercebido e ela não receba milhões de “likes” quanto a foto de uma criança fazendo um cachorro sorrir.

Pode ser… enfim…

O que está sendo escrito aqui não é de serventia nenhuma além de uma, quiçá, tentativa de acalmar um coração que entrou, literalmente, em crise de pânico no meio da rua.

Cada palavra digitada é na verdade uma locução reciclada de pensamentos soltos e escritos [no bloco de notas de seu celular] em meio a lágrimas dentro de um ônibus que, ironicamente, sentia-se atraído pelos buracos da rua e assim, de pulos em pulos, seus soluços eram abafados aos olhos e ouvidos dos outros passageiros.

O “fato” (e essas aspas exigem respeito) é: ela tem poucas certezas na vida. A dificuldade de tomar decisões é notória. Assim como a vontade de abraçar o mundo quando o mundo não precisa [ou quer] ser abraçado. “Ou isso, ou aquilo, já disse alguém”, mas ninguém sabe o inferno que é escolher as malditas borrachinhas do aparelho dentário. Se for verde, vai ser verde o mês inteiro.

Se escreve… se escreve agora [e que suas reticências também sejam respeitadas], é porque é isso que sabe fazer. E porque ouviu de um professor que “histórias felizes não dão um bom romance”, e porque é assim que desafoga, e porque é assim que presta satisfações, e porque é assim que ela é. […]

Seu coração, numa suplicante tentativa de lhe alertar que as coisas não iam bem, começou a acelerar. Um dia um pouquinho, n’outro dia mais um pouquinho… até que um dia, diante das suas “ignoradas” ele doeu e a fez parar. [E isso não foi no sentido figurado].

Foi à médicos… sim… três, porque como se não bastasse, precisava de mais de uma opinião. Resumindo: o primeiro lhe tirou das atividades físicas, passou um eletrocardiograma e um hemograma completo. Segundo prognósticos, poderia ser uma crise de ansiedade ou tireóide. Fez o que foi pedido como boa paciente que deveria ser. O resultado do hemograma saiu depois de quinze dias e três ampolas de sangue. E junto com ele, saiu também o cardiologista que lhe atendia.

O segundo cardiologista: um senhor de mais ou menos 70 anos e surdo, disse que seu hemograma estava perfeito, mas o eletro era de um paciente terminal. “Você não deveria nem levantar da cama”, disse ele.  Receitou-lhe oito gotas de Rivotril [2,5ml] durante à noite e pediu-me um eco-cardiograma. Saiu do consultório com aquela “alegria” típica e, óbvia, de uma “Rehab” e tarjas-pretas.

Primeiro dia de Rivotril: 8 gotas e perda de memória.

Segundo dia de Rivotril: 6 gotas e nenhum sorriso no rosto.
Terceiro dia de Rivotril: 4 gotas e pânico de sair na rua.

Quarto dia de Rivotril: nenhuma gota e se perguntando se morreria ao jogar-se na frente do trem. [Detalhe: na estação o esperando chegar].

Terceiro, ou melhor, terceira e última cardiologista. Porque se fosse para morrer, não ia ser se jogando na frente do trem.

Bem, o que era “terminal”, na verdade não se tratava nada mais, nada menos do que a interferência do seu aparelho [com borrachinhas transparentes na ocasião], no “tic-tac” do eletro. Sobre o diagnóstico; constatou-se ansiedade e o tratamento com um remédio controlado, mas menos danoso que o Rivotril [que já está no lixo].

E se escrevesse “era uma vez” – que pelo tamanho não será lido por ninguém- , é porque além de ter crises constantes, mas ciente do que tem e consciente que não vai se jogar na linha do trem; é que nada vai mudar o fato das pessoas serem diferentes, de terem suas dores e alegrias, e de não terem vergonha de chorar no ônibus.

Aos que perguntaram por ela, aos que ligaram, mandaram e-mail, sinal de fumaça… e até pombo correio… ela está bem! (dentro da medida do “estar bem”).  Está seguindo o tratamento e fazendo somente o que suas possibilidades lhe permitem fazer agora [até pôde voltar para academia].  Continua trabalhando e quando chega em casa é recebida com duas lambidas no nariz e cinco rabinhos abanando. Ela sabe que vai ter seus momentos de trampolim e fundo do poço. Mas acredita que todo mundo passa por isso, pelo menos uma vez na vida.

No fundo, no fundo… é só isso… somos aquelas crianças fazendo cachorrinhos sorrirem!

Show Full Content

About Author View Posts

Avatar
Kinha Fonteneles

Érica nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro, mas deveria ter nascido nesses lugares onde se conversa com plantas, energiza-se cristais e incenso não é só pra dar cheirinho na casa.
Letrista na alma, e essa bem... é grande demais por corpinho de 1,55 que a abriga.
Pisciana com ascendente E lua em câncer. Chora quando está feliz, triste, com raiva e até mesmo com dúvida.
Ah! É uma nefelibata sem cura.

Previous Crítica: Ninguém entra, ninguém sai
Next Última semana de ‘Cássia Eller – O Musical’ no Rio

2 thoughts on “Sobre crianças fazendo cachorros sorrirem

  1. É tds os dias dezenas e milhares de crianças passam por esses trâmites mas a resenha da vida é sabermos evoluir dentro dessas adversidades e o mais importante independente de ganharmos ou achar que perdemos sempre sairemos vencedores de alguma forma pois evoluimos de alguma maneira

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close
Close