Quase meio século após a morte do lendário baterista, o frontman reflete sobre os limites dos “bateristas convencionais”, o breve desvio na turnê de despedida e o inevitável retorno de Zak Starkey ao caos da banda
Na vasta mitologia do rock britânico, poucos lugares no palco carregam um peso tão espinhoso quanto o banco de bateria do The Who. Desde a manhã chuvosa de setembro de 1978, quando Keith Moon partiu precocemente, Pete Townshend e Roger Daltrey arrastam a missão quase impossível de substituir um mestre da anarquia calculada. Para Daltrey, a ferida nunca cicatrizou totalmente — e ele não faz qualquer esforço para esconder isso.
Em uma franca entrevista concedida a Joann Butler, da Life Minute TV, o vocalista de 82 anos olhou para trás e abordou com sua habitual crueza a odisseia do The Who para encontrar um motor percussivo à altura.
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“Nunca mais foi a mesma coisa desde que o Keith morreu”, admite Daltrey, sem rodeios ou floreios promocionais. “Não posso fingir que foi. Nós funcionávamos com todos os cilindros no máximo. Podíamos jogar qualquer ideia no ar e transformar aquilo em algo gigante. Esse tipo de magia meio que desapareceu quando o Keith se foi.”
A armadilha do “baterista careta”
A tentativa imediata de preencher o vácuo deixado por Moon veio com Kenney Jones, egresso do Faces. Embora Jones fosse um músico impecável, seu estilo focado no groove e no tempo preciso colidia com a necessidade do The Who por um baterista que funcionasse mais como um solista e menos como um mero metrónomo. Jones permaneceu por uma década, seguido pela passagem técnica e polida de Simon Phillips na turnê comemorativa dos EUA em 1989.
“Nós tentamos o Kenney Jones, que é um grande baterista, mas um baterista ‘careta’ simplesmente não funciona com o The Who”, pontua Daltrey. “Simplesmente não funciona.”
A dinâmica só voltou a se aproximar do vulcão original em 1996, com a chegada de Zak Starkey. Filho de Ringo Starr, mas afilhado e discípulo informal do próprio Keith Moon, Starkey trouxe de volta a agressividade e o ataque imprevisível que a discografia da banda exigia. “Zak não é o Keith Moon, mas chega muito perto”, concede a voz de Quadrophenia.
O atrito da estrada e o regresso em Las Vegas

Apesar da afinidade musical, o relacionamento com Starkey esteve longe de ser sereno. O ciclo parecia ter chegado ao fim no ano passado, após uma demissão desgastante e arrastada que deixou o baterista americano Scott Devours encarregado de assumir as baquetas durante a concorrida American Farewell Tour de 2025.
Contudo, a história do The Who sempre foi escrita em tom de melodrama e reconciliação. Durante uma apresentação solo recente no Encore Theater, em Las Vegas, Daltrey surpreendeu o público ao revelar que a banda já estava de volta aos estúdios de ensaio — e com Starkey ocupando novamente o posto.
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Ao comentar a turbulência recente e o retorno do músico, Daltrey revelou um misto de afeto paternal e cansaço de veterano:
“Nós amamos o Zak. Nós realmente amamos o Zak. Às vezes a estrada não ama o Zak. O peso da rotina fica demais para ele e as coisas se complicam, mas nós o amamos.”
Para um grupo que construiu sua carreira à beira da autodestruição, o retorno de Starkey prova que, para o The Who, a estabilidade nunca foi uma opção. Enquanto Townshend e Daltrey mantiverem a banda de pé, o motor do fundo do palco precisará continuar flertando com o perigo.
Imagem destacada: Reprodução/The Who site oficial


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