Exibida entre 2007 e 2009, a produção reuniu personagens que permanecem na memória do público e fez parte de uma época em que sitcoms e humorísticos tinham espaço na televisão aberta
“Toma Lá, Dá Cá” estreou na TV Globo em agosto de 2007 e permaneceu no ar até dezembro de 2009. Criada por Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa, a série acompanhava duas famílias que moravam no mesmo andar do fictício condomínio “Jambalaya Ocean Drive”, onde relações familiares, vizinhança e situações cotidianas se transformavam em histórias de humor.
A produção chegou à televisão em um período em que programas de comédia e sitcoms ocupavam um espaço importante na programação da TV aberta. Com gravações diante de plateia e um elenco formado por nomes conhecidos do público, a série apostava em personagens exagerados, conflitos familiares e bordões para construir sua identidade.
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Os personagens que continuam na memória do público
Mário Jorge, Celinha, Rita, Arnaldo, Copélia, Bozena, Isadora, Tatalo, Adônis, Dona Álvara e Seu Ladir formavam o núcleo responsável pelas confusões do “Jambalaya“. Cada personagem tinha características próprias, o que ajudava a criar situações recorrentes e reconhecíveis.
Mário Jorge e Celinha, interpretados por Miguel Falabella e Adriana Esteves, estavam no centro de boa parte das histórias. Já Rita e Arnaldo, vividos por Marisa Orth e Diogo Vilela, completavam a dinâmica entre os dois apartamentos.
Entre os personagens mais lembrados de “Toma Lá, Dá Cá” está Bozena, interpretada por Alessandra Maestrini. Empregada doméstica que trabalhava nos dois apartamentos do condomínio, ela ficou conhecida principalmente pelas histórias que contava sobre Pato Branco, sua cidade natal, e pelo jeito peculiar de falar.
O sotaque carregado e a repetição da palavra “daí” no fim das frases se transformaram em uma das principais marcas da personagem. O bordão, inclusive, não estava pronto quando Bozena foi criada. Foi uma escolha da própria Alessandra durante o processo de construção da personagem.
Em entrevista ao UOL, a atriz contou que pesquisou referências para desenvolver o sotaque e acabou encontrando um grupo folclórico de danças polonesas. Durante a conversa com uma das pessoas do grupo, percebeu que “daí” aparecia constantemente no final das frases. A partir dessa experiência, decidiu incorporar a expressão à personagem.
“Falei para o Miguel no ensaio, vou terminar todas as frases com daí. Ele disse, por quê? Você enlouqueceu? Eu disse, vai funcionar!”, contou Alessandra Maestrini.
A escolha acabou se tornando uma das características mais reconhecíveis de Bozena. A própria Globo reuniu posteriormente os principais bordões de “Toma Lá, Dá Cá”, entre eles “Daí”, “Lá em Pato Branco…”, “É mara!” e “prefiro não comentar”.
As histórias de Pato Branco viraram a identidade da personagem
Bozena praticamente transformava qualquer situação cotidiana em uma lembrança de sua cidade. Bastava alguém mencionar determinado assunto para ela começar mais um de seus “causos” de Pato Branco.
A personagem foi escrita especialmente para Alessandra. Segundo a atriz, Débora Bloch sugeriu seu nome a Miguel Falabella depois de trabalhar com ela. A ideia inicial era criar uma empregada que viesse do Sul do Brasil. Falabella já tinha Pato Branco em mente e acabou incorporando a cidade à história da personagem.
A escolha teve uma repercussão curiosa na própria cidade. Pato Branco passou a ser frequentemente associada à personagem, e Alessandra chegou a receber uma medalha de cidadã honorária do município, apesar de ter nascido em Sorocaba, São Paulo.
A atriz não era igual à personagem
O sucesso de Bozena foi tão grande que o público passou a associar Alessandra à empregada do “Jambalaya“. Em entrevista ao UOL anos depois do fim da série, a atriz contou que ainda era frequentemente convidada a imitar a personagem, mas preferia não fazê-lo.
“Pedem, mas eu não faço. Senão eu não faço outra coisa, gente!”, afirmou.
Na mesma entrevista, Alessandra disse que Bozena havia “entrado para o folclore” e comparou o alcance da personagem ao de Emília, do “Sítio do Picapau Amarelo”.
A declaração mostra como a personagem ultrapassou o período em que esteve no ar. Mesmo anos depois do último episódio, Bozena continuava sendo reconhecida por sua voz, seu sotaque, seus bordões e, principalmente, pela maneira particular de contar suas histórias.
Uma personagem construída nos detalhes
O sotaque, o “daí”, as histórias de Pato Branco e a maneira de reagir às situações do condomínio não surgiram de uma única inspiração. Foram elementos que Alessandra foi reunindo durante a preparação.
Em outro depoimento, a atriz revelou que sua avó, Ivone Silveira da Mota, que era de Curitiba, também serviu como referência para a construção do sotaque e do jeito da personagem.
É essa combinação de características que ajuda a explicar por que Bozena se tornou uma das figuras mais reconhecíveis de “Toma Lá, Dá Cá”. A personagem não ficou marcada apenas pelas frases engraçadas, mas por possuir uma forma própria de falar, reagir e transformar qualquer acontecimento em mais uma história “lá de Pato Branco”.
Copélia e Seu Ladir conquistaram o público com bordões e personalidades marcantes
Arlete Salles deu a Copélia uma das personagens mais irreverentes de “Toma Lá, Dá Cá“. Mãe de Celinha, a personagem era uma mulher mais velha, vaidosa e sexualmente livre, característica que fugia da representação tradicional de mulheres da terceira idade na televisão. O bordão “prefiro não comentar” virou uma de suas marcas, enquanto suas histórias e aventuras amorosas ajudavam a criar as situações de humor. Em entrevista à Quem na época , Arlete afirmou que se surpreendeu com a recepção da personagem:
“Me surpreendeu a forma como a personagem está chegando às pessoas. Eu tinha um certo receio quanto a esse trabalho, não conseguia imaginar a dimensão da Copélia. Está sendo uma bela surpresa.”
A atriz também destacou o que considerava mais interessante na personagem:
“O bacana dela é essa aceitação da sexualidade na terceira idade.”
Seu Ladir, interpretado por Ítalo Rossi, entrou para o elenco fixo em 2008 e rapidamente ganhou espaço com seu jeito extravagante, figurinos chamativos e a expressão “é mara!”, usada para dizer que algo era maravilhoso. O próprio Rossi explicou que o bordão já estava no roteiro e que a primeira vez que o utilizou foi em uma fala sobre Arnaldo:
“O Arnaldo, por exemplo, é mara! E pronto. Daí em diante pegou.” A expressão acabou ultrapassando a série e se tornou uma gíria popular.
Copélia e Ladir ajudaram a mostrar uma das características de “Toma Lá, Dá Cá“: personagens que não precisavam estar no centro da história para conquistar o público. Seus bordões, comportamentos e formas particulares de enxergar o cotidiano fizeram com que os dois permanecessem entre as figuras mais lembradas do humorístico anos depois de seu fim.
Uma época em que sitcoms faziam parte da televisão aberta
Quando “Toma Lá, Dá Cá” chegou à Globo, as séries de humor com cenários fixos e personagens recorrentes tinham presença significativa na televisão aberta. A produção estreou depois de “Casseta & Planeta” e foi apresentada na época como uma sitcom sobre duas famílias de classe média que, apesar de morarem em apartamentos separados, estavam constantemente envolvidas umas na vida das outras.
O próprio Miguel Falabella definiu a atração como uma “comédia de confinamento”. A ideia era transformar a convivência entre os moradores do condomínio em combustível para as histórias.
A ligação com “Sai de Baixo”
A comparação com “Sai de Baixo” também acompanhou a chegada da série. Miguel Falabella e Marisa Orth voltavam a trabalhar juntos em uma produção ambientada em um condomínio e gravada diante de plateia.
Mas Falabella apresentou “Toma Lá, Dá Cá” como uma nova proposta. Em entrevista na época da estreia, explicou que queria explorar justamente a convivência forçada entre pessoas que moravam próximas, mas tinham personalidades e interesses diferentes.
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Por que Miguel Falabella decidiu terminar Toma Lá, Dá Cá?
Depois de pouco mais de dois anos no ar, “Toma Lá, Dá Cá” chegou ao fim em dezembro de 2009. A decisão de encerrar a série partiu de Miguel Falabella, que preferiu colocar um ponto final naquele momento, enquanto o programa ainda mantinha uma relação forte com o público. Na gravação do último episódio, o ator e autor resumiu o sentimento com a frase:
“Talvez este tenha sido o programa mais feliz que fiz até hoje. Ele chegou no coração do público.”
Para Falabella, era também uma questão de encerrar um ciclo antes que a fórmula se desgastasse.
“Agora, fica a sensação de missão cumprida”, afirmou.
O fim que virou parte da própria história
O último episódio, exibido em 22 de dezembro de 2009, colocou os moradores do “Jambalaya” diante de uma situação caótica. O desfecho brincou com a própria ideia de ficção e levou os personagens para uma situação completamente inesperada, incluindo uma nave espacial e a promessa de que eles voltariam.
A série terminou após 92 episódios e deixou para trás um conjunto de personagens que continuou sendo associado à televisão brasileira dos anos 2000.
Por que Toma Lá, Dá Cá continua sendo lembrado?
A permanência da série na memória do público passa pela combinação entre elenco, personagens, bordões e situações que podiam ser reconhecidas mesmo anos depois da exibição original.
Anos depois, “Toma Lá, Dá Cá” permanece como um registro de uma fase da televisão aberta brasileira em que personagens fixos, plateia, cenários recorrentes e episódios semanais faziam parte da rotina de quem acompanhava séries de humor na TV.
Imagem destacada :Divulgação/TV Globo


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