De Bárbara a Crô: 7 personagens de novelas que revelam como o olhar do público mudou ao longo dos anos.
Novelas também envelhecem. Quando reassistimos a produções que fizeram sucesso nos anos 2000, algumas histórias continuam emocionando, enquanto determinados personagens passam a provocar uma reação completamente diferente.
Isso não significa necessariamente que a sociedade não enxergasse aqueles comportamentos como problemáticos na época. Em alguns casos, a própria novela já os apresentava como absurdos. A diferença está na forma como o público de hoje interpreta essas situações, principalmente após transformações importantes no debate sobre racismo, homofobia, machismo, violência e relacionamentos abusivos.
Revisitando essas produções, é possível perceber como personagens que um dia foram vistos apenas como vilões, figuras engraçadas ou pessoas “complicadas” ganharam novas nuances.
Confira sete exemplos:
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1. Bárbara — Da Cor do Pecado (Rede Globo, 2004)
Bárbara, interpretada por Giovanna Antonelli, é um dos exemplos mais evidentes de como uma figura ficcional pode ser reavaliada atualmente.
Na trama, a vilã se torna rival de Preta (Taís Araújo) ao descobrir que Paco (Reynaldo Gianecchini), seu noivo, havia se apaixonado pela jovem maranhense. A novela colocou o racismo no centro do conflito e, segundo a Memória Globo, o preconceito racial norteava a produção, que foi a primeira do canal com uma protagonista negra em um enredo contemporâneo e urbano.
A questão central é que Bárbara não tinha filtro ao se referir a Preta. Ao descobrir o relacionamento dos dois, ela chama a rival de “negrinha” e utiliza outras expressões abertamente racistas para diminuí-la. Uma análise acadêmica da novela identifica Bárbara precisamente como a personagem que encarnava o preconceito de maneira explícita e agressiva.
O ponto relevante é que isso já era exposto como algo absurdo dentro da narrativa. Bárbara não foi criada para representar um comportamento aceitável: o racismo fazia parte da construção de sua vilania.
Contudo, ao rever a produção hoje, as cenas ganham outra dimensão. Não apenas porque as palavras utilizadas são ofensivas, mas porque a novela permite observar como o racismo era frequentemente depositado apenas na boca de indivíduos vilões, como se fosse um desvio exclusivo de pessoas sem caráter. Estudos sobre “Da Cor do Pecado” questionam essa construção, apontando que o preconceito na trama aparece sobretudo através dos antagonistas, enquanto a dimensão estrutural do problema fica menos explorada.
Bárbara, portanto, seria recebida hoje com ainda menos tolerância — não apenas por ser uma vilã, mas porque suas falas escancaram um racismo que a própria narrativa precisava enfrentar.
2. Abelardo Sardinha — Da Cor do Pecado (Rede Globo, 2004)
Se Bárbara representa o racismo explícito, Abelardo simboliza outro tipo de viés recorrente na televisão daquela época: a associação direta entre comportamento, aparência e orientação sexual.
Interpretado por Caio Blat, Abelardo era o filho mais delicado da família Sardinha. Enquanto seus irmãos eram lutadores musculosos e apaixonados por esportes, ele gostava de arte e sonhava em trabalhar como maquiador. A própria Memória Globo descreve o personagem como o mais sensível entre os irmãos brutamontes, destacando seu sonho profissional apesar da falta de apoio familiar.
Dentro de um núcleo extremamente ligado à ideia de força física e virilidade, Abelardo parecia não se encaixar. Seu interesse por estética e um comportamento distante do estereótipo do homem “durão” faziam com que sua sexualidade fosse constantemente colocada em dúvida.
O problema não estava no gosto do personagem por maquiagem, mas na premissa de que um homem interessado por arte e estética necessariamente precisaria ser gay.
É esse tipo de associação que hoje seria amplamente questionado. O personagem poderia continuar existindo exatamente como foi escrito — um homem delicado e artístico —, mas dificilmente a narrativa precisaria transformar essas características em uma espécie de “pista” sobre sua orientação sexual.
Abelardo envelheceu de maneira curiosa porque a própria trama utilizava a sensibilidade masculina como um traço que exigia explicação.
3. Patrícia — Vidas Opostas (Rede Record, 2006/2007)
Esta é talvez a situação mais desconfortável da lista. Patrícia, interpretada por Babi Xavier, era uma advogada e mãe da adolescente Carla (Juliana Lohmann). O conflito surge quando ela se envolve com Alfredo (Daniel Dalcin), amigo de sua filha — um jovem de apenas 17 anos.
A Folha de S.Paulo registrou, na época, a cena em que Carla flagrava a mãe aos beijos com o rapaz dentro de casa, ressaltando que ele era colega de escola da garota. A trama tratava o romance como uma relação amorosa genuína. O autor Marcílio Moraes chegou a afirmar que o sentimento entre os dois era verdadeiro, enquanto a atriz defendia que a personagem sabia da juventude do rapaz, mas queria viver aquela paixão.
Hoje, a recepção seria completamente diferente. Patrícia não era apenas uma mulher madura apaixonada por um homem mais jovem; Alfredo era um menor de idade e amigo próximo de sua filha. A assimetria de idade, a relação de autoridade e a proximidade familiar tornam a situação delicada.
Soma-se a isso o fato de Patrícia ser advogada, o que leva o público atual a questionar como uma profissional instruída e consciente das leis se envolveria com um adolescente. Rever “Vidas Opostas” permite perceber como uma história abordada sob a lógica do “amor sem preconceitos” provocaria, atualmente, um debate sério sobre maturidade, consentimento e responsabilidade adulta.
4. Crô — Fina Estampa (Rede Globo, 2011)
Crodoaldo Valério, vivido por Marcelo Serrado, pertence ao início dos anos 2010. O personagem conquistou o público de “Fina Estampa” por ser divertido, extravagante, afeminado e devotado à patroa, Tereza Cristina.
Na época, o material oficial da emissora apresentava Crô como um mordomo gay e “espevitado” que havia caído nas graças do público. Marcelo Serrado defendia ter construído o papel com humanidade. No entanto, a crítica atual se volta para a estrutura desse humor.
Crô é um personagem cuja feminilidade, trejeitos, figurino e tom de voz são utilizados de forma ininterrupta como alívio cômico. Uma análise acadêmica sobre a obra observa que o personagem se tornou um arquétipo do gay afeminado a serviço da comicidade.
Essa leitura ganhou força durante a reprise da novela em 2020. Em análise publicada na época, o colunista Fefito questionou a utilização da feminilidade como recurso de riso fácil:
“É difícil imaginar a viabilidade no mundo de hoje de um homossexual que desperta risadas apenas pelo fato de ser afeminado e serve de capacho para a patroa.”
A questão não está em retratar um homem gay afeminado, tampouco na existência de personagens com esse perfil. O ponto crítico é transformar a expressão de gênero e a orientação sexual nos únicos motores de ridicularização da narrativa.
5. Dóris — Mulheres Apaixonadas (2003)
Dóris, vivida por Regiane Alves, é um caso em que o comportamento já era apresentado como vil e condenável na exibição original. A personagem maltratava os avós, Flora e Leopoldo, renegava a presença deles em casa e exigia que fossem levados a um asilo.
A Memória Globo destaca que o núcleo foi planejado para discutir o desrespeito à terceira idade, cumprindo um papel social explícito. A crueldade de Dóris nunca passou despercebida.
O que mudou foi a enquadramento conceitual dessa história. Hoje, as atitudes de Dóris seriam classificadas diretamente como violência psicológica, maus-tratos e abuso contra a pessoa idosa, para além do rótulo de “neta mimada”.
Por outro lado, a solução dada pela narrativa também envelheceu de forma problemática. Na famosa cena em que seu pai, Carlão, a pune com surras de cinto, a novela tentou responder a uma violência utilizando outra. Atualmente, o debate se concentraria não apenas no desrespeito de Dóris, mas na inadequação da punição física como método corretivo familiar.
6. Heloísa — Mulheres Apaixonadas (Rede Globo, 2003)
Heloísa, interpretada por Giulia Gam, protagonizou um dos arcos mais marcantes sobre ciúme e dependência emocional da teledramaturgia nacional. Casada com Sérgio, ela vivia em paranoia constante: revistava pertences, destruía roupas do marido, fazia ameaças e chegou a tentar esfaqueá-lo.
A novela buscou abordar o tema de forma pedagógica ao introduzir o grupo Mulheres que Amam Demais Anônimas (MADA). Contudo, análises posteriores apontam que a narrativa acabou reforçando uma representação caricata do ciúme obsessivo feminino.
Em vez de ser reduzida aos apelidos pejorativos da época — como “louca” ou “Helôquisa” —, a trajetória de Heloísa seria analisada hoje sob a ótica da saúde mental, da dependência afetiva e do comportamento controlador. O público atual tende a separar o esclarecimento de um transtorno psicológico de sua simples espetacularização em tela.
7. Antenor Cavalcanti — Paraíso Tropical (Rede Globo, 2007)
Antenor, interpretado por Tony Ramos, é um empresário poderoso, dominador e machista. Seu casamento com Ana Luísa (Renée de Vielmond) operava sob dois pesos e duas medidas: ele exigia fidelidade absoluta da esposa enquanto mantinha encontros extraconjugais.
A trama não o desenhou como um vilão maniqueísta, mas como um homem influente e capaz de se redimir. É essa humanização que torna sua revisão interessante: hoje, há muito menos complacência com a lógica de que o homem pode ter condutas libertinas enquanto à mulher cabe o papel de rescisão e recato.
A própria imprensa da época destacou a estranheza do público em ver Tony Ramos — habituado a papéis de “bom moço” — interpretar um personagem infiel e tirânico. Em uma produção contemporânea, Antenor não precisaria ser apagado, mas suas atitudes machistas teriam de ser confrontadas com maior rigidez pela narrativa, sem o tom de naturalidade de outrora.
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Reassistir a uma novela antiga não é apenas um exercício de nostalgia; é um termômetro de transformação social.
Bárbara evidencia como o racismo costumava ser retratado apenas como um desvio individual de vilões. Abelardo expõe a rigidez dos estereótipos de gênero. Patrícia coloca em pauta limites de idade e autoridade. Crô expõe as bordas do alívio cômico calcado no preconceito. Dóris e Heloísa mostram como a violência doméstica e a saúde mental ganharam novos contornos conceituais. E Antenor explicita as velhas concessões feitas ao machismo corporativo.
Muitas dessas produções já indicavam que esses atritos existiam. A diferença é que o espectador contemporâneo dispõe de novas ferramentas analíticas e vocabulário para nomear e contestar o que vê na tela.

Imagem destacada : Divulgação / Globo


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