Da trilha original de Bernard Herrmann ao corredor de Elle Driver em Kill Bill, entenda por que a melodia assobiada segue provocando tensão, memória e fascínio
Em 24 de outubro de 2003, chegava aos cinemas brasileiros a primeira parte de um filme que hoje é reconhecido como um grande símbolo da cultura pop, “Kill Bill: Volume 1”. O filme acompanha a personagem Beatrix Kiddo em busca de vingança após sofrer uma tentativa de assassinato no dia do ensaio de seu casamento.
“Kill Bill” é um dos filmes com a trilha sonora mais aclamada do cinema mundial, mesmo sem nenhuma das composições ter sido feita exclusivamente para a obra. A curadoria por trás dela revela a pesquisa assídua e detalhada do rapper RZA e do diretor Quentin Tarantino. Uma das canções mais populares do filme é “Bang Bang (My Baby Shot Me Down)”, de Nancy Sinatra, usada em obras como a série “Bonnie & Clyde” e no som eletrônico do DJ David Guetta.
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Mas uma melodia em particular foi a que roubou a cena.
“Twisted Nerve” foi desenvolvida para criar uma atmosfera de angústia e aflição nas cenas do filme “O Nervo Torcido”, thriller britânico dirigido por Roy Boulting em 1968. A melodia, composta por Bernard Herrmann, servia para sinalizar quando o personagem Martin Durnley estava perseguindo e atacando mulheres, intensificando o clima sombrio e perigoso.
Inicialmente, o assobio não fazia parte da trilha sonora de “Kill Bill”, mas, segundo relatos de bastidores publicados em entrevistas sobre o filme, a faixa teria sido sugerida durante a construção da icônica cena em que a personagem Elle Driver caminha pelos corredores de um hospital, prestes a cometer um assassinato.
O sucesso foi tão grande que não somente o som é usado até hoje para marcar cenas sombrias, como o próprio take de Elle Driver é usado como referência em diversas obras posteriores, como é o caso do personagem Tate Langdon em “American Horror Story”.

O que faz ligar a melodia “Twisted Nerve” ao sombrio e psicodélico?
Há anos, a ciência tenta descobrir exatamente como o cérebro humano se comporta ao escutar uma música. Segundo estudo publicado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, ela, sozinha, consegue impelir quatro importantes neurotransmissores do bem-estar do corpo: serotonina, dopamina, ocitocina e endorfina, mas, para além das substâncias positivas, também pode despertar as negativas (dependendo do BPM e ruído), como no caso da adrenalina, do cortisol e da noradrenalina.
O soar de um instrumento tem o poder de ativar o lado mais imaginativo. Por exemplo, o som de uma celesta pode evocar sensações de curiosidade, magia e balé clássico, enquanto o som de um órgão, que era bastante comum em igrejas católicas do século XVI, pode trazer uma sensação sombria, misteriosa e frequentemente associada a histórias de fantasmas e vampiros.
A mente humana tem a tendência de interligar sons a situações, sensações e épocas diferentes. Segundo artigo publicado pela ComCiência e disponibilizado pela SciELO, o som pode ativar memórias afetivas e reforçar associações emocionais entre experiências e contextos.
O compasso e os instrumentos usados nas músicas também colaboram para isso. Imagina o quão estranho seria uma novela de época usar o som de uma guitarra na sua trilha sonora? Ou o som de um atabaque na apresentação de um balé clássico? São coisas que não dá para imaginar.
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A melodia do assobio de “Twisted Nerve” se assemelha bastante a uma flauta-píccolo, o menor instrumento de uma orquestra e o mais agudo também! Dependendo do estilo, o som pode transitar de uma sonoridade mais alegre, como no caso de alguns desenhos clássicos, para uma sonoridade mais sombria, se tocado com poucas notas.
O efeito psicológico do assobio sozinho também causa medo; no cinema, normalmente é usado para dar “voz” a personagens imprevisíveis, e só de escutar o som sozinho já causa uma sensação de surpresa ou de uma coisa errada que está prestes a surgir.
E é exatamente por este motivo que músicas como “Twisted Nerve”, “Hedwig’s Theme” e “The Phantom of the Opera” tornaram-se símbolos da cultura pop mundial; a sensação deu voz ao cenário e a mente fez todo o resto fazer sentido.
Imagem: Divulgação/Paramount Pictures/Imagem Filmes


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