Crítica: Eles não usam Black Tie

A histórica montagem original de “Eles Não Usam Black Tie” completa 60 anos em 2018 e você não pode perder essa adaptação da obra com canções de Caetano Veloso e Gilberto Gil no Teatro Cesgranrio

 

É impressionante como a obra ambientada no movimento operário da década de 1950 no Brasil trata de questões tão atuais. “Eles não usam black tie”, da obra de Gianfrancesco Guarnieri revela as difíceis condições de vida dos trabalhadores brasileiros a partir da perspectiva realista das favelas dos grandes centros urbanos. A trama é centrada em numa grande família do morro, que vê sua estrutura abalada quando ações individuais põem em xeque um movimento em comum, mais precisamente quando pai e filho tomam decisões distintas.

A adaptação que está em cartaz no Teatro Cesgranrio é idealizada por Isabella Villalba – que também está em cena como Maria – é dirigida por Julio Angelo e a direção musical é assinada por André Muato, (também responsável pela parte musical de “Rio mais Brasil”). A preparação vocal fica por conta de Maíra Garrido (atriz e diretora musical da “Coletiva As Minas”).  Nota-se aqui, sem dúvida um trabalho bem harmonioso entre essas duas partes do espetáculo. As soluções cênicas são simples e diretas, justamente porque o texto pede isso, e dentro dessa proposta, as entradas musicais também são felizes por fugirem de um clássico da estética musical.  Além disso, de fato, não teria ninguém melhor para musicar esta obra do que Gilberto Gil e Caetano Veloso, mestres da música popular brasileira, suas canções emblemáticas só reforçam a voz da comunidade. Pode-se afirmar que esta adaptação do “Eles não usam Black Tie” conta e canta o Brasil como ele é de fato, fazendo com que o público consiga comprar e reconhecer a identidade brasileira na estória que assiste.

Outro elemento que alavancou a questão de identidade nacional foram as soluções bem funcionais do diretor de movimento Jefferson Almeida – que também está em cena como Sebastião. A MPB tem um tom bem específico e não pede grandes coreografias, a forma como os corpos se movem em cena é exatamente na medida – percebe-se um resultado final onde cada parte criativa do projeto realmente se empenhou sobre o real significado do texto e como ele deve tocar a todos os públicos, contar a história por diversos palcos. Com um material que tinha tudo para cair no panfletário, o espetáculo, longe disso, se resume a discorrer relações de amor, solidariedade e esperança.

A montagem peca às vezes por um queda brusca do ritmo e um certo desnível entre o elenco, tanto na interpretação, quanto no canto. Alguns atores estão ancorados por um excelente trabalho de construção de personagem enquanto que outros caem num certo estereótipo – destaque para Natália Seibltiz que está dominando todos os trejeitos da mãe de forma verdadeira, cômica e natural. O espetáculo pede exatamente o tom que a atriz atingiu, palmas para ela.

Jefferson Almeida também segura bem o fura greve Tião, ele tem potência em cena e voltamos a atenção para ele quando contracena com outros personagens. É possível perceber também que em certos momentos o elenco não se escuta verdadeiramente, respondendo certos diálogos na forma, o que faz com que o público se desvie da trama vez ou outra.

Contudo, quem assiste é trazido de volta pelos números sempre harmoniosos, o elenco realmente consegue trazer à tona o aspecto de “voz do povo” sem cair no clichê. Em tempos de profunda desigualdade, a peça se torna necessária, urgente e obrigatória. Além de se tratar de um projeto levantado na guerrilha sem patrocínio que termina essa semana no Teatro Cesgranrio e ainda precisa ser assistida por muitos, senão todos.


Por Rayza Noiá

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