Crítica: Desejo de Matar

A época na qual a legislação Americana sobre o controle de armas de fogo está sendo mais questionada do que nunca, após inúmeros tiroteios, massacres e passeatas pedindo uma restrição maior na venda do produto, não parece o momento ideal para o lançamento de “Desejo de Matar”, o novo filme de Eli Roth. Remake do clássico homônimo de 1974, um longa que, propositalmente ou não, pareceu para muitos espectadores uma ode ao “vigilantismo”, e com um diretor que é reconhecido pela sua falta de tato e bom senso, a produção é, no mínimo, problemática, mas surpreende por não ser um completo desastre.

Em “Desejo de Matar”, Bruce Willis interpreta Paul Kersey, um cirurgião que mora com sua família em Chicago, uma das principais cidades dos Estados Unidos, cuja taxa de criminalidade tem aumentado constantemente. Uma noite, enquanto Kersey trabalha, sua casa é invadida por três ladrões mascarados, porém, quando o roubo dá errado, os homens matam a sua mulher (Elisabeth Shue) e deixam a sua filha (Camila Morrone) em coma após levar um tiro. Frustrado com a falta de resultados da polícia no caso, o médico decide fazer justiça com as próprias mãos e, com uma arma roubada, começa a executar bandidos nas ruas, ao mesmo tempo em que caça os responsáveis pelo que aconteceu com seus familiares.

Em comparação com seus últimos filmes – a maioria que consiste em produções de terror abaixo da média – Eli Roth demonstra algum amadurecimento ao abordar esse remake, realizando um trabalho decente na direção em cenas mais voltadas para ação com alguns truques perspicazes. O melhor desses truques é o bom uso de uma split-screen, que mostra ao mesmo tempo o protagonista se preparando para matar alguém a sangue frio e salvando outra pessoa na mesa de cirurgia.

Porém, o que mais surpreende sobre a presença de Roth na produção não é o que ele faz, mas sim o que ele deixa de fazer. Acusado de misoginia por seus dois últimos longas – “Inferno Canibal” (2013) e “Bata Antes de Entrar” (2015) – o diretor parece mais cauteloso ao escolher retirar a infame cena de estupro do filme original, e de aumentar a participação de Jordan, a filha do protagonista, na história. Outras características de seu estilo, entretanto, continuam presentes, principalmente a confusão tonal, que mistura um humor negro peculiar com cenas de ação e violência exagerada.

Com esses elementos técnicos sendo bastante voláteis, um dos responsáveis por deixar o longa “assistível” é a atuação de seu elenco de apoio. Os atores que fazem os antagonistas são bem convincentes, assim como Dean Norris, que praticamente repete o seu famoso papel do policial Hank Schrader da série Breaking Bad, e Vincent D’Onofrio, que interpreta o irmão do protagonista. Esse último tem se mostrado um dos atores mais confiáveis para dar um pouco de vida a produções medíocres nos últimos anos.

O mesmo, infelizmente, não pode ser dito de Bruce Willis, que parece ter atingido um ponto de sua carreira no qual faz sempre o mesmo personagem, com o mínimo de atuação possível, que parece entediado por toda a duração do longa. Outros nomes considerados para o papel foram Liam Neeson, Frank Grillo, Russell Crowe e Benicio del Toro, e qualquer um deles poderia elevar o nível do longa com o carisma que Willis parece ter perdido nos anos 2000.

Escrito por Joe Carnahan, o roteiro não ajuda muito os seus personagens com seus diálogos robóticos, parecendo quase uma sátira de si mesmo. O roteirista, porém, faz um bom trabalho de traduzir a história original dos anos 1970 para os tempos modernos, e consegue integrar o conceito das redes sociais na trama sem parecer forçado, as utilizando como um modo sarcástico de criticar a facilidade com que se encontra informações na internet, e como a mesma proporciona um afastamento da realidade, e consequentemente uma falta de empatia.

Esse cinismo é bem presente no restante do script, mas de um modo irresponsável. Ao mesmo tempo que critica, de maneira nada sútil, a falta de controle sobre a compra e a venda de armamentos no país, o longa também trata o vigilante como herói e glorifica a violência, o que, como dito anteriormente, é apenas de mal gosto considerando tudo que acontece atualmente nos Estados Unidos.

O sentimento  que permanece quando o longa acaba é que ele foi calculado para tentar não ofender nenhum dos dois lados do debate sobre armas, mas que acaba falhando nisso. O filme não tem o suficiente nesse quesito para ser considerado cretino ou sagaz, e ele pode ser encarado como somente uma ação genérica ou, acima de tudo, um remake que não é tão ruim, mas que é bem desnecessário.

Crítica: Desejo de Matar
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