Drama belga de 2024, “Young Hearts” é coming-of-age leve, mas que sofre pela pouca profundida
“Young Hearts” apresenta uma narrativa leve, suave e contemporânea. Na contramão de muitas obras que retratam relações homoafetivas pela via da tragédia, o longa independente belga-neerlandês escolhe um caminho mais delicado: emocionar no ordinário, nos pequenos gestos e na descoberta silenciosa do primeiro amor.
No entanto, essa delicadeza também revela uma fragilidade perceptível para quem acompanha a trama: a falta de densidade narrativa e de tensão dramática.
Entenda a história

O longa-metragem acompanha Elias, um adolescente de 14 anos que vive em uma cidade interiorana da Bélgica. Sua rotina aparentemente comum, marcada pela convivência familiar, pelos amigos e por uma relação amorosa ainda imatura, começa a se transformar com a chegada de Alexander, um novo vizinho vindo de Bruxelas. Mais seguro de si e de seus sentimentos, Alexander desperta em Elias uma série de emoções que ele ainda não sabe nomear, dando início a um processo de descoberta afetiva e pessoal.
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Nos últimos anos, o cinema tem apresentado uma nova leva de filmes coming-of-age LGBTQIAPN+, frequentemente atravessados pela melancolia, pela rejeição e por desfechos trágicos. “Young Hearts” chega nadando contra essa maré: em vez de transformar a relação homoafetiva em sinônimo de dor, o longa aposta na delicadeza, no afeto e na possibilidade de um primeiro amor vivido sem punição narrativa.
Essa escolha traz alívio ao espectador, que encontra no filme não apenas uma história de amor juvenil, mas a possibilidade de imaginar uma vivência LGBTQIAPN+ sem condenação. Para muitos, “Young Hearts” pode funcionar quase como uma crônica íntima: uma história ficcional que ecoa sentimentos, medos e desejos presentes em suas próprias vidas.
Entretanto, ao se posicionar como uma obra leve, o longa parece abrir mão de uma construção dramática mais profunda. A adolescência, especialmente em uma fase de autoconhecimento afetivo e sexual, costuma provocar confusões internas, mudanças de comportamento e deslocamentos no círculo social. Ainda assim, mesmo cercando Elias de diversos personagens coadjuvantes, o filme pouco explora como essas relações influenciam suas escolhas, seus medos e seus afastamentos ao longo da trama.
O protagonista se coloca como alguém cercado por barreiras que, no fim, não se sustentam. Elias cria distanciamentos com a namorada, com os amigos, com a família para esconder seus sentimentos por Alexander, mas o roteiro não demonstra que essas relações representavam, de fato, uma ameaça concreta à sua descoberta afetiva. Quando todos parecem aceitar sua sexualidade sem grandes conflitos, a tensão anterior perde força e passa a soar mais como uma necessidade artificial de roteiro do que como consequência real da experiência do personagem.
Ainda assim, é possível compreender que essas barreiras não precisam nascer necessariamente de uma rejeição concreta. Para muitos jovens que vivem essa realidade, o medo do julgamento antecede qualquer experiência direta de condenação. A simples possibilidade de ser visto de outra forma ou de perder o lugar que ocupa no próprio círculo social já pode gerar afastamentos e mecanismos de autoproteção. Nesse sentido, Elias carrega uma verdade emocional, mesmo quando o roteiro não aprofunda suficientemente a origem desse medo.
Um filme sem antagonistas

O pai e o irmão de Elias poderiam ampliar a tensão familiar da narrativa, mas acabam subaproveitados. O filme tenta sugerir que o pai é presente, porém emocionalmente distante, mais ligado à música e à carreira do que ao universo interno do filho. No entanto, suas cenas mostram o contrário: ele tenta se aproximar de Elias, ainda que de forma desajeitada. O irmão também poderia representar uma ameaça ou uma fonte de exposição, mas quando vê Elias bêbado, age com uma intervenção protetora, não com julgamento. Com isso, figuras que poderiam alimentar o conflito do protagonista acabam enfraquecendo essa realidade, já que não demonstram rejeição concreta.
O valor da obra

Por outro lado, essa ausência de rejeição também pode ser compreendida como uma escolha sensível do filme. “Young Hearts” parece dialogar com uma percepção mais contemporânea da adolescência, na qual um jovem pode descobrir sua sexualidade sem que isso precise ser tratado como escândalo, condenação ou ruptura familiar. Nesse ponto, o longa encontra uma de suas maiores virtudes: a capacidade de construir uma atmosfera de acolhimento, onde o afeto entre Elias e Alexander é tratado com naturalidade e delicadeza.
Apesar de o roteiro frequentemente empurrar Elias para o afastamento de seus entes e fazê-lo repelir o afeto de Alexander nos momentos de maior exposição, a relação entre os dois protagonistas ainda encontra força na naturalidade das atuações.
Outro ponto positivo está na presença do avô de Elias. Mesmo com pouco tempo de tela, ele se torna uma figura essencial para a trama, pois oferece ao protagonista uma escuta que os outros personagens não conseguem alcançar da mesma forma. Sua participação muda a tônica do conflito aos olhos de Elias: aquilo que antes parecia carregar o peso de ser um “amor tabu” passa a ser compreendido apenas como amor. Ao fazer esse deslocamento, o avô ajuda o protagonista a perceber que um sentimento verdadeiro não deve ser escondido, negado ou desperdiçado.
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“Young Hearts” termina como uma obra sensível, bonita e necessária, mas não completamente bem resolvida. Seu maior mérito está em permitir que uma relação homoafetiva adolescente exista sem tragédia, punição ou condenação. No entanto, ao evitar quase todo peso dramático, o filme também enfraquece parte de sua construção narrativa, criando conflitos que surgem mais pela necessidade do roteiro do que pela força das relações em cena. Ainda assim, a delicadeza entre os protagonistas e a presença simbólica do avô fazem com que o longa permaneça relevante, especialmente por oferecer ao público uma imagem rara: a de um primeiro amor queer tratado como deve ser: um amor jovem, inocente e verdadeiro.
Imagem Destacada: Divulgação/Mares Filmes



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