“Nada se cria, tudo se transforma”

Há mais de 200 anos atrás o químico francês Antoine Laurent Lavoisier, ou simplesmente Lavoisier como é mais conhecido, formulava uma teoria a partir do estudo de um gás (que mais tarde viria a ser denominado oxigênio) e experiências sobre a combustão e calcinação de substâncias. Através desse trabalho, desenvolveu uma lei que ficou conhecida como lei de conservação das massas – ou lei de Lavoisier. Em simples palavras, a ideia provava de forma mais aprofundada a verdade por trás do título usado nesse texto: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

Essa é uma linha de pensamento que pode ser aplicada em diferentes direções, basta olhar ao seu redor para começar a refletir sobre o que é ou não original. No ramo do entretenimento, tal máxima é lei adotada em diferentes produtos. Grande exemplo disso é o mais novo filme sobre os heróis conhecidos como “Power Rangers”. Se existe uma história e personagens que já foram testados em diversos ângulos, sem dúvida alguma é essa.

A nova produção, lançada aqui no Brasil pela Paris Filmes, traz um enredo que bebe bastante na história original, ao mesmo tempo que revela pontos importantes para um melhor desenrolar da trama. Com uma atmosfera mais carregada, diferente de tudo que já havia sido apresentado anteriormente, o filme mostra a luta de Zordon para proteger as poderosas moedas do poder. Séculos mais tarde, após um acidente em uma pedreira, cinco jovens descobrem tal energia e um segredo nunca antes visto por ninguém. A curiosidade os leva em busca de respostas para o acontecido, mas uma sequência de acontecimentos os faz perceber que são responsáveis pelo futuro da humanidade.

Produzido pelo próprio Haim Sabam, Joel Andryc e Brian Casentini, todos envolvidos em outras produções dos heróis para tv, além de nomes de peso do mercado cinematográfico hollywoodiano, o filme chega como um respiro para produções do gênero. Com um trabalho muito bem orquestrado por todos os departamentos envolvidos, uma reconstrução extremamente fiel e efeitos espetaculares, capazes de deixar qualquer outra grande produção de queixo caído, a obra supera seu original e mostra que é possível fazer adaptações do tipo sem apelar para ideias obvias e/ou ridículas.

John Gatins é o responsável pelo roteiro, a partir da história de Matt Sazama (“Deuses do Egito”), Kieran Mulroney (“Sherlock Holmes – O Hogo de Sombras”), Michele Mulroney (“Paperman”) e Burk Sharpless (“O último caçador de bruxas”). O roteirista, que também foi a mente por trás da volta do mitológico King Kong aos cinemas – no recente “Kong – A Ilha da Caveira” realiza a façanha de construir uma narrativa bem amarrada e surpreendentemente empolgante, equilibrando-se tranquilamente entre a comédia e o tom dramático necessário à trama. Os diálogos e algumas ações adotadas pelo entrecho são trabalhados com cautela, abordando temas sociais importantes como relacionamentos, sexualidade (algo raro de se ver em produções do tipo) e bullying. O que ajuda a dar um tom mais verossímil à história.

Dean Israelite, nome por trás do inovador “Projeto Almanaque”, nos apresenta uma direção segura, com uma cinematografia funcional. Através de sua decupagem de direção, temos diferentes aspectos de um filme do gênero, como: ritmo acelerado para valorizar as cenas de ação, com movimentos de câmera que deixam o espectador desnorteado; enquadramentos que situam perfeitamente a situação das personagens, e um bom trabalho de elenco junto a dramaticidade. Sem falar da escolha por certos ângulos, com interesses psicológicos, que proporcionam uma seriedade a uma história que poderia ser adotada como infantil por muitos outros diretores.

A fotografia de Matthew J. Lloyd, também do “Projeto Almanaque” e do interessante “Robot e Frank”, é um dos pontos chaves da produção. Junto ao diretor, Lloyd desenvolve um filme mais adulto, deixando um pouco de lado a paleta com cores vibrantes para abraçar algo mais pardo, fechado, o que acaba sendo essencial para a entrega de algo mais nostálgico, que vai de encontro com o público que cresceu acompanhando a série televisiva e algumas desastradas incursões cinematográficas.

Os departamentos de arte e figurino também conseguiram realizar um trabalho promissor, reconstruindo de forma enigmática a famigerada Alameda dos Anjos, bem como a sede dos Rangers e o maravilhoso uniforme que nos deixa esquecer os pavorosos utilizados anteriormente em qualquer um dos produtos da franquia. Já a maquiagem, embora consiga nos mostrar um bom desempenho em alguns momentos, como a bela reconstrução do aspecto de Zordon na primeira parte do filme, acaba sendo um pouco infantil em alguns pontos. A Rita Repulsa, por exemplo, fica a desejar e deveria seguir o ar mais sombrio do filme.

O elenco cai como uma luva para a produção, sem ser preciso delimitar apenas um como o grande destaque. Todos estão muito bem em cena e apresentam um trabalho a altura do projeto, não devendo nem por um segundo para os atores originais. Pelo contrário, é possível dizer que eles ainda estão melhores, valorizando muito mais a construção de cada um dos Rangers e outros demais em cena, oferecendo uma trabalho mais fechado e realista. Sem falar que temos ainda a presença do sensacional Bryan Cranston, fazendo um personagem que tornou-se inesquecível com o passar dos anos; e Elizabeth Banks em um papel que parece que foi feito para ela.

E não é possível terminar essa crítica sem falar da trilha sonora criada por Brian Tyler, que faz jus a história não deixando nada a desejar. Além de trazer de volta a icônica “Go Go Power Rangers”, com novos arranjos, em uma cena de fazer o coração de qualquer fã pular pela boca.

Ao melhor estilo “Clube dos Cinco” e “Curtindo a vida adoidado”, e repleto de outras referências a cultura pop, “Power Rangers – O filme” acaba sendo um deleite para os fãs e, com certeza, um belíssimo início para quem está descobrindo a aventura agora. Mesmo que o filme não tenha alcançado a bilheteria esperada, merece uma estabilização para a continuidade das produções. Vamos torcer para ganharmos um segundo filme em breve.

Crítica (2): Power Rangers
8Valor Total
Produção8.5
Roteiro8
Direção7.7
Elenco8
Fotografia8
Design de produção8
Trilha Sonona8
Votação do Leitor 0 Votos
0.0