Referência é tudo

Se tratando de filmes de suspense, terror e/ou thriller, atualmente, sempre há questionamentos do que funciona ou não, do que ainda assusta ou como deve se desenvolver a narrativa. Os gêneros que possuem muito adeptos, de uns tempos para cá, vem apresentando poucos filmes que merecem reconhecimento e menções, como “Invocação do Mal” (os dois filmes), “Ouija – A Origem do Mal” e “A Bruxa”.  Porém, um novo lançamento, podemos dizer que é até bem ousado, chega aos cinemas para levantar mais umas vez as pertinentes questões.

“A Cura”, ou em inglês “A Cure For Wellness”, narra a vida de um ambicioso e jovem executivo, Lockhart (Dane DeHaan), que é solicitado pelos sócios da empresa em que trabalha para buscar o CEO que está isolado em um Spa nos Alpes Suíços, realizando um tratamento voluntário. Aos poucos vamos compreendendo sua vida pessoal, e como ele chegou até ali. Porém, durante a tentativa frustrada de retornar com Pembroke (Harry Groener), ele acaba sofrendo um acidente de carro e com a perna lesionada passa a viver como um dos pacientes do spa que também é um sanatório. Com os passar do tempo, ele vai desvendando os mistérios do lugar, assim como passa a ter conhecimento do sombrio passado do castelo em que está, fazendo com que busque uma saída, mas também passe por situações de muita tensão.

A história criada por Justin Haythe e Gore Verbinski, tem o roteiro final assinado somente por Justin e muitos pontos fracos. Embora cheio de referências intrínsecas de outras produções do gênero, ter quase 2h30 de filme chega a ser um pouco absurdo por alguns motivos. Primeiro que todo o motim é psicológico e não há grandes surpresas, onde o espectador facilmente descobre o final. Linkando a isso, o próprio final vem numa desnecessária subestimação de inteligência, numa espécie de “agora você entende a história”. Mas não é possível uma compreensão completa de toda a estrutura porque alguns detalhes ficam em aberto e o filme é bem mais psicológico do que físico. Vale lembrar também que, estruturalmente, o personagem que melhor desenrolou-se foi o protagonista, enquanto os demais ficam a deriva, nos deixando com vontade de ver e saber mais sobre eles.

Se tratando do material, do que existe, a direção de Gore Verbinski é muito bem executada e a forma em que se apresenta na tela é de uma beleza ímpar, embora seja praticamente uma homenagem, para não dizer uma cópia, à direção de Stanley Kubrick. Conhecido por ser um diretor muito detalhista, talvez esse seja o filme em que supera seu próprio trabalho, entregando planos em perfeita perspectiva, movimentos sólidos e convidativos e sequências torturantes de tirar o fôlego. Se pegarmos seu histórico como diretor, “O Chamado” e “Trilogia Piratas do Caribe”, citando os exemplos mais conhecidos, já dá para perceber que verde e bege são suas cores favoritas e elas mais uma vez gritam em nossos olhos com a belíssima direção de fotografia de Bojan Bazelli.

Se juntarmos os dois trabalhos, roteiro e direção, e fizermos uma pequena lista de referências, só para ilustrar, teremos: “Frankenstein”, “O Iluminado”, “O Médico e O Monstro”, “De Olhos Bem Fechados”, “Ilha do Medo”, “A Beira do Abismo”, “Laranja Mecânica”, “A Casa Amaldiçoada”, e assim vai.

Ainda dentro das questões mais técnicas, o departamento de arte mais uma vez dá seu show. Se tratando de um trabalho bem realizado, embora aos olhos de alguns possa parecer simples, a estrutura cênica visual para o desenvolvimento dramático é de um primor sensacional. Existe no filme um refinamento louvável para que o que nos é exposto. Porém, indo, as vezes, na contramão, temos a trilha sonora original de Benjamin Wallfisch, que oscila entre uma intensa e boa composição para algo mais melodramático que não se enquadra em cena.

Como dito acima, o personagem que melhor desenvolveu-se dentro do roteiro foi o protagonista e, consequentemente, o trabalho de Dane DeHaan, absorvendo e exacerbando a (in)sanidade de seu Lockhart, é uma das melhores coisas do filme, embora seu final seja pra lá de duvidoso. Mia Goth que dá vida à Hannah, a única jovem do spa, não chega a chamar a atenção, nem se destacar, mesmo que a estranheza de sua personagem seja relativamente intrigante. Porém, no casting escolhido por Denise Chamian, temos três atores que se agregaram mercadologicamente ao filme, não necessariamente estavam ali para fazerem um bom trabalho. Estamos falando de Harry Groener, que até tem uma boa passagem dentro do contexto, mas não faz de seu personagem algo único dentro de sua pequena participação; Celia Imrie que é uma espécie de elenco de apoio de luxo, sendo uma das pacientes do spa; e Jason Isaacs, numa postura até interessante como Volmer, o médico e dono do local onde a história se passa, mas não expõe um terço de sua capacidade como ator.

Se perguntarem se o filme é bom ou não, só podemos retrucar com a questão: Defina o que é bom para você. “A Cura” é um exemplar de péssimo ritmo, com um contexto regular, com algumas deleitáveis cenas de tenção, mas uma produção de bater no peito, ter orgulho e impor respeito, principalmente se tratando de uma obra de suspense. Resumindo, o filme vale muito pela estrutura visual que temos, não necessariamente pelo texto e/ou contexto. Cabe a você, como expectador, amá-lo ou odiá-lo.

Crítica: A Cura
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