“Ou toca, ou não toca.” (Clarice Lispector)

Conhecido também como Rei-Sol, Luís XIV teve um dos reinados mais longos do Absolutismo Francês. Assumiu o trono após a morte de seu principal ministro, o Cardeal Italiano Jules Mazarin, já que não pôde tomá-lo após a morte de seu pai, Luís XIII, porque só tinha apenas quatro anos de idade.

Em vida, Luís XIV, ou Grande Rei como outrora se chamara, tentou eliminar vestígios do feudalismo e solidificar a aristocracia inclusive chamando pessoas da alta-nobreza para morar em seu luxuoso Palácio de Versalhes. Com isso, tornou-se o Monarca mais poderoso da história, fazendo a França chegar a uma das maiores potências europeias.

Tal contexto serve de ambiente para o próximo filme “A Morte de Luís XIV” do diretor Albert Serra (com roteiro do próprio Albert Serra e Thierry Lounas) que tem estreia prevista para Brasil no próximo 26 de janeiro, tendo sido antes apresentado no 69º Festival de Cannes.

Se eu fosse fazer um resumo do que se trata, nada seria tão literal quanto o próprio nome da obra. Realmente é um filme sobre a morte do Rei Luís XIV. As duas semanas que a antecederam e a sua agonia em cima de uma cama.

Não vou mentir, foi-me complicado escrever essa crítica. Principalmente depois de fazer pesquisas técnicas e descobrir que foi uma das obras mais aclamadas do dito diretor. O fato, é que a mim, o filme não chegou. E fiquei me perguntando se escreveria com o olhar de expectadora ou crítica. Bom, na dúvida, doei um pouco dos dois.

Albert Serra é conhecido por fazer filmes com baixo orçamento, no entanto, isso nunca o impediu de ganhar prêmios, aparecer em festivais importantes e dizer a que veio. A morte também é um dos seus temas recorrentes, o que faz com seus filmes tenham uma assinatura muito particular. Cinegrafista catalão, a obra é uma coprodução franco-portuguesa, apesar do idioma de exibição ser unicamente francês.

No papel do monarca, temos Jean‑Pierre Léaud. Seu médico é representado pelo ator Patrick D’assumçao e coube a Irène Silvagni interpretar Madame de Maintenon. Ainda que existam outros personagens (entre membros do clero e médicos da faculdade), nenhum deles é chamado pelo nome. Sabemos quem são por suas menções e caracterização, mas acabam – a meu ver – tendo um papel mais figurativo.

O mesmo ocorre com Madame de Maintenon (com quem rei Luís casou secretamente), que até pouco mais da metade do filme não sabemos quem é. Imaginamos quem seja por ser a única mulher perto do rei. Mas só temos certeza quando filme já está para acabar.

Ainda que seja ambientalístico, o quarto, na minha opinião entraria facilmente entre os personagens, quiçá como um dos papéis principais. São 115 minutos de filme (pelos menos 100 são passado alí.). O quarto traz mesmo aquela atmosfera premortis, os tons são puxados para o vermelho sangue e todo lugar está iluminado à luz de velas. É um lugar opressor e claustrofóbico. E foi assim que eu vivi o filme… “claustrofobicamente”.

Classificado como drama-histórico, A Morte de Luís XIV é um bom filme se você já tem um conhecimento prévio da história francesa. Caso contrário, alguns hiatos farão com que você o ache dando voltas em si mesmo. É uma narrativa lenta e com poucas falas – Jean – Pierre Léaud deu um show na interpretação – mas no geral é uma tensão que te deixa cansado.

A fotografia é puxada pro bruxuleante das luzes das vela. O que faz com que tudo fique deveras escuro. Mas, tudo bem, já que consideramos que a obra se passa no ano de 1715. O mesmo ocorre com o cenário e a caracterização. Nesse quesito, realmente tudo está fiel a época e impecável.

Para quem gosta dos cults, esse é um filme que você deveria assistir. Para os amantes da história também. No entanto, com citação de Clarice Lispector, “ou toca, ou não toca”. A mim, não tocou. Mas gosto é um critério particular.

Crítica: A Morte de Luís XIV
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