Crítica: Internet – O Filme

Se “O Sexto Sentido” (1999) de M. Night Shyamalan fosse lançado hoje, no famoso diálogo entre o psiquiatra interpretado por Bruce Willis e o garotinho encarnado por Haley Joel Osment, seria totalmente possível trocar a expressão “gente morta” por “youtubers”.

“- Eu vejo youtubers.”

– E onde eles estão?

– Em todo lugar.”

Em capas de revista, em programas de televisão e até estampado em capas de livros – no caso, nos exemplares de suas biografias – e em, pasmem, álbuns de figurinha dá para encontrar o rosto, na maioria das vezes muito jovem, dessas figuras cuja notoriedade vem da produção de conteúdo para a plataforma de compartilhamento de vídeos do Google. No cinema não seria diferente: nos últimos meses tivemos um filme protagonizado pela maior youtuber do Brasil, Kéfera Buchmann (“É Fada!”), uma espécie de cinebiografia contando a trajetória até o sucesso no YouTube de Christian Figueiredo (“Eu Fico Loko”) e agora uma comédia que gira em torno da vida e prática desses digital influencers.

Escrito a seis mãos por Dani Garutti, Mirna Nogueira e pelo controverso comediante Rafinha Bastos, “Internet – o Filme” coloca luz em um fenômeno novo, mas trabalha com ele através de fórmulas desgastadas e, infelizmente, convencionais.

Na história, somos levados ao WebMeet, um evento realizado em um hotel que reúne as personas mais populares da internet. Apostando em um elenco composto boa parte pelos próprios jovens que fazem sucesso na rede, somos apresentados a oito histórias que se cruzam ao longo do filme: Uesley (Gusta Stockler), youtuber mais famoso do Brasil perde seu lugar no estrelato quando publica um vídeo de Natalia (Pathy dos Reis) e Mateus (Felipe Castanheri) se beijando; os parceiros de canal, Tito (Julio Cocielo), Rafa (Igão Underground) e Vepê (T3ddy) apostam um ingresso para uma convenção nos Estados Unidos em troca de quem conseguir ter uma noite com Bárbara (Polly Marinho); Fabi (Gabi Lopes), hóspede no local só para comemorar o aniversário da amiga Malu (Thaynara OG), acaba se tornando famosa na internet contra sua vontade; o casal Laura (Micheli Machado) e Saulo (Maurício Meirelles), está em desespero porque seu cachorro webcelebridade Brioco não quer gravar mais vídeos; Cesinha Passos (Rafinha Bastos) é considerado uma pessoa horrível na internet, encontra uma chance de redenção ao ajudar o estranho Adalgamir (Paulinho Serra); e Paulinho (Rafael Celbit), um famoso jogador de um game de luta que passa a ser perseguido quando descobrem sua real identidade.

(à esq) Gabi Lopes ao lado do youtuber Christian Figueiredo e da famosa no Snapchat Thaynara OG

Construindo seu timing cômico em um humor que há muito anos já perdeu a graça, o mau gosto, em muitos momentos, é rei nessa produção. É muito difícil conceber que em pleno 2017 um filme, para arrancar risadas, tenha a necessidade de apresentar momentos em que a tensão entre dois personagens que se encaram, muito próximos, seja quebrada por um peido e que sem propósito tenha falas do tipo: “Melhor você não entrar no banheiro não, porque eu comi mocotó”. Ou quando no segmento do cachorro, insistem em fazer trocadilhos com o nome do animal e o fato dele estar em estado de inanição e não conseguir trabalhar: “O Brioco tá travado.” Haja vergonha alheia para aguentar!

Além disso, mais que esperado, as piadinhas preconceituosas também são a prata da casa. Na trama envolvendo atriz Polly Marinho como Bárbara, dona de um canal de culinária, a grande “graça” em sair com ela valer uma aposta é o fato dela ser uma mulher gorda. A situação piora quando o filme parece seguir um caminho de redenção, julgando como errada a ação dos personagens, entretanto, essa tomada de consciência é pouco crível, uma vez que na própria direção o filme faz escolhas que a ridicularizam por seu peso.

Sim, em um momento o diretor opta pelo degradante e datado momento “mergulho da baleia”: em que um plano contra-plongeé –a câmera enquadra o objeto visto de baixo para cima – e em câmera lenta Barbarinha se prepara para pular em cima do rapaz deitado na cama no momento antes do sexo, em uma sugestão de que ela é tão pesada que ele será esmagado. Mesmo o plot twist no final desse segmento não é capaz de apagar a ideia que é estabelecida com esse plano.

Por falar em direção, mesmo caindo às vezes em escolhas ruins como essa, Filippo Capuzzi Lapietra boa parte do tempo é competente, mas acaba ficando limitado por um roteiro que trabalha com conceitos tão datados de comédia. Ele tem bons momentos como no raccord – transição de um plano para outro – que vai um gole em uma taça de espumante para um cuspe em um copo de suco de laranja, mostrando a diferença de tratamento entre um youtuber mais famoso e um menos conhecido, e se sai bem na execução de um plano-sequência que nos apresenta os personagens registrando o seu momento de chegada ao WebMeet, pena que essa técnica enquanto recurso narrativo de introdução já tenha caído em um lugar comum, como tudo nesse filme.

Feito sob medida para o público que acompanha o trabalho dos youtubers que estrelam o longa, o apelo fica claro quando ele, além de figuras célebres da internet como Christian Figueiredo e PC Siqueira, traz participações especiais de personalidades cultuadas na internet como os apresentadores Raul Gil, Palmirinha e o cantor Mr. Catra. O primeiro funciona surpreendentemente bem como um repórter que faz cobertura sobre a vida dos famosos, já a presença do último só mostra a insistência do filme com piadas que já passaram da validade. Quanto à ponta da simpática senhorinha que ensina receitas na televisão, ela só pode ser definida como constrangedora; as pessoas se divertem com as trapalhadas que Palmirinha faz espontaneamente; colocando-a para atuar, o resultado obtido é deplorável.

Por fim, conseguindo na medida do possível concluir a narrativa que se propõe – histórias como a do garoto campeão do jogo de luta não só tem o desfecho insatisfatório, como parece deslocada do resto do longa -, “Internet- O Filme” é uma comédia que quer falar de futuro, mas parece que parou no passado. Quer se lambuzar na linguagem do Youtube, das telas do Snapchat, das mensagens efêmeras e das transmissões ao vivo, mas soa, na verdade, como chat do Bate-Papo Uol na época da internet discada.

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