10 de dezembro de 2019

Nos idos de 2007, um senhor muito simpático, Paraibano de voz rouca e cabelos ralos e brancos, falava para uma plateia embebida em suas palavras.

O local: EMERJ – A Escola de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro.

Na plateia: A Malu Madder.. (e eu atrás dela…)

No palco: Ariano Suassuna.

O evento, na verdade, era um ciclo de palestras, leituras dramatizadas e uma aula do próprio Suassuna para comemorar os seus 80 anos (na época).

Simpático e com uma sinergia incrível com todos a sua volta, Suassuna nos mostrava em sua simplicidade o que é ser “o cara”. Com aquele estilo avô que espera os netos com biscoitos recém-saídos do forno, mas com a sagacidade daqueles comediantes de stand up, tivemos uma senhora aula sobre a nossa dica do dia.

O Auto da Compadecida foi encenada pela primeira vez em 1957 em Recife. Logo depois era publicada pela editora AGIR, sendo traduzida em dezenas e dezenas de idiomas. Era o sertão da Paraíba ganhando o mundo. Além de ter três versões cinematográficas e uma série na TV.

A obra é narrada por um palhaço. E tem como cenário original o picadeiro de um circo. É baseada nos romances e história populares do Nordeste. Era o cordel entrando em campo e mostrando o quão rica é essa cultura. O enredo gira ao redor de Chicó e João Grilo. E tudo começa porque eles querem benzer o cachorrinho de sua patroa (a mulher do padeiro).

O livro é dividido entre as falas dos personagens e a narração do palhaço. E é incrível, porque ao lermos, vamos criando na nossa cabeça a fala de cada um. O jeito de cada um… o espaço de cada um. E justo por ser uma peça teatral, a cadência da leitura é diferente. É quase uma canção.

Você passa rindo quase o tempo todo. E consegue ler tudo em menos de um dia.

O tal cachorro que seria benzido pelo padre morre, e nossos personagens falam que ele tem um testamento. E a partir daí temos de tudo: morte, falsa morte, traição, inferno, céu, Deus e o Diabo; e claro, a nossa Compadecida.

É uma obra para você que está precisando relaxar…

 

“Valha-me Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré!

A vaca mansa dá leite, a braba dá quando quer.

A mansa dá sossegada, a braba levanta o pé.

Já fui barco, fui navio, mas hoje sou escalér.

Já fui menino, fui homem, só me falta ser mulher.

Valha-me Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré!”

(p.144)

            E eu poderia aqui falar e falar. É um livro gostoso que só. Mas achei uma entrevista do próprio Suassuna falando sobre essa obra fantástica. Então, hoje, vocês ficam com ele. Em ótima companhia…

 

Show Full Content

About Author View Posts

Avatar
Kinha Fonteneles

Érica nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro, mas deveria ter nascido nesses lugares onde se conversa com plantas, energiza-se cristais e incenso não é só pra dar cheirinho na casa.
Letrista na alma, e essa bem... é grande demais por corpinho de 1,55 que a abriga.
Pisciana com ascendente E lua em câncer. Chora quando está feliz, triste, com raiva e até mesmo com dúvida.
Ah! É uma nefelibata sem cura.

Previous Crítica: Internet – O Filme
Next Bolão #OscarnaWoo: Contagem Regressiva

Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close

NEXT STORY

Close

Crítica: Martírio

25 de abril de 2017
Close