“Manchester à beira-mar” é antes de tudo um filme sobre sua história, seu conteúdo. Kenneth Lonergan (“Gangues de Nova York”) escreveu e dirigiu o filme em uma linguagem única e merecia o Oscar de melhor roteiro original. Assim como o de melhor ator para Casey Aflleck (Trilogia Onze homens e um segredo).

A história narra a vida de Lee Chandler (Casey Aflleck), um tio então depressivo que precisa cuidar do sobrinho quando o pai deste morre.

Kenneth Lonergan consegue trazer um cotidiano muito próximo ao seu público. Problemas tão banais e já vistos que de alguma forma nos toca. E essa “alguma forma” é precisamente sua forma. O encadeamento que constrói temporalmente é sutil e potente simultaneamente. Ele transforma a vida do homem ordinário em algo íntimo e que só nessa proximidade é possível entendê-lo.

Lee Chandler (Casey Affleck) cumpre muito bem seu papel de mal humorado, rabugento e briguento. A princípio o público pode desgostá-lo, para então odiá-lo. E pode ser difícil de tal fato acontecer na sétima arte. Casey Affleck mostra como a apatia, ainda que seja, a falta de pathos, isto é, paixão, é algo que poucos o conseguem com tamanha clareza. Mas há momentos de felicidade, o passado, e é aqui um outro ponto que Kenneth Lonergan acerta bem.

O enredo se passa sempre em duas temporalidades: presente e passado. Neste último, mostra-se o Lee Chandler original, antes da Queda. E tais flashbacks são bem colocados, tão bem posicionados na edição do filme que simulam com fidelidade a própria mente humana em sua funcionalidade. Memórias, traumas e medos emergem da mente por instantes, às vezes meros segundos e reconfiguram todo o contexto. Para quem não apostou em uma fotografia mais ousada ou enquadramentos originais – pois são sempre bem abertos -, Lonergan aposta tudo nesta única linguagem e sai vitorioso.

O elenco conta Joe Chandler (“Super 8″, “O jornal de amanhã”), o tio, e Lucas Hedges, o sobrinho, que faz muito bem o papel de adolescente no aflorar dos desejos, mas principalmente – e aqui Casey Affleck se junta – ao humor. Diante da morte, ambos os protagonistas se distanciam de tudo por meio do humor, o que dá mais realidade ao enredo e a altura certa para a queda emocional de ambos.

Ao contrário do termo “hollywoodiano”, “Manchester à beira-mar” mostra um filme maduro sobre seres humanos normais com suas questões cotidianas. No fundo dá importância ao resto do mundo ignorado pelas telas, mostra o realismo da vida, suas vitórias, suas derrotas, e seus meio-caminhos.

Por Paulo Abe

Crítica (2): Manchester à beira-mar
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