O outro lado de Marina Person

por Daniel Gravelli

 Produtora, apresentadora, atriz e diretora de cinema, a multitalentosa Marina Person é uma artista completa e o seu trabalho vem sendo reconhecido e rendendo diferentes elogios por onde passa, seja por fãs ou, até mesmo, a critica especializada.

marina-person

Nascida em São Paulo, praticamente, embalada na meca do cinema, filha do cineasta Luís Sergio Person (O Caso dos irmãos Naves) e da fotografa e, também, cineasta Regina Jehá (Expedição Viva Marajó), Marina acabou absorvendo informações suficientes para ajudar com que ela seguisse carreira na área.

Formada em cinema pela ECA – Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, chegou a assumir outras funções antes de abraçar a direção, tendo trabalhado como assistente de direção, de som e de câmera em diversos curtas e longas-metragens.

EM 1992 integrou a equipe do longa “Perfume de Gardênia” de Guilherme de Almeida Prado e, no ano seguinte, esteve presente em outro longa, “Capitalismo Selvagem” dirigido por André Klotzel. No mesmo ano começou a trabalhar na produção do Cine MTV, onde ficou por três anos, antes de passar para frente das câmeras e começar a apresentar seu próprio programa em 1996. Naquela mesma época, desenvolveu o roteiro do premiado curta-metragem “Almoço executivo”, qual assinou a direção ao lado de Jorge Espirito Santo.

Considerada uma das peças chaves da MTV, Person continuou na rede por 18 anos, passando por diversos programas, incluindo “Meninas Veneno” que recebeu o prêmio de melhor programa de 2002 pela Associação Paulista de Críticos de Arte. Contudo, mesmo envolvida com a televisão, continuou trabalhando como diretora, dessa vez em um audacioso projeto pessoal: Contar a história de seu pai, através de um documentário que reuniria depoimentos de amigos, estudiosos e familiares. “Person” estreou no Festival de Cinema de Locarno na Suíça e recebeu menção honrosa no Festival de Cinema de Trieste na Itália.

Para tristeza dos fãs, em 2011, deixou a MTV para se dedicar a outros projetos. De lá pra cá, apresentou os programas Cultura Retrô e Metrópolis na Tv Cultura, além de ter dado espaço também a sua carreira de atriz nos filmes “Bens Confiscados” e “O Casamento de Romeu e Julieta”.

Atualmente, Marina Person está no ar com o programa Cinedrops, na rádio Estadão, e possui seu próprio canal de culinária no You Tube, o “Marinando”, onde ela ensina a cozinhar de forma saudável e ainda recebe convidados especiais.

No último dia 3 de dezembro, lançou nos cinemas o seu mais novo filme como diretora, o belíssimo “Califórnia”, que também roteiriza ao lado de Mariana Veríssimo e Francisco Guarnieri. O enredo gira em torno de Estela, uma adolescente de 17 anos vivendo o conflituoso ano de 1984, marcado pela abertura da política no Brasil, depois de 20 anos de ditadura, as primeiras experiências sexuais em tempos de Aids e o florescimento do pós punk e rock brasileiro.

Batemos um papo com a diretora sobre o filme e outros detalhes sobre sua carreira.

PULP! – Antes de ser apresentadora da MTV, você trabalhou na produção da rede. Como surgiu esse convite para estar na frente das câmeras?

MARINA PERSON –  Eu sempre achei que ser VJ da MTV era um emprego muito legal, hahaha.  Trabalhar na MTV era muito bom, gostava de produzir e dirigir o Cine MTV. Foi a Chris Couto que, quando ficou grávida, falou que eu deveria fazer o teste para substituí-la, porque eu conhecia bastante o assunto, falava bem inglês, sabia entrevistar bem as pessoas.  Ela é minha madrinha nesse sentido! O legal é que depois eu que virei madrinha da filha dela… 

P! – Quando você optou em fazer sua estreia em longas-metragens, você abraçou um documentário que falava justamente sobre o seu pai. O que te levou a essa escolha?

MP – O “Person” é um documentário muito pessoal, que eu precisava fazer, tinha a necessidade de falar sobre a minha história e da descoberta de quem foi o meu pai. Quando ele morreu eu era muito pequena. Depois que fiz a faculdade de cinema, entendi a importância da obra dele para a cinematografia brasileira. Senti que deveria fazer um filme sobre essa jornada de busca de uma filha que conhece melhor o pai através dos filmes que ele deixou. Sou muito grata ao cinema por isso.

P! – Embora “California” não seja um documentário, o filme possui uma estrutura bem realista e aborda uma época importante em nosso país. Como surgiu a ideia de fazer esse filme? Chega a ter um lado biográfico na história? (rsrs).

MP – Califórnia não é um filme autobiográfico, mas tem muitos elementos autobiográficos, muitas situações que estão no filme aconteceram comigo. Existem muitas coisas na Estela que são idênticas a mim. Eu era fanática pelo David Bowie como ela, ia ver vídeos de música no sábado à tarde, comprava discos numa loja que se chamava Wop Bop, tinha uma queda pelo surfistinha da escola e me apaixonei por garotos tipo JM. Outro exemplo: Eu li “O Estrangeiro”, livro do Albert Camus, porque queria impressionar um cara que adorava The Cure, igual ao filme!

O filme partiu da minha vontade de falar da minha geração, de como foi ser adolescente em São Paulo nos anos 80. Era um país que se abria politicamente depois de 20 anos de ditadura, um país onde florescia o rock brasileiro com bandas como Legião urbana e Titãs, e uma geração que teve as primeiras experiências sexuais exatamente quando uma nova doença, fatal e que estava ligada ao sexo, foi descoberta.

P! – Você viveu a época em que o filme se passa. O que deve ter te influenciado bastante, como diretora, na hora de contar a história através dos enquadramentos e/ou movimentos de câmera, de forma que pudesse passar com veemência o olhar da personagem perante o momento. Contudo, parte do elenco não passou por isso. Como foi o seu trabalho de preparação com esses atores, tanto em questão a aproximação deles com a época, quanto no aprofundamento psicológico das personagens?

MP – Os atores adolescentes passaram por uma intensa preparação! Eu achava muito importante que eles conhecessem o assunto, que soubessem do que estavam falando. Fizemos uma pesquisa bem grande com os fatos mais importantes daqueles anos. A contextualização política, fatos de comportamento, moda, filmes etc.  Depois nos aprofundamos nas referências que estão no filme, sobretudo a música. Pedi para o Caio Horowicz (que faz o JM) pesquisar sobre o pós-punk. Queria que eles conhecessem The Cure, New Order, Joy Division, Echo and The Bunnymen, David Bowie, Cocteau Twins… Pedi também para eles lerem os livros que são citados no filme como “Feliz Ano Velho” e  “O Estrangeiro”. Também Conversamos muito sobre quem eram esses adolescentes dos anos 80, o que eles queriam, o que procuravam, quais eram os desafios….

Foto Divulgação: Set de California
Foto Divulgação: Set de California

P! – Você chegou a enfrentar algumas dificuldades para a produção e distribuição do filme?

MP – Sim! Muitas! Sobretudo agora, nessa parte de distribuição, a qual não temos muito controle. Estamos nas mãos dos exibidores…

P! – Alguns cineastas brasileiros vem reclamando da falta de espaço para os filmes nacionais, o que afeta diretamente a bilheteria e rendimento final do filme. Já que você acaba de lançar o “California”, qual o seu pensamento sobre isso? E o que você espera do filme?

MP – Essa parte do lançamento é muito dura! São muitas variantes que fazem com que o filme estreie em um lugar. Ainda estou aprendendo sobre esse assunto. De fato o filme brasileiro, sobretudo os que não tem o apoio da Globo Filmes,  está sempre em desvantagem em relação aos grandes lançamentos.

P! – No próximo ano você vem como protagonista do filme “Canção da volta”, ao lado de João Miguel. Fale um pouco mais sobre esse filmes e seus outros projetos.

MP – Sim! Acredita que fiz um filme como atriz? Quando as pessoas falam, “Ah, ela é atriz” eu fico sempre muito insegura, não me vejo assim, rs. Mas o fato é que eu adorei a experiência, quero fazer outros filmes como diretora e como atriz, mas não ao mesmo tempo! Não sei como os atores/diretores conseguem, é tanta coisa de uma só vez!  No “Canção da Volta” eu faço a esposa de Eduardo, o personagem do João Miguel. Ele é um apresentador de programa literário que precisa lidar com a instabilidade dessa mulher que ele ama e que tem uma personalidade instável.

Show Full Content

About Author View Posts

Avatar
Daniel Gravelli

Daniel Gravelli é um brazuca que parle français e roda uns filmes por aí. Apaixonado pelos universos da escrita e da atuação, tem um caso com o teatro e morre de amores pelo cinema. Fotógrafo e crítico nas horas vagas, gosta de cozinhar, apreciar um bom vinho e trocar ideias interessantes.

Previous O Figurino de Batman Vs Superman
Next A segunda CCXP reuniu 142 mil pessoas

Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close
Close