“A Vida Invisível” é aposta brasileira para o Oscar

Durante a 43ª Mostra Internacional de cinema de São Paulo, o cineasta Karim Aïnouz, as atrizes Fernanda Montenegro, Carol Duarte, Julia Stockler e Maria Manoella, além do ator Gregório Duvivier e do produtor Rodrigo Teixeira deram uma entrevista coletiva para falar sobre A Vida Invisível.

Aproveitando a estreia do filme (21 de novembro), selecionamos alguns trechos da conversa, dando preferência para as falas de Aïnouz e Fernanda Montenego sobre o filme e sobre a vida artística.

O primeiro ponto abordado foi sobre as dificuldades de fazer cinema no Brasil atual, após os constantes cortes e a censura empregada pelo governo. Karim Aïnouz respondeu se é mais complicado fazer cinema no Brasil, se é mais gratificante ou se ele segue um dia após o outro:

“É cada dia mais gratificante, eu faço isso há 25 anos, até um pouco mais, e a cada dia eu fico mais feliz com o caminho que o cinema brasileiro está tomando. Eu me lembro que quando eu comecei a fazer cinema, eu quase não comecei a fazer cinema, já que eu achava que não poderia viver de cinema, por exemplo. Eu acho que a gente tem no Brasil uma exuberância, uma diversidade gigantesca no cinema produzido. É um cinema vibrante, que é uma profissão, e eu, quando comecei, nunca achei que poderia ser uma profissão, e isso precisa ser celebrado. Eu digo para quem está começando agora que quando eu estava fazendo meu segundo curta metragem, a câmera quebrou, e eu estava no Ceará, tive que trazer outra, parando a filmagem. Era dificílimo revelar o negativo e, agora, vivemos em um momento onde existem muito mais possibilidades. A gente é um acúmulo histórico, a gente vai aprendendo, e a cada ano a gente produz melhores filmes e a cada ano a gente tem um público maior. Sou muito otimista com o momento que a gente está vivendo criativamente. Este ano é um ano exuberante para o cinema brasileiro, dentro e fora do Brasil. Eu só tenho otimismo na minha frente. Eu me recuso a pensar que pode haver uma crise, que o cinema possa ficar em xeque. Acho que pelo contrário, a gente formou um exército de artistas maravilhoso nos últimos anos.”  

Aproveitando a fala de Aïnouz, Fernanda Montenegro deu sua opinião, ao mesmo tempo em que respondia sobre suas inspirações artísticas, já que ela própria é inspiração para muita gente na classe artística:

“Minha inspiração é estar viva. Na minha idade, é ainda ter uma concatenação psíquica, ainda ter algum folego físico e ainda me convidarem para um filme como esse. E estamos aí, meu Deus, existo ainda. Metade da minha vida foi resolvida, porque eu vim para uma vocação e no inimaginável eu realizei essa viagem. A outra viagem a gente tem que lutar por ela. Eu estou em uma voltagem que ninguém segura, mesmo em um sistema que, às vezes, está contra nós. Esta frente de filmes que nós temos aqui no Brasil neste momento, entre os quais está “A Vida Invisível”, vocês imaginam, nessas circunstâncias, sem verba suficiente, sem nada, e temos uma filmografia de primeira, por uma força de vocação e ninguém vais nos calar, porque é vital. Estou viva! Estou em um filme do Karin.” 

Por fim, Aïnouz discorreu sobre o que o filme representa em sua carreira:

“Representa algo especial na minha vida, não só na carreira. E eu acho que o que há de singular neste filme é que é uma provocação que o Rodrigo Teixeira fez para mim no começo do processo. Eu fui criado na década de 70 e via muita novela, de tarde e de noite, e algumas dessas novelas eu nunca esqueci. “Selva de Pedra” foi uma das que mais me marcou, no começo da teledramaturgia. Eu nunca tive vontade de fazer novela, mas sempre tive vontade de fazer um folhetim, algo que fosse parecido com a origem das novelas. E talvez o que há de novo para mim é um pouco o que o Rodrigo me provocou trazendo esse livro (“A vida invisível de Eurídice Gusmão”, de Martha Batalha) e fazendo essa provocação de contar uma história dentro desse universo, dentro dessa toada, que é o folhetim. Eu queria muito que esse filme fosse um folhetim de rasgar o coração e acho que ele realmente expressa uma vontade de algo que tenho há muitos anos vontade de fazer, e acho que aqui se consolida. Acho que teve uma sinergia nesse filme e que foi impressionante. Para mim isso é muito novo, dentro do que eu já tenho feito desde o começo dos meus curtas até hoje.” 

O filme “A Vida Invisível” está em cartaz nos cinemas nacionais.

Sinopse

Antigas cartas de sua irmã Guida, há muito desaparecida, surpreendem Eurídice, uma senhora de 80 anos. No Rio de Janeiro dos anos 1950, Guida e Eurídice são cruelmente separadas, impedidas de viverem os sonhos que alimentaram juntas ainda adolescentes. Veja a história destas duas mulheres, duas irmãs, tentando lutar contra as forças sociais que insistem em frustrá-las. Invisíveis em uma sociedade paternalista e conservadora, elas se desdobram para seguir em frente.


Imagens e vídeo: Divulgação/Vitrine Filmes/Sony Pictures

Show Full Content

About Author View Posts

Avatar
Rodrigo Chinchio

Formou-se como cinéfilo garimpando pérolas nas saudosas videolocadoras. Atualmente, a videolocadora faz parte de seu quarto abarrotado de Blu-rays e Dvds. Talvez, um dia ele consiga ver sua própria cama.

Previous Crítica: A Grande Mentira
Next Resenha: O Capitão Háteras, de Júlio Verne

Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close
Close