Quando a DreamWorks decide que lembrar dói, mas esquecer é o verdadeiro abismo!
Nos últimos anos, o cinema de animação comercial passou por uma metamorfose estética e temática profunda. O público já não se satisfaz apenas com a piada física ou a computação gráfica protocolar, busca-se o arrebatamento. É exatamente nessa intersecção entre o espetáculo visual e a vulnerabilidade emocional que se posiciona “A Ilha Esquecida” (2026), a 50ª produção da DreamWorks Animation. Dirigido pela dupla responsável pelo aclamado “Gato de Botas 2: O Último Pedido”, o longa-metragem utiliza o rico folclore das Filipinas como pano de fundo para contar uma história universal sobre amadurecimento, a iminência da separação e o peso intangível das nossas memórias.

Roteiro: entre a fantasia mitológica e o medo do amanhã

Situado na efervescente década de 1990, o texto de Joel Crawford e Januel Mercado acompanha Jo e Raissa, duas melhores amigas de infância prestes a tomar rumos distintos após a formatura. O conflito central se estabelece quando elas cruzam um portal para a ilha mística de Nakali. O brilhantismo do roteiro não reside apenas na introdução orgânica de criaturas mitológicas como a temida Manananggal, mas sim na mecânica cruel do próprio lugar, a ilha se alimenta progressivamente das memórias de quem nela habita.
O preço para voltar para casa é esquecer a própria amizade. O texto equilibra com maestria o ritmo ágil de uma aventura de sobrevivência com o melodrama sutil de duas jovens que percebem que crescer significa, inevitavelmente, deixar algo para trás, sem contar que a narrativa tem um quê de “Se Beber, Não Case!” tornando a dinâmica bem diferente e divertida.
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Direção: a assinatura do caos controlado

Conduzindo a transição do lúdico ao visceral temos a direção de Joel Crawford e Januel Mercado consolidando a identidade contemporânea da DreamWorks, uma direção enérgica, que não tem medo de flertar com o perigo ou com o humor absurdo, sem nunca perder o norte dramático. Os diretores sabem exatamente quando acelerar o passo nas sequências de fuga e quando esvaziar a tela para que o silêncio e o olhar das protagonistas ditem o tom da cena. A transição do mundo real para o místico é conduzida com um senso de maravilhamento que remete aos clássicos de aventura dos anos 80 e 90, mas sob uma roupagem visceral e moderna.
Elenco de protagonistas: a harmonia das vozes originais que transcendem a cabine de gravação

No idioma original, a química entre a cantora vencedora do Oscar H.E.R. (Jo) e a atriz Liza Soberano (Raissa) é o coração pulsante da obra. H.E.R. confere a Jo uma rouquidão melancólica e uma vulnerabilidade palpável de quem se sente perdida em relação ao futuro, enquanto Soberano injeta em Raissa a energia pragmática e ansiosa da juventude. O elenco de apoio brilha igualmente, com destaque para a lendária Lea Salonga, que entrega uma performance vocal monstruosa e multifacetada como a antagonista principal, afastando a personagem do mero maniqueísmo, e uma menção honrosa para Dave Franco na excelente interpretação do Raww o “Cãobisomem”.
Elenco de dublagem: a tradução da alma cultural para o sotaque brasileiro

A versão brasileira cumpre a complexa tarefa de traduzir dinâmicas culturais muito específicas sem americanizar ou descaracterizar a essência filipina da produção.
A versão brasileira, produzida nos estúdios da Iyuno Brazil, triunfa pela sensibilidade técnica sob a brilhante direção de dublagem de Fernanda Baronne. O coração dramático do filme ganha vida nas vozes de duas das maiores dubladoras de sua geração: Isabella Simi, que transmite com precisão cirúrgica os anseios e a angústia de Jo, e Pamella Rodrigues, irretocável ao ditar o ritmo enérgico e ansioso de Raissa.
O grande acerto da distribuição nacional reside no uso estratégico de seu Star Talent, o comediante Victor Sarro que fez uma estreia surpreendente no cinema dando voz a Raww, o carismático “cão-bisomem” que é o guia da ilha. Longe de parecer uma escalação puramente comercial ou caricata, o humorista entrega um trabalho genuinamente expressivo, dosado pelo crivo técnico de Baronne.
O elenco se completa com o refinamento de dubladores veteranos do naipe de Silvia Suzy (a aterrorizante Manang), Eleonora Prado (a misteriosa Batiba) e Cecília Lemes (a carismática Lola Fátima), destaques também para a precisão caricata de Gustavo Machado (Príncipe Sereio) e o diferencial de Wirley Contaifer (Bungi, o Bebê-demônio), provando assim que com uma boa escalação e um maguinifico trabalho de direção o mercado brasileiro pode equilibrar o apelo midiático tendo também um absoluto respeito à profissão.
Produção: o amadurecimento institucional de um estúdio

Sob a batuta do produtor Mark Swift, “A Ilha Esquecida” se destaca como um marco de representatividade perfeitamente integrado à narrativa. Trata-se da primeira grande animação de Hollywood ambientada nas Filipinas com uma equipe criativa majoritariamente de ascendência filipina. Isso se reflete no cuidado milimétrico com o world-building, desde a culinária que evoca nostalgia até os pequenos hábitos familiares retratados no início do filme. Não há o exotismo superficial comum em produções ocidentais; há propriedade e respeito.
Efeitos visuais: a explosão cromática de Nakali

Visualmente o filme é um deleite estonteante, seguindo a tendência estilística iniciada por “Aranhaverso” e aprimorada pelo próprio estúdio em “Gato de Botas 2”, a equipe de animação mescla elementos bidimensionais com texturas em 3D que fazem o filme parecer uma pintura em movimento. A ilha de Nakali explode em tela com uma paleta de cores neon, designs geométricos ousados para a fauna mística e jogos de luz e sombra expressionistas que acentuam o perigo psicológico do esquecimento. Cada frame evoca textura, calor e urgência.
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Trilha sonora: o eco melódico da saudade
Das lendárias baladas nostálgicas à explosão contemporânea do P-Pop

A partitura de Nathan Matthew David é um dos elementos mais refinados do projeto misturando instrumentos tradicionais filipinos com arranjos sintetizados que remetem ao pop e ao indie dos anos 90, a música atua como uma contadora de histórias paralela. O grande trunfo musical do longa reside na sua curadoria de bandas e artistas, que funciona como uma ponte temporal e cultural perfeita.
No campo da nostalgia ocidental, hinos eternos do rock e do pop de décadas passadas ditam o peso do desapego, como a emblemática “(Don’t You) Forget About Me” do Simple Minds, a densa “Never Tear Us Apart” do INXS (aqui reinterpretada na voz de Sophia Laforteza) e o hino de perseverança “Don’t Stop Believin’” do Journey.
Paralelamente, o filme consagra a identidade filipina moderna ao inserir grandes fenômenos do P-Pop: o grupo fenomenal BINI brilha com a viciante “A Parallel World”, enquanto os reis do estilo, SB19, fincam suas raízes com uma releitura poderosa de Mga Kababayan. Quando a narrativa ameaça ceder ao caos das cenas de ação, são esses acordes que puxam o espectador de volta para o coração do conflito.
Conclusão
“A Ilha Esquecida” (“Forbidden Island”) não é apenas uma grande aventura comercial, é um ensaio poético sobre o medo de ser esquecido por aqueles que amamos. Ao escolher a memória como moeda de troca, a DreamWorks entrega sua obra mais madura e esteticamente arrebatadora desde “Como Treinar o Seu Dragão”. É um filme que diverte as crianças pela exuberância de suas criaturas e desarma os adultos pelo tom de sua metáfora. Um longa-metragem concebido para fincar raízes duradouras na mente do espectador ironicamente impossível de esquecer. “TAYONÁ!”.
“A Ilha Esquecida”. Imagem Destacada: Divulgação/Universal Pictures



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