Estamos no dia 13 de novembro de 2016 e ainda somos capazes de encontrar coisas como essa que falarei a seguir. Inacreditável!

Lembrando que não estou aqui pra julgar o trabalho de ninguém, nem mesmo o caráter. Apenas pretendo com esse artigo dar a minha opinião como um produtor que atua há 10 anos na cena independente carioca, tendo trabalhado diretamente com diversos tipos de produtores e seus esquemas, assim formando minha opinião.

Todos que trabalham na cena independente sabem das dificuldades desse mercado de trabalho. Podemos citar a falta de apoio das empresas, das casas, da falta de interesse do público e muitos outros motivos que levam a essa dificuldade. Porém, apesar dessa dificuldade de produzir um evento nesse meio, considero errado e totalmente prejudicial o sistema de ingressos para o futuro do cenário independente carioca e até mesmo nacional.

Parto do principio que todo negócio possui um risco, o ônus comercial. Em todo tipo de negócio, empresa ou ramo de atividade, há um risco para aquele que constrói ali o seu “ganha pão”. Sendo assim, todo aquele que se propõe a explorar certa atividade (entenda aqui, ainda, a palavra de forma literal, no sentido de desenvolver atividade) deverá arcar com o risco e prejuízo do seu negócio.

Neste sentido, considero que aquele que inicia sua atividade no ramo de produção deverá arcar com os prejuízos que seu evento possa vir a causar e, em hipótese alguma, poderá considerar que os músicos são também responsáveis por isso. O músico é responsável por executar suas músicas no palco conforme combinado em contrato. Deve ter uma postura adequada com a casa, com a produção e com o público presente. Esse é o dever do músico nessa relação e por isso deve ser cobrado.

Todavia, tornou-se comum em nossa cidade essa “forma de produção”. O “produtor”, exige dos músicos ou bandas uma venda obrigatória de determinada cota de ingressos, que pode variar de 10 a 100 ingressos como já vi por ai, ou pagamento de uma taxa que vai de R$200,00 em diante dependendo do evento.

E esse “esquema parceiro”, de divisão de custos do evento, criado por aquele produtor “inovador”, “amigo”, teoricamente, nas palavras deles, torna possível o sonho de muitas bandas em tocarem e mostrarem seu trabalho. E essas, deveriam agradecer e não reclamar. Afinal, eles são responsáveis por manter a cena viva, rodando, ativa e dando oportunidades de trabalho. Será? Vamos aos fatos.

De acordo com a Wikipedia, o conceito de epidemia é:

“Uma epidemia se caracteriza pela incidência, em curto período de tempo, de grande número de casos de uma doença. … Um surto epidêmico ocorre quando há um grande desequilíbrio com o agente, sendo posto em vantagem. … Ao longo do tempo a relação entre agente e hospedeiro tende a mudar de depredatória (favorecendo o agente) para comensal (que não favorece nem um nem outro).”

É exatamente assim que vejo a relação produtor x músico nesse caso. E justamente com um “X” entre os dois. Porque não se trata de uma parceria e sim de uma disputa, onde o produtor, por ser o criador das oportunidades vence sempre e tem o direito de agir e exigir os esquemas que bem entender. A banda esbarra nas dificuldades diárias de venda dos ingressos. Tendo que se preocupar com o prejuízo que pode ter se não vender,  somando a isso preocupações cotidianas como ensaios, gravações, composições etc. Além da venda de ingressos obrigatória, existem outras formas como obrigação de ir a tantos eventos pra poder tocar que também caracterizam essa exploração. Poderia citar aqui milhares de exemplos, mas vou me prender apenas a venda obrigatória porque muitos acham que isso não acontece mais.

A relação ideal seria produtor + banda. Uma parceria realmente onde as bandas tivessem a preocupação em mostrar seu trabalho com qualidade, gastando sua inquietude em trabalhar isso. Vale ressaltar, que não considero isenta a banda de divulgação. São coisas distintas. Se eu chamo uma banda pra um evento, monto uma parceria, eu espero que a mesma divulgue o evento. Crio a expectativa que a mesma vá avisar aos amigos, fãs, parentes sobre aquele show e vai tentar ajudar o evento, a casa e a produção da mesma forma que ajudamos. Não concordo com banda que diz que não quer levar amigos e nem divulga porque não quer tocar mais pra eles. Tem que ser pensado no outro lado: casa, produção e evento. Porém, exigir da mesma um mínimo é algo ultrapassado e totalmente sem sentido.

Eu assumo o risco de selecionar e colocar determinada banda. Cabe a mim assumir o risco disso. Cabe a banda provar que é digna de minha confiança e apresentar um belo trabalho, uma grande postura e ainda que não leve ninguém diretamente, ao menos se mostre empenhada em ajudar também. É esse o espírito a seguir. A união. Onde todos vão ganhar e não há uma relação de superioridade entre as partes.

A venda de ingressos coloca qualquer banda apta a tocar desde que pague aquela quantia. Com isso, uma banda boa pode ficar de fora. Além disso, a qualidade musical do evento fica comprometida. O critério ao invés de ser técnico passa a ser grana e ciclo de amizades. E ainda assim, os amigos todos vão embora quando percebem que o amigo é um péssimo músico.

Isso tudo reflete diretamente na cena como um todo. Há eventos em regiões caracterizadas por tal esquema, uma baixa incrível na qualidade das bandas e com isso a falta de interesse do público em ir ou permanecer no local para não escutar algo ruim aos seus ouvidos. E ai começam as tradicionais reclamações de falta de público.

Como é feita a seleção para abrir o show de um grande nome? Venda de ingressos? Então o critério para tocar mais perto do artista torna-se “quem vendeu mais ingressos”. E muitos desses artistas nem ligam, sabendo que as bandas que estão agora onde eles estiverem, estão sendo exploradas. Não se preocupam com a qualidade do evento que irão tocar. Basta pagar o cachê.

Será que não fica claro que essa postura cria uma ideia de que não precisa ter qualidade ou até mesmo uma estrutura de qualidade (música, site, EP, fotos etc) para ser lançado? Afinal, basta vender. Ou melhor, basta se vender.

Caro produtor, seja criativo. Assim como foi inovador seu sistema de vendas, pense em algo que incentive as bandas a te ajudarem. Entendo que trata-se de um trabalho e você tem que ganhar com isso sim, mas seja razoável. Chega uma hora que a fonte seca e você vai ter prejudicado o trabalho de todos ao seu redor. É o que tem acontecido. Ainda que o esquema tenha diminuído, ainda se vê muita gente por ai querendo fazer isso. Graças a Deus a mentalidade do músico tem mudado.

Estamos sendo nivelados por baixo. Por isso, as pessoas já olham com certo receio eventos com bandas independentes.  Dá tempo de reverter isso? Sim. Difícil? Sim. A luta é dura, mas não impossível. Tenho visto tanta gente boa engajada em reverter essa situação mesmo com fim de rádios importantes. Cada dia me vejo mais esperançoso. E tenho certeza que reverteremos esse quadro.

Há quem diga que isso, esse tipo de produção e produtores, é um mal necessário ou até mesmo considere uma inovação e a grande criação de um novo “PLANETA DA MÚSICA”.

Outros, como eu, preferem viver nesse planeta aqui mesmo, “perdendo meu tempo” tentando preservá-lo.

Por Gustavo Sanna


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